Severino Francisco
Ontem, enquanto o mundo explode, de repente, senti muita saudade de Reynaldo Jardim. Mas, além da saudade, pensei como o seu legado precisa ser conhecido pelas novas gerações de jornalistas. Li em um livro que Paulo Francis foi o maior jornalista cultural do país. Permitam-me discrepar, como diria Antonio Houaiss. Francis era um articulista muito bom, embora eu discordasse dele em quase tudo.
Mas não resiste a uma comparação com Reynaldo, que era jornalista, poeta, artista gráfico, escultor e desenhista. Reynaldo Jardim espalhou pequenas revoluções por onde passou ao longo de uma carreira de mais de 60 anos como jornalista e poeta. Os alvos eram jornais, revistas, suplementos, emissoras de rádio e de televisão.
Parecia aqueles cientistas excêntricos das histórias em quadrinho, dominados por um instinto indomável e furioso de criação, a desferir relâmpagos. A sua loucura era da espécie criadora e lúcida sem a qual as pessoas, as instituições e as nações adoecem de inércia ou inanição. E quem estava por perto também era atingido pelas chispas de invenção.
Inventou ou reformou os principais jornais e emissoras de rádio do país. Criou o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e o jornal O Sol, no qual Zuenir Ventura e Carlos Heitor Cony foram editores; foi editor dos jornais Correio da Manhã e Última Hora; comandou a revista Senhor, onde Guimarães Rosa e Clarice Lispector publicaram os primeiros textos, entre outros; dirigiu a icônica Rádio Mundial. É uma figura inspiradora para as novas gerações.
Diferentemente de Nelson Rodrigues, que recomendava: “Envelheçam, envelheçam”, Reynaldo era um adolescente nato e sempre adorava estar cercado de jovens para trocar energias e estabelecer parcerias. Os mais moços também reverenciavam Reynaldo e o coroavam com o apelido dinástico de “Rey.”
Tive o privilégio de trabalhar dois anos com Reynaldo no Correio, ficamos amigos e testemunhei algumas cenas impagáveis. Reynaldo era editor do caderno de Cultura e eu, repórter. Ele criou um belo suplemento chamado Encarte, mas alguém questionou que o tablóide poderia ser confundido com uma peça publicitária e, portanto, não seria mais publicado.
Reynaldo soltou fogo pelas ventas, trovejou, relampeou, mas logo deu a volta por cima e sentenciou: “Ah, não pode Encarte, então vai ser Desencarte“. Depois de uma duas horas de trabalho furioso, estava pronto o projeto do Desencarte que, aprovado, já começou a circular no dia seguinte.
Não separava poesia e jornalismo (escreveu em O Sol, o título: “FMI é o fim”) nem poesia e vida. Ao saber que seria submetido a um procedimento médico perigoso, reuniu a família e comunicou: “Vou fazer um procedimento, vai dar tudo certo, mas, se não der, chamem a bateria da Aruc”. E, assim se fez, ele morreu em 2 de fevereiro de 2011. No sarau de sétimo dia, a bateria da Aruc abalou o Museu da República com Batucada de bamba: “Quero morrer numa batucada de bamba/Na cadência bonita do samba…”
Certa vez, convidei Reynaldo para falar com os alunos do UniCeub, onde eu lecionava. Combinei várias coisas com ele, mas, ao chegar na sala de aula, ele fez uma performance totalmente imprevista. Em seguida, Reynaldo me presenteou com o belíssimo volume de Sangradas escrituras, com toda a sua obra poética. No outro dia, liguei para ele e comuniquei constrangido que haviam me roubado o livro: “Que maravilha!!!”, exultou Reynaldo. “Que pessoa de bom gosto. Amanhã, eu te dou outro exemplar de Sangradas escrituras”.

