Jardim da poesia

Publicado em Crônicas

 

Severino Francisco

Enquanto o mundo explode, recebi de empréstimo uma encomenda valiosa: o livro Confissões de jardineiro, do mineiro Alexandre Heilbuth. Ela faz do jardim um mundo em torno do qual tudo gravita por meio de contemplação e de escuta atentas. A apresentação, a introdução e os poemas vêm temperados por um delicado senso de humor e de autoironia.

 

Tudo começou com um grande equívoco, afirma o autor. A primeira vez que o levaram à escola, disseram que eu ia para o “jardim”. Lá chegando procurou as árvores, as flores e as borboletas, mas não encontrou nada disso. Tinha, no entanto, uma razão especial para seguir feliz para a escola: a professora era sua mãe. Pena não ter sido assim pelos anos seguintes.

 

A casa em que morava, em Belo Horizonte, tinha um quintal com arvoredo e um papagaio falante. Cresceu sem jamais perder o encantamento pelas criaturinhas desse mundo verde. “Para mim, nenhum perfume pode ser mais sedutor do que o cheiro de terra molhada. Aproveito então para lhe fazer minha primeira confissão: sou um repetente feliz. Nunca deixei o jardim”.

 

O jardim é observado, contemplado, revolvido e agraciado. Quando dorme, é flagrado no sono, como ocorre no poema Recolhimento: “Certa vez perdi o sono – /Fui ver meu jardim dormir./Era madrugada…/Cuidei de não acordá-lo,/Só olhava./Ele dorme leve, como monge./imerso num silêncio grato, reverente…/E na certeza calma e azul/De uma nova manhã”.

 

O silêncio proporciona uma profunda interação com os habitantes do jardim. Não importa que pertençam ao mundo animal ou vegetal, não importa a linguagem que eles e elas falem: “A pedra./Lá está a dama, senhora do tempo…/Soberana, secreta, monumental./A gente quase não se fala,/Mas eu gosto do jeito que ela me olha”.

 

O jardineiro procura sempre captar e fixar aquele instante precioso, fugaz e fugidio de epifania, representado, com felicidade, no poema sobre o Monjolo: “O monjolo bate… Depois espera a concha se encher de água/Para bater outra vez./Isso não demora /É quase o mesmo tempo em que um colibri/Visita um canteiro de flores. /Sim…/Para quem aprende a olhar as coisas como são,/É possível ter toda a compreensão da vida/apenas neste espaço de tempo: entre um bater e outro do monjolo.”

 

São de pequenas epifanias, muitas vezes imperceptíveis ao senso comum, que se faz esse jardim, mais suspenso do que o Jardim da Babilônia. O segredo está no cultivo deliberado do despojamento, como se lê no belo poema sobre a recusa em implantar a irrigação mecânica no jardim, pois essa decisão implicaria em renunciar ao prazer e encantamento da interação, corpo a corpo, com a terra e com as plantas: “Ah, não!…/Eu não colocaria irrigação mecânica/Em meu jardim./Costumo molhar as plantas/Como quem toma chá com os amigos”.

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