Autor: Jéssica Andrade
Férias: Festival ‘Em Cantos’ leva música sensorial a bebês e crianças
4ª edição do evento ocupa o Espaço Cultural Renato Russo e a Escola MIFÁSOL-LÁ, em Brasília, com programação que vai do canto lírico ao samba e inclui oficinas de movimento
As férias de janeiro em Brasília vão ganhar trilha sonora, palco e colo. A 4ª edição do Festival Em Cantos – Música para Crianças chega com uma proposta de escuta sensível e experiências artísticas pensadas para a primeira infância. A programação reune espetáculos e oficinas que atravessam diferentes gêneros, do canto lírico ao samba, passando pela viola caipira. A programação ocorre de 17 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026, sempre às 16h, no Teatro Hugo Rodas, no Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), e na Escola de Música MIFÁSOL-LÁ (503 Sul).
A abertura do festival, no próximo sábado (17/1), coloca os bebês no centro da cena. No Teatro Hugo Rodas, será apresentado “FIO – Música para Bebês”, obra criada para crianças de 0 a 3 anos e seus cuidadores. Em vez de um show tradicional, “FIO” se constrói como uma narrativa sensorial que combina música, teatro e movimento para provocar presença, vínculo e pertencimento.
Com concepção de Jéssica Fritzen, a montagem divide o palco com Plínio Carvalho, em uma condução que aposta na música como linguagem não verbal. A ideia é simples e potente: sons que “esticam, enrolam e conectam”, criando uma ponte direta entre adultos e pequenos, respeitando o tempo de cada bebê e a maneira como ele percebe o mundo.
A inspiração vem de uma lenda japonesa conhecida como Akai Ito, o “fio vermelho” invisível que, segundo a crença, conecta pessoas destinadas a ficarem juntas. Esse fio pode se esticar, se emaranhar, mas não se rompe, tornando-se metáfora de laços afetivos e de um destino que insiste em aproximar. Em cena, a imagem se transforma em convite para que famílias construam memórias e trocas reais, sem pressa e sem excesso de estímulos.
A dimensão pedagógica e artística do espetáculo também é resultado de uma formação imersiva realizada pelos artistas com a Companhia de Música Teatral, de Portugal, referência no encontro entre música e teatro. O aprendizado aparece na costura delicada entre cena e som, pensada para estimular a percepção dos pequenos com cuidado, sem infantilização.
Idealizado pela cantora e arte-educadora Célia Porto em parceria com a MIFÁSOL-LÁ, o Festival Em Cantos nasceu do desejo de oferecer aos “pequenos ouvintes” uma experiência musical de alta qualidade, apostando na inteligência e na sensibilidade da criança, desde bebê. A curadoria deste ano reforça essa ideia ao apresentar estilos variados e formatos que alternam contemplação, narrativa e interação.
Além de “FIO”, o festival traz “Canto Lírico para Crianças”, com Rebecca Pacheco e Marcos Borges, que apresenta o universo da ópera por meio de fábulas e histórias cantadas; “Palco-Céu – Viola Orgânica”, com RC Ballerini e Jun Cascaes, unindo viola caipira e dança em um momento de contemplação; a Oficina Som e Movimento, com Victória Oliveira, pensada para bebês e acompanhantes explorarem corpo e ritmo juntos; e, no encerramento, “Samba na Areia”, com Célia Porto, o maestro Rênio Quintas e Eduardo Bento, em celebração da música popular brasileira para todas as idades.
Um dos diferenciais do Em Cantos está no acolhimento desde a chegada. Antes de cada espetáculo, intervenções artísticas de abertura preparam o ambiente: quatro vozes, com educadores musicais e monitores, introduzem o público na atmosfera do encontro, ajudando crianças e famílias a atravessarem a porta do teatro com mais calma, segurança e encantamento.
Os ingressos são gratuitos, mediante doação de 1 kg de alimento, com retirada prévia pelo Sympla na semana de cada apresentação.
Serviço
Festival Em Cantos – Música para Crianças (4ª edição)
Datas: 17, 18 e 25 de janeiro; 31 de janeiro; 1º de fevereiro de 2026
Horário: 16h
Locais: Teatro Hugo Rodas, no Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), e Escola de Música MIFÁSOL-LÁ (503 Sul, Bloco B)
Ingressos: gratuitos mediante doação de 1 kg de alimento
Retirada: Sympla, disponível na semana de cada evento
Informações: Instagram @festivalemcantos
Abertura do festival
Espetáculo: “FIO – Música para Bebês”
Data: 17 de janeiro (sábado)
Horário: 16h
Local: Teatro Hugo Rodas – Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul)
Público: bebês de 0 a 3 anos e cuidadores
Ingresso: retirada no Sympla (na semana do evento)
Ministério lança curso gratuito sobre cuidados na primeira semana de vida
Formação gratuita capacita profissionais da atenção básica para o acompanhamento de mães e recém-nascidos no período mais sensível do pós-parto
O Ministério da Saúde lançou um novo curso voltado para qualificar o atendimento a mães e recém-nascidos durante a primeira semana de vida, etapa considerada crucial para o fortalecimento da saúde materno-infantil. A formação, oferecida na Atenção Primária à Saúde, tem como foco ampliar a capacidade técnica de profissionais e gestores na atenção precoce, preventiva e humanizada desde os primeiros dias de vida.
A iniciativa, disponibilizada na plataforma da Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNA-SUS), visa promover o cuidado integral à mulher no puerpério e à criança recém-nascida, com ênfase na promoção da saúde, prevenção de agravos e identificação precoce de fatores de risco. A formação também segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e reforça o papel estratégico da atenção primária neste processo.
O primeiro contato da família com a equipe de saúde deve ocorrer preferencialmente ainda na primeira semana de vida, com escuta qualificada, abordagem técnica e articulação entre diferentes saberes e setores do sistema de saúde. O curso foi desenvolvido para traduzir essa abordagem ao cotidiano dos serviços.
Conteúdo e principais temas
O programa aborda temas essenciais para o cuidado materno-infantil, como:
- Acolhimento e vínculo entre profissionais de saúde, mães e famílias;
- Avaliação do estado de saúde do recém-nascido e da mulher no puerpério;
- Planejamento do cuidado e atuação em equipe multiprofissional e intersetorial;
- Estratificação de risco e identificação de sinais de alerta;
- Valorização da visita domiciliar na primeira semana de vida e os passos para a sua realização.
O curso combina diferentes recursos educacionais, como vídeos instrutivos com especialistas, infográficos, fluxogramas e textos de apoio. Os materiais foram pensados para facilitar a aplicação prática dos conteúdos no dia a dia dos serviços de saúde.
Inscrições e certificação
As inscrições são gratuitas e estão abertas pela plataforma da UNA-SUS. A oferta e a certificação da formação são realizadas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com a Coordenação-Geral de Atenção à Saúde das Crianças, Adolescentes e Jovens do Ministério da Saúde. Ao todo, 15 mil vagas estão disponíveis até novembro de 2026.
Férias favorecem consumo de ultraprocessados na infância, alerta especialista
Levantamento mostra que 20% dos alimentos consumidos por bebês e crianças pequenas no Brasil é ultraprocessado; especialistas defendem ação conjunta entre famílias, escolas e políticas públicas
O período de férias escolares costuma trazer mudanças na rotina das famílias e, junto com elas, um risco conhecido, mas ainda subestimado: o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados na infância. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) indicam que 20,5% da alimentação de crianças entre seis meses e dois anos no Brasil já é composta por produtos com alta concentração de açúcar, gordura, sódio e aditivos químicos, como biscoitos, doces e farinhas instantâneas.
Especialistas alertam que esse padrão alimentar, quando iniciado tão cedo, impacta a formação do paladar, a relação emocional com a comida e o risco de doenças ao longo da vida, como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Nas férias, quando há menos controle de horários e maior oferta de lanches prontos, o cuidado precisa ser redobrado.
Segundo a nutricionista da Sanutrin, Cynthia Howlett, especializada em psiconutrição, o cenário revela um desafio que vai além das escolhas individuais das famílias. “Hoje, a escola passou a ter um papel central na alimentação infantil. As crianças fazem dois lanches e, muitas vezes, também o almoço no ambiente escolar. Isso torna a instituição corresponsável pela formação de hábitos alimentares desde a primeira infância”, afirma.
Estudos científicos associam o consumo precoce e frequente de alimentos ultraprocessados a indícios de maior risco de obesidade e alterações na regulação do apetite em crianças. Pesquisadores também mostram que as propriedades desses produtos podem influenciar o sistema de recompensa cerebral e os mecanismos que regulam fome e saciedade. Estudos observacionais ainda revelam que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a maior gordura corporal e risco de obesidade em crianças.
Relatórios da UNICEF reforçam ainda que dietas ultraprocessadas tendem a ter baixa qualidade nutricional e contribuir para excesso de peso, doenças crônicas e hábitos alimentares duradouros.
- Leia também: Retrospectiva: infância no centro do debate em 2025
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo frequente desses produtos leva ao aumento da obesidade infantil, problema que já atinge uma em cada três crianças brasileiras, segundo o Ministério da Saúde.
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, referência do governo federal, é categórico ao recomendar a exclusão total de açúcar e ultraprocessados nessa faixa etária e o incentivo a alimentos in natura ou minimamente processados.
Escola como espaço estratégico de formação alimentar
A mudança no papel das escolas acompanha transformações sociais mais amplas, como jornadas de trabalho mais longas e menos tempo disponível para o preparo das refeições em casa. Se antes a cantina escolar era voltada apenas a pequenos lanches, hoje ela se tornou parte estruturante da rotina alimentar das crianças.
Esse novo contexto impulsionou alterações na gestão da alimentação escolar, com a terceirização do serviço em instituições de médio e grande porte. Empresas especializadas passaram a assumir não apenas a operação das cantinas, mas também a elaboração dos cardápios e ações educativas.
“A modernização não é só tecnológica, como o uso de sistemas digitais para pagamento e controle, mas também pedagógica. A alimentação precisa ser entendida como parte do processo educativo”, explica Cynthia.
Continuidade em casa é necessária
Para além da escola, a especialista reforça que o ambiente doméstico segue sendo determinante. A introdução alimentar saudável depende menos de regras rígidas e mais de experiências positivas com a comida.
Entre as estratégias apontadas por Cynthia estão:
– o exemplo dos adultos à mesa
– a construção de momentos prazerosos em torno da alimentação
– a não imposição ou pressão sobre a criança
– a ampliação do contato com alimentos naturais, feiras e preparações simples
“O vínculo emocional com a comida começa cedo. Quando a alimentação está associada a afeto, memória e cuidado, criamos bases muito mais sólidas para escolhas saudáveis no futuro”, resume Howlett
Cynthia defende que o enfrentamento ao consumo excessivo de ultraprocessados na infância exige políticas públicas, regulação da publicidade infantil e ações integradas entre famílias, escolas e Estado. As férias, nesse sentido, funcionam como um espelho: “escancaram hábitos que já estavam sendo construídos ao longo do ano”, diz a nutricionista.
Férias: 5 livros que ensinam, divertem e estimulam o cérebro
Tempo livre pede leituras que cabem na mala, acolhem no sofá e viram pontes de conversa entre crianças, famílias e educadores.
As férias chegaram — e, com elas, uma oportunidade preciosa para o desenvolvimento infantil. Estudos em neurociência mostram que a leitura na infância estimula áreas do cérebro ligadas à linguagem, à empatia, à autorregulação emocional e à criatividade, além de fortalecer vínculos afetivos quando compartilhados com adultos. Ler não é apenas um passatempo: é uma experiência que organiza pensamentos, amplia repertórios e ajuda a criança a compreender o mundo e a si mesma.
Pensando nisso, reunimos cinco livros que dialogam com diferentes idades e universos. São histórias que despertam a imaginação, acolhem sentimentos, promovem inclusão e convidam à reflexão, tudo com leveza, humor e sensibilidade. Uma curadoria pensada para acompanhar as crianças nas viagens, nos dias tranquilos em casa ou nas pequenas aventuras do cotidiano.
Leia também: Retrospectiva: infância no centro do debate em 2025
Prepare-se para uma vitrine que une aprendizado e encanto, porque boas férias também passam por boas histórias.
O pequeno mundo criativo
Com uma narrativa poética e ilustrações delicadas, o livro convida as crianças a percorrerem uma jornada criativa em busca da reconstrução de um pequeno mundo. A obra estimula o pensamento criativo, o olhar crítico e a resolução de problemas ao integrar arte, sustentabilidade e economia circular. Em tempos de urgência ambiental, a história mostra que imaginar soluções também é um gesto de cuidado com o planeta — e que toda criança pode ser parte dessa transformação.
Autora: Silmara Rascalha Casadei
Editora: Cortez Editora
Onde encontrar: Amazon
Óculos? Pra mim?
Tudo parece menos divertido quando o mundo está borrado. Entre tropeços e apertar de olhos, uma menininha descobre que usar óculos pode transformar não só a visão, mas a forma de se perceber no mundo. Com humor e delicadeza, a história aborda aceitação, autoestima e a beleza das pequenas descobertas do dia a dia. Ao final, o livro traz ainda um guia do oftalmologista Sergio Passerotti para pais e educadores, com orientações sobre os cuidados com a visão infantil.
Autora: Maíra Lot Micales
Editora: Caminho Suave
Onde encontrar: Amazon
Família da Libras – Sentimentos
Os sentimentos não podem ser vistos, mas podem — e precisam — ser expressos. Neste livro sensível e acolhedor, as crianças são convidadas a aprender sobre emoções por meio da Língua Brasileira de Sinais. Com poesia, afeto e sinais, a obra amplia a comunicação emocional e promove inclusão desde a infância, reforçando que acessibilidade também é linguagem, vínculo e cuidado.
Autor: Filipe Macedo
Editora: Ciranda na Escola
Onde encontrar: Amazon
João Problemão
João conhece um “amigo” curioso em um momento de frustração. Pequeno no início, ele cresce à medida que é alimentado — até se tornar um grande problema. A história é uma metáfora potente e acessível sobre emoções, hábitos e autorregulação, ajudando crianças a entenderem que sentimentos precisam ser reconhecidos, não ignorados, para que possam ser manejados de forma saudável.
Autora: Verônica Cunha
Editora: Hanoi Editora
Onde encontrar: Hanoi
Como surgiu o primeiro Griot
Inspirado em relatos ancestrais da África Ocidental, o livro apresenta a origem dos Griots — mestres da palavra responsáveis por preservar a memória, a cultura e a história de seus povos. Mais do que uma narrativa histórica, a obra conecta música, oralidade e identidade cultural, mostrando às crianças a importância das histórias como herança viva entre gerações.
Autor: Rogério Andrade Barbosa
Editora: Cortez Editora
Onde encontrar: Amazon
Cobertura jornalística ao longo do ano evidenciou como a primeira infância atravessa políticas públicas, educação, saúde, comportamento, direitos e o ambiente digital
Ao longo do ano, a primeira infância avançou como tema central no noticiário brasileiro. Reportagens publicadas pelo Correio Braziliense e pelo Blog da Primeira Infância abordaram desde políticas públicas estruturantes e educação infantil até desenvolvimento emocional, proteção digital e o enfrentamento da adultização precoce.
Entre decisões políticas, debates educacionais, alertas científicos e novas formas de violência, o ano escancarou que o cuidado com crianças de 0 a 6 anos não é apenas uma pauta social, mas um dos eixos centrais das escolhas que o país vem fazendo.
1. A primeira infância como alicerce para o país
Estudos e especialistas ouvidos ao longo do ano reforçaram que os primeiros anos de vida são determinantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Reportagens explicaram como o cérebro se forma nesse período e por que políticas voltadas à infância têm impacto direto na redução de desigualdades.
2. Primeira infância como política pública
O debate sobre a infância ganhou contornos institucionais com a implementação da Política Nacional Integrada para a Primeira Infância e discussões no Congresso. As matérias mostraram como a articulação entre saúde, educação e assistência social é fundamental para garantir direitos desde os primeiros anos.
- Lula institui a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância
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3. Licença-paternidade e o cuidado compartilhado
A ampliação da licença-paternidade entrou na pauta legislativa como um avanço no fortalecimento do vínculo familiar e na divisão de responsabilidades. A cobertura destacou como a presença do pai nos primeiros dias de vida impacta o desenvolvimento infantil.
- Licença-paternidade reforça vínculo e divide responsabilidade
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4. Creche e educação infantil: o desafio do acesso
A falta de vagas em creches seguiu como um dos principais gargalos enfrentados pelas famílias. Inaugurações de unidades, filas de espera e desigualdades regionais mostraram que o direito à educação infantil ainda não é plenamente garantido.
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5. Saúde materno-infantil e os primeiros cuidados
Temas como pré-natal, vacinação infantil e atenção básica estiveram presentes na cobertura, reforçando que cuidar da saúde das crianças começa antes do nascimento e depende de políticas públicas contínuas.
6. Choro não é birra: compreender o desenvolvimento emocional
Reportagens ajudaram a desconstruir interpretações equivocadas sobre o comportamento infantil. Especialistas explicaram que o choro é forma de comunicação e que acolher emoções faz parte do cuidado na primeira infância.
7. Combater a adultização precoce é dever coletivo
O tema da adultização ganhou destaque ao longo do ano. As reportagens mostraram como crianças vêm sendo expostas precocemente a pressões e responsabilidades incompatíveis com a idade, e apontaram o papel da escola e da sociedade na proteção do direito de viver a infância.
8. ECA Digital e a proteção da infância na internet
A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital entrou na agenda como resposta aos novos riscos enfrentados por crianças e adolescentes no mundo on-line.
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9. Quando a violência acontece na tela: cyberbullying
A violência digital passou a ser tratada como uma ameaça concreta à saúde emocional das crianças. Reportagens explicaram como identificar sinais, prevenir agressões e promover educação digital.
10. A escola como espaço de proteção da infância
No especial Escolha a escola do seu filho, matérias abordaram o papel da escola como ambiente de acolhimento, respeito ao tempo da infância e promoção do desenvolvimento integral.
Reunidas, essas reportagens constroem um retrato do ano em que a primeira infância ganhou centralidade no debate público. Entre avanços, desafios persistentes e novas ameaças, a cobertura mostrou que proteger o direito de ser criança exige informação, políticas públicas e compromisso coletivo.
Em concordância com o art. 227 da Constituição Federal, a atenção dedicada ao tema ao longo do ano reafirma o compromisso do Correio Braziliense e do Blog da Primeira Infância com uma cobertura qualificada, baseada em dados, ciência e informação de interesse público, voltada à proteção de direitos e ao desenvolvimento das crianças.
FURG recebe primeira cuidoteca da Região Sul para apoiar estudantes com filhos
Iniciativa do governo federal vai oferecer espaço de acolhimento e cuidado infantil dentro da universidade, facilitando a permanência de mães e pais na formação superior
A Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no Rio Grande do Sul, assinou na última quarta-feira (10/12) um acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) para implantar a primeira cuidoteca da Região Sul do Brasil. O espaço vai oferecer atividades de acolhida e cuidado para crianças de 3 a 12 anos, com ou sem deficiência, dependentes de estudantes, servidores e trabalhadores da instituição, com foco em ampliar condições de estudo e trabalho para famílias universitárias.
O projeto, firmado em Brasília por meio da Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família, integra a Política Nacional de Cuidados e foi comemorado pelo titular do MDS, que destacou o papel da cuidoteca em fortalecer o acesso e a conclusão do ensino superior por pessoas responsáveis por crianças.
A cuidadoteca contemplará atividades lúdicas, recreativas e de cuidado, incluindo brincadeiras, contação de histórias, leitura, higiene, alimentação e descanso. O espaço será organizado com foco em acessibilidade e linguagem inclusiva.
Segundo a reitora da FURG, Suzane Gonçalves, a iniciativa representa um suporte importante para quem enfrenta dificuldades de conjugação entre rotina acadêmica e responsabilidades familiares, especialmente em turnos noturnos, quando muitas redes de cuidado usuais estão ausentes. “É garantir tanto o direito das crianças ao cuidado, quanto das suas famílias poderem estudar, concluir um curso superior e a gente desenvolver cada vez mais o nosso país”, afirmou Suzane
O projeto da FURG faz parte de um conjunto maior de cuidotecas em universidades federais brasileiras, que inclui iniciativas em instituições como a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade de Brasília (UnB), entre outras.
Mais da metade dos municípios tem filas por creches, aponta relatório
Levantamento nacional revela que 52,1% das cidades brasileiras registram filas na educação infantil e revela o desafio de transformar diagnóstico em vagas, sobretudo para crianças de 0 a 3 anos
Mais da metade dos municípios brasileiros (52,1%) registra demanda não atendida por vagas em creches, segundo o Retrato da Educação Infantil 2025, levantamento do Ministério da Educação (MEC) em parceria com o Gaepe-Brasil. O dado evidencia que, embora o país tenha avançado na identificação das crianças fora da escola, ainda enfrenta dificuldades para converter informação em acesso efetivo à educação infantil, especialmente na etapa que atende crianças de até 3 anos.
O estudo, que contou com a participação de todos os 5.570 municípios e do Distrito Federal, traz a mais ampla radiografia já realizada sobre a gestão da demanda por creches e pré-escolas no país. Entre as cidades que conseguem quantificar a fila por creche, foram registradas 826,3 mil solicitações não atendidas, número 30,6% maior do que o do ano anterior. O crescimento reflete tanto o aprimoramento dos mecanismos de registro quanto o aumento da procura das famílias.
A pressão é maior entre os bebês. A demanda por vagas para crianças de 0 a 11 meses praticamente dobrou em um ano, passando de 123 mil para 238 mil solicitações. O movimento indica maior conscientização das famílias sobre o direito à educação desde a primeira infância, mas também expõe a insuficiência da oferta pública para absorver essa procura.
Apesar do avanço na formalização das listas de espera, a gestão dessas informações ainda é frágil. Menos da metade dos municípios que mantêm fila por creche utiliza sistemas integrados para organizar a demanda, e 38,5% não divulgam publicamente as listas, o que dificulta o planejamento, o controle social e a definição de critérios claros de prioridade. O relatório destaca que a transparência é condição essencial para garantir equidade no acesso.
A desigualdade aparece de forma contundente no recorte socioeconômico. Crianças de famílias mais ricas têm probabilidade significativamente maior de frequentar creches do que aquelas pertencentes aos domicílios menos favorecidos. O levantamento aponta ainda que 64,3% dos municípios identificam crianças de 0 a 3 anos fora da creche e fora da lista de espera, indicando barreiras de informação, dificuldades de acesso ao cadastro ou ausência de busca ativa contínua.

Na pré-escola, etapa obrigatória para crianças de 4 e 5 anos, o cenário é mais positivo, mas ainda apresenta falhas. Em 2024, o Brasil atingiu 94,6% de cobertura, o maior índice histórico. Mesmo assim, 20,1% dos municípios admitem ter crianças dessa faixa etária fora da escola. A maioria não sabe informar quantas são, mas, nos casos em que houve levantamento, foram identificadas 76.948 crianças sem matrícula, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste.
Outro entrave apontado pelo relatório é a falta de planejamento estruturado para expansão da oferta. Apenas 40,8% dos municípios afirmam ter plano de ampliação de vagas na educação infantil, enquanto 28% reconhecem a necessidade de crescer, mas não possuem qualquer planejamento formal. Mesmo entre as cidades que contam com plano, a maioria não define periodicidade de revisão, o que resulta em ações pontuais e reativas.
O estudo também chama atenção para o impacto da migração interna e internacional sobre as redes municipais. Mais da metade dos gestores relata aumento da demanda provocado pela chegada de novas famílias, e 21,4% afirmam que esse movimento compromete de forma moderada e significativa a capacidade de atendimento, sobretudo em áreas urbanas mais vulneráveis.
Para o MEC e o Gaepe-Brasil, o Retrato da Educação Infantil 2025 deve ser usado como instrumento de gestão e cooperação federativa. Os dados integram o Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil, iniciativa que busca fortalecer o apoio técnico e financeiro aos entes federativos, com foco na expansão do acesso, na melhoria da qualidade e na redução das desigualdades.
O levantamento reforça que o desafio da educação infantil no Brasil vai além da abertura de novas vagas. Sem listas transparentes, busca ativa regular, critérios de prioridade baseados na vulnerabilidade social e planejamento contínuo, o país corre o risco de perpetuar um sistema em que o direito à educação desde a primeira infância segue condicionado ao território, à renda e à capacidade das famílias de acessar o poder público.
46% das crianças mostram ansiedade ligada ao uso de telas, aponta pesquisa
Levantamento revela que metade das crianças apresentam sinais de sofrimento emocional ligados ao tempo de exposição digital; especialistas alertam para impacto na rotina, no sono e no vínculo familiar
Quase metade das crianças brasileiras demonstra algum nível de ansiedade, irritabilidade ou inquietação associado ao uso de telas. O dado faz parte de uma pesquisa inédita do Projeto Brief sobre adultização e uso precoce das redes sociais no país.
O estudo ouviu 1.800 pais sobre o apoio à regulamentação das redes para assegurar um ambiente digital seguro para crianças e adolescentes. O estudo revela um cenário crescente de preocupação entre as famílias: 46% das crianças apresentam comportamentos negativos relacionados ao tempo diante de celulares, tablets, computadores e televisores.
Segundo o levantamento, a ansiedade é o sintoma mais frequente, citado por 27% dos responsáveis. Outros efeitos destacados são irritabilidade (25%), dificuldade de concentração (23%) e alterações no sono (20%). Entre os cuidadores entrevistados, 70% afirmam que gostariam de reduzir o tempo de tela dos filhos, mas têm dificuldade em ajustar a rotina, especialmente diante da sobrecarga de trabalho, da falta de espaços de lazer e do apelo constante das plataformas digitais.
Leia também: Dezembro Dourado: diagnóstico precoce evita 80% dos casos de cegueira infantil
A pesquisa também aponta que 60% das crianças utilizam telas para entretenimento entre uma e três horas por dia. Ou seja, acima do recomendado por especialistas em desenvolvimento infantil. Para crianças com menos de até 5 anos, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) orienta um uso bastante restrito e sempre supervisionado; mesmo assim, entre os entrevistados, 30% das crianças nessa faixa etária passam mais de duas horas diárias conectadas.
O impacto no comportamento preocupa. Responsáveis relatam que, ao retirar o acesso digital, 44% das crianças apresentam resistência intensa, como choro, frustração exagerada ou reações agressivas. O estudo ainda mostra que 52% das famílias percebem piora na convivência doméstica quando o uso de telas aumenta, principalmente em períodos sem escola ou feriados prolongados.
Leia também: Crianças exaustas: rotina cheia e pouco sono elevam fadiga infantil
Para especialistas ouvidos pelo levantamento, o excesso de tempo online afeta habilidades essenciais do desenvolvimento, como interação social, autorregulação emocional e brincadeira livre — etapa considerada fundamental na primeira infância. Eles alertam para a necessidade de que a mediação adulta seja ativa, com regras claras, diálogo e estímulo a atividades fora do ambiente digital.
A pesquisa também investigou a percepção dos adultos sobre a própria relação com as telas. Mais da metade (56%) admite que o próprio uso de celular interfere no tempo de qualidade com os filhos, criando um ciclo em que adultos e crianças reproduzem comportamentos semelhantes.
Os dados reforçam um debate urgente: como equilibrar tecnologia e infância em um país onde a conectividade é parte central da vida cotidiana? Para os especialistas, o ponto não é proibir o acesso, mas construir hábitos saudáveis que priorizem o brincar, o descanso, a convivência e a segurança emocional.
Crianças exaustas: rotina cheia e pouco sono elevam fadiga infantil
Especialistas alertam que longas jornadas na escola, excesso de atividades dirigidas e falta de tempo livre estão deixando crianças emocional e fisicamente esgotadas
Crianças brasileiras estão mais cansadas, irritadas, chorosas e com dificuldade de lidar com o cotidiano. O comportamento, que antes era entendido como “fase”, agora aparece com consistência na fala de especialistas em desenvolvimento infantil e saúde neurológica. A rotina acelerada, marcada por longas jornadas escolares, deslocamentos extensos, estímulos constantes e pouco tempo livre, tem produzido um fenômeno silencioso: a exaustão infantil.
Para além do cansaço pontual, o desgaste aparece na forma de irritabilidade frequente, regressões comportamentais, dificuldade de autorregulação e sinais físicos de tensão. Na primeira infância, quando o cérebro está em intensa maturação, a sobrecarga diária pode alterar comportamentos, afetar o humor, prejudicar o aprendizado e reduzir a capacidade de adaptação das crianças às demandas do dia a dia.
A psicóloga infantil Júlia Silva explica que o esgotamento emocional é uma das primeiras manifestações do cansaço infantil. “Observa-se maior irritabilidade diante de frustrações cotidianas, além de episódios de choro mais frequentes, mesmo durante situações de baixa complexidade emocional. A capacidade de autorregulação diminui, fazendo com que a criança demonstre impaciência, dificuldade em tolerar pequenas esperas e menor flexibilidade frente a mudanças na rotina”, afirma.
Júlia reforça que algumas crianças parecem mais dispersas e desinteressadas em atividades que geralmente despertariam engajamento, um sinal de que o sistema emocional está sobrecarregado. “Esses comportamentos não devem ser interpretados como desobediência, mas sim como sinais de sobrecarga e necessidade de descanso e previsibilidade”.
A neuropediatra Angélica Ávila confirma que o fenômeno já aparece com frequência nos consultórios. “Crianças pequenas estão chegando mais cansadas, irritadas e com menor tolerância às demandas do dia a dia. Nos primeiros anos de vida, o cérebro está em constante maturação, aprendendo a se organizar, a lidar com emoções e a manter atenção. Quando há sobrecarga com excesso de estímulos, pouco descanso e rotinas muito cheias, o cérebro precisa trabalhar demais e o corpo começa a mostrar sinais de fadiga”.
A rotina urbana contribui para agravar o quadro. Crianças passam, em média, até 10h por dia na escola, especialmente nas famílias que dependem do período integral para trabalhar. Após isso, enfrentam deslocamentos, chegam em casa no horário mais sensível da fadiga e ainda precisam cumprir tarefas escolares. A dra. Angélica descreve esse ciclo como uma fonte de desgaste constante. “Quando a carga diária é excessiva, isso se manifesta como irritabilidade frequente, choro fácil, dificuldade de concentração, alterações no sono e até sintomas físicos, como dores de cabeça, dor na barriga ou tensão muscular. O corpo sinaliza que o cérebro está sobrecarregado”.
Ávila destaca que, muitas vezes, essas crianças são incompreendidas e rotuladas como “mimadas” ou “mal-educadas”, quando, na verdade, estão apenas exaustas. “Isso é ainda mais relevante para crianças neuroatípicas, que têm maior sensibilidade a estímulos, dificuldade com transições e necessidade de pausas estruturadas. Para elas, a exaustão chega ainda mais rápido”.
O descanso insuficiente é um dos principais fatores de risco. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda entre 10 e 13 horas de sono para crianças de 3 a 5 anos, mas a rotina real muitas vezes impede a consolidação do descanso. Segundo a neuropediatra, o impacto é profundo.
“Durante o sono, ocorrem processos críticos, como consolidação da memória, organização das redes neurais e regulação de neurotransmissores ligados à atenção e ao humor. A privação de sono causa irritabilidade, dificuldade de aprendizado, menor controle emocional, fadiga cognitiva e até alterações no crescimento físico”, diz Ávila. Ela lembra que a rotina da família influencia diretamente o padrão de sono dos pequenos. “Dificilmente uma casa em que os pais vão dormir à meia-noite vai conseguir que a criança durma às 20h”.
Contágio emocional
A psicóloga Júlia Silva observa que o estresse dos adultos está intimamente ligado ao cansaço infantil. “Crianças têm alta sensibilidade ao ambiente emocional e tendem a captar alterações no tom de voz, no ritmo da rotina, na expressão corporal e no nível de tensão familiar. Quando o adulto está sobrecarregado, a comunicação se torna mais impaciente e apressada, gerando na criança a sensação de instabilidade”.
Júlia define o processo como um “contágio emocional”, em que a criança internaliza o estado afetivo predominante do cuidador. “Comportamentos como agitação, insegurança, apego excessivo, alterações no sono e maior dificuldade de autorregulação são respostas diretas ao ambiente emocional do adulto”.
Ambientes barulhentos e imprevisíveis também colaboram para a fadiga. A dra. Angélica explica que o cérebro infantil tem dificuldade em filtrar estímulos constantes. “Ambientes com excesso de estímulos exigem esforço extra das redes neurais de atenção e regulação emocional, aumentando a fadiga cognitiva. As consequências incluem distração, irritabilidade, dificuldade de seguir regras, alterações na comunicação e menor tolerância a frustrações”.
A exaustão acumulada pode, inclusive, provocar regressões. “Quando o sistema nervoso está sobrecarregado, o cérebro responsável pelo controle emocional e comportamental fica menos eficiente. Isso pode levar a distúrbios do sono, enurese, dificuldade de separação e impulsividade”. Ela alerta que o cansaço se torna sinal de alerta quando é persistente, não melhora com descanso adequado, afeta o comportamento, provoca regressões ou vem acompanhado de sintomas físicos frequentes.
Enquanto famílias tentam preencher todas as lacunas de tempo com atividades, especialistas defendem justamente o contrário. A pediatra Ana Escobar reforça que a agenda infantil está excessivamente preenchida. “Hoje em dia, as crianças têm uma vida muito cheia de compromissos. Existe a escola, outras aulas, natação, inglês, judô, uma série de atividades. Isso acaba sobrecarregando a agenda e reduzindo o tempo livre. As crianças precisam de tempo para brincar, para pensar e até para ter tédio”.
Para Escobar, reservar períodos diários de ócio é essencial. “Na agenda das crianças deveria existir, obrigatoriamente, um tempo livre de pelo menos duas horas em que elas não farão nada. Vão brincar, ler uma revista, inventar algo. O tédio obriga a soluções criativas.” Escobar explica que a imaginação, exercitada nas brincadeiras espontâneas, é uma das funções mais importantes para a vida adulta. “A criança que imagina hoje é o adulto que encontrará soluções criativas no futuro”.
A exaustão infantil não é um detalhe da rotina, mas um sinal de que a infância está sendo vivida em ritmo incompatível com o desenvolvimento humano. Ao reconhecer e ajustar o que cansa as crianças, famílias e escolas podem devolver o que elas mais precisam: tempo, presença, descanso e a liberdade de ser o que são: crianças.
Dezembro Dourado: diagnóstico precoce evita 80% dos casos de cegueira infantil
Campanha reforça importância de consultas regulares, atenção aos sinais de alerta e estímulo ao desenvolvimento visual desde os primeiros meses de vida
Cerca de 80% dos casos de cegueira infantil no mundo podem ser evitados ou tratados quando identificados precocemente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, estimativas do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) mostram que erros refrativos — como miopia, hipermetropia e astigmatismo — estão entre as alterações mais frequentes na infância, ao lado de doenças congênitas e complicações associadas à prematuridade. Esse cenário evidencia a importância da campanha Dezembro Dourado, que busca conscientizar famílias sobre o acompanhamento da saúde ocular desde o nascimento.
Para o oftalmologista Edison Geraissate, do CBV‑Hospital de Olhos e fundador da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), o diagnóstico precoce é determinante para evitar sequelas permanentes. “Diversas condições que podem levar à cegueira infantil são preveníveis ou tratáveis quando detectadas precocemente por meio de exames oftalmológicos. Entre as principais causas estão catarata congênita, glaucoma congênito, retinopatia da prematuridade, erros refrativos não corrigidos, ambliopia, estrabismo de pequeno ângulo e infecções ou inflamações oculares. A avaliação regular permite identificar essas alterações nas primeiras semanas de vida, possibilitando intervenções rápidas e eficazes, reduzindo significativamente o risco de perda visual permanente”, afirma.
A visão passa por um período de desenvolvimento acelerado até os 7 anos, o que torna a infância uma fase decisiva para o diagnóstico. O cronograma recomendado pelos especialistas começa ainda na maternidade, com o teste do olhinho, obrigatório na rede pública e privada. Depois disso, o ideal é realizar um segundo exame entre 6 meses e 1 ano e outro entre 2 e 3 anos, seguido de acompanhamento anual na idade escolar. Em casos de risco — como prematuridade, histórico familiar de doenças oculares, síndromes genéticas ou dificuldades de aprendizagem — as consultas devem ser semestrais.
De acordo com Geraissate, muitas alterações passam despercebidas no cotidiano. “Aproximar objetos do rosto, franzir os olhos, desviar um dos olhos, demonstrar sensibilidade excessiva à luz, tropeçar com frequência, ter dificuldade para acompanhar objetos ou apresentar queda no desempenho escolar são sinais importantes. Em bebês, a ausência de contato visual e o nistagmo também merecem investigação. Ao notar qualquer um desses indícios, é fundamental procurar avaliação oftalmológica completa o quanto antes”, orienta.
Estudos recentes citados pelo CBO apontam que quase 30% das dificuldades escolares têm relação com problemas de visão não diagnosticados. Além disso, a OMS alerta para o avanço global da miopia, especialmente associado ao uso precoce e prolongado de telas.
Diagnóstico precoce melhora o prognóstico
O especialista destaca que a intervenção no momento adequado aumenta significativamente as chances de recuperação. “É possível intervir com correção óptica, terapias visuais, medicamentos ou procedimentos cirúrgicos, quando necessário. Muitas crianças recuperam parcial ou totalmente a visão quando tratadas no tempo certo”, explica. Centros especializados mostram que, quando diagnosticados até os 3 anos, alguns quadros têm taxas de sucesso que chegam a 90%, dependendo da causa.
Para Geraissate, campanhas como o Dezembro Dourado ajudam a romper barreiras de desinformação e ampliar o acesso aos cuidados. “A iniciativa reforça a importância da saúde ocular desde os primeiros dias de vida, promove ações educativas e orienta as famílias. Ela destaca sinais de alerta, incentiva consultas regulares e lembra que a atenção à visão do bebê deve começar logo após o nascimento”, observa.
Ele ressalta ainda que pequenas atitudes no dia a dia potencializam o desenvolvimento visual. Ambientes bem iluminados durante a leitura e as atividades escolares, por exemplo, ajudam a reduzir o esforço ocular. A limitação do tempo de telas também é essencial, assim como o estímulo às atividades ao ar livre, reconhecidas pela ciência como protetoras contra a progressão da miopia. A alimentação rica em vitaminas A, C e E, os cuidados para evitar traumas e a atenção à exposição solar excessiva complementam o cuidado. “São medidas simples, acessíveis e que, somadas ao acompanhamento profissional, favorecem um desenvolvimento visual muito mais saudável”, conclui o oftalmologista.
















