Crédito: Cícero Rodrigues/Memória Globo
Texto por Letícia Passos — Com a morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, a teledramaturgia brasileira encerra um capítulo marcado por berrantes, disputas de terra e sagas que atravessaram gerações. Para quem cresceu ouvindo o som do interior invadir a sala de casa, a obra do autor permanece como um retrato de um Brasil que poucas novelas conseguiram contar.
Enquanto boa parte da dramaturgia voltava os olhos para os grandes centros urbanos, Benedito preferiu o interior. Foi ali que encontrou matéria-prima para discutir imigração, reforma agrária, coronelismo e escravidão, inspirado pelas próprias origens em Vera Cruz e Glicério, no interior paulista, onde cresceu cercado por cafezais e famílias de imigrantes.
Benedito gostava de contar histórias grandes. Famílias rivais, heranças disputadas, transformações sociais e conflitos que atravessavam décadas davam o tom de suas novelas. No meio de tudo isso, sempre havia espaço para um romance capaz de conquistar o público. Foi assim com Bruno Mezenga e Luana, de O Rei do Gado (1996), Matteo e Giuliana, de Terra Nostra (1999), e Zuca e Luís Jerônimo, de Cabocla (2004).
Os romances, porém, eram apenas uma das camadas dessas histórias. Enquanto o público torcia pelos casais, Benedito aproveitava para colocar questões sociais no centro da narrativa. Em O Rei do Gado, por exemplo, a rivalidade entre Mezenga e Berdinazi abriu espaço para uma das discussões mais diretas sobre a posse da terra já vistas na televisão brasileira. Já Terra Nostra e, antes dela, Os Imigrantes (1981), da Band, levaram para a dramaturgia a experiência da imigração italiana, inspirada na própria história familiar do autor.
Cabocla, O Rei do Gado, Terra Nostra e o remake de Meu Pedacinho de Chão (2014) estão disponíveis no Globoplay. Os Imigrantes, exibida originalmente pela Band, segue fora do catálogo do streaming.
Outros títulos indispensáveis para conhecer a obra de Benedito incluem Pantanal (1990), que revolucionou a televisão ao apostar em locações externas e transformar o próprio bioma em personagem; Renascer (1993), com a saga de José Inocêncio na zona cacaueira baiana; e as adaptações literárias Sinhá Moça (1986) e Cabocla (1979), que abordaram desde a luta abolicionista até as disputas coronelistas.
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