Autor: Jéssica Andrade
Projeto estende salário-maternidade a avós e irmãos em caso de morte da mãe
Proposta em análise na Câmara amplia o benefício para familiares que assumirem a guarda da criança; hoje, regra prioriza cônjuge ou companheiro
Um Projeto de Lei prevê a ampliação do salário-maternidade para avós, bisavós e irmãos com mais de 18 anos que assumirem a responsabilidade por uma criança após a morte da mãe. A proposta está em análise na Câmara dos Deputados e busca adaptar a legislação à realidade de famílias brasileiras, especialmente as monoparentais.
Atualmente, a legislação permite a transferência do benefício apenas ao cônjuge ou companheiro sobrevivente. Com a mudança, o direito poderá ser estendido a outros familiares próximos, desde que tenham a guarda, tutela ou curatela reconhecida judicialmente.
Pelo texto, o pagamento seguirá o período restante a que a mãe teria direito originalmente. O benefício não poderá ser acumulado: apenas um responsável poderá recebê-lo. O valor deverá ser depositado, preferencialmente, em conta bancária do titular da guarda da criança.
De acordo com o autor da proposta, deputado Duda Ramos (MDB-RR), a ausência de previsão legal específica tem gerado insegurança jurídica e dificultado o acesso ao benefício em situações de vulnerabilidade. “A falta de previsão legal expressa dificulta o acesso ao benefício, obrigando familiares a recorrerem à Justiça”, afirmou.
Segundo o parlamentar, é comum que, na ausência da mãe e de um cônjuge, a responsabilidade pela criança recaia imediatamente sobre avós ou irmãos mais velhos. A proposta busca garantir proteção financeira ao recém-nascido nesse momento crítico, evitando burocracia e assegurando condições mínimas de subsistência.
O projeto tramita em caráter conclusivo e será analisado pelas comissões de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, ainda precisa ser aprovado pela Câmara e senado
Ganho de peso acelerado em bebês aumenta risco de obesidade e diabetes
Estudo brasileiro mostra que o ritmo de ganho de peso nos primeiros anos de vida pode influenciar o desenvolvimento de doenças metabólicas no futuro
A velocidade com que um bebê ganha peso nos primeiros dois anos de vida pode influenciar diretamente o risco de desenvolver sobrepeso e obesidade na infância. É o que aponta um estudo brasileiro publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, que analisou a trajetória de crescimento de aproximadamente 1,7 milhão de crianças.
A pesquisa identificou que crianças que apresentaram ganho de peso acelerado até os 2 anos tiveram trajetórias médias de Índice de Massa Corporal (IMC) mais altas entre os 3 e os 9 anos. Nesse grupo, a prevalência de sobrepeso chegou a 18,62% e a de obesidade a 6,77%, índices superiores aos observados em crianças sem esse padrão de crescimento.
Já se sabe que os chamados primeiros mil dias de vida (período que vai da gestação até os 2 anos) são considerado decisivo para a saúde metabólica. É nessa fase que ocorre a chamada programação metabólica, quando o organismo define parte dos mecanismos que regulam o metabolismo, o apetite e o armazenamento de gordura.
“Durante essa fase, o organismo é extremamente sensível a influências ambientais que podem ‘programar’ trajetórias metabólicas para toda a vida, estabelecendo o número e tamanho das células adiposas que persistirão na idade adulta”, explica a endocrinopediatra Jéssica França, do Hospital Municipal Iris Rezende Machado (HMAP), em Aparecida de Goiânia, unidade pública em Goiás gerida pelo Einstein Hospital Israelita.
Segundo a especialista, quando o ganho de peso ocorre de forma acelerada, o organismo pode sofrer alterações metabólicas precoces. “A longo prazo, essas crianças apresentam maior risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e obesidade persistente na adolescência e vida adulta”, alerta.
Além disso, o crescimento acelerado pode afetar o funcionamento do tecido adiposo. “O tecido adiposo formado rapidamente tende a ser menos eficiente, contribuindo para um estado de inflamação crônica de baixo grau”, afirma França.
O estudo também observou que a relação entre ganho rápido de peso e IMC elevado no futuro ocorre independentemente do peso ao nascer. Ainda assim, o risco é maior em bebês que nascem com macrossomia — peso superior a 4 quilos.
“Bebês macrossômicos já nascem com maior número de células adiposas e possível resistência à insulina herdada do ambiente intrauterino. Quando esse perfil se combina com ganho rápido pós-natal, ocorre uma sobrecarga do sistema metabólico ainda imaturo”, detalha a endocrinopediatra.
Por outro lado, bebês que nascem com baixo peso também exigem acompanhamento cuidadoso. Segundo os pesquisadores, a recuperação de peso deve acontecer de forma gradual, ao longo de seis a 24 meses, respeitando o potencial genético da criança e priorizando a qualidade nutricional.
O alerta ocorre em um cenário de crescimento da obesidade infantil no país. Dados do Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes, com base no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), indicam que 32 em cada 100 crianças brasileiras entre 0 e 9 anos já apresentam excesso de peso, incluindo sobrepeso, obesidade ou obesidade grave.
Mantida a tendência atual, metade das crianças e adolescentes do país poderá estar acima do peso até 2035, segundo projeção da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Especialistas destacam que a prevenção começa cedo. Entre as medidas recomendadas estão o incentivo ao aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, após esse período, a introdução alimentar baseada em alimentos in natura, evitando açúcar, excesso de sódio e produtos ultraprocessados.
Rotinas adequadas de sono, estímulo à atividade física e o respeito aos sinais de fome e saciedade do bebê também fazem parte das estratégias de prevenção. “Para famílias em vulnerabilidade social, programas de acompanhamento nutricional e educação alimentar, seja na escola ou na Unidade Básica de Saúde, podem ser fundamentais para quebrar ciclos que levam tanto à desnutrição quanto ao sobrepeso”, afirma Jéssica.
Para a médica, o acompanhamento contínuo durante a primeira infância é essencial para identificar sinais de risco. “Por meio do monitoramento sistemático das curvas de crescimento, educação alimentar continuada e detecção precoce de desvios, é possível prevenir padrões metabólicos adversos que só se manifestariam décadas depois”, conclui.
Com informações da Agência Einstein*
Estudos científicos apontam associação entre excesso de telas e atrasos na linguagem; especialistas explicam sinais de alerta e como estimular a comunicação na primeira infância
Nos primeiros anos de vida, cada som emitido por um bebê é parte de um processo complexo de descoberta do mundo. Balbucios, risadas e as primeiras palavras são marcos importantes do desenvolvimento infantil. Mas muitos pais têm se perguntado se as crianças estão demorando mais para falar e o que pode estar por trás disso.
Pesquisas recentes têm buscado compreender os fatores que influenciam o desenvolvimento da linguagem na infância. Um estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics encontrou associação entre maior tempo de exposição a telas aos 12 meses e atrasos na comunicação aos 2 e 4 anos. Outros trabalhos científicos também apontam relações entre o uso frequente de dispositivos digitais e dificuldades na linguagem expressiva em crianças pequenas.
Por esse motivo, a Academia Americana de Pediatria recomenda evitar o uso de telas antes dos 18 meses de idade (com exceção de videochamadas com familiares).
Apesar da preocupação crescente entre famílias, especialistas alertam que ainda não há evidências científicas suficientes para afirmar que houve um aumento real de casos de atraso de fala.
“Ainda não temos dados científicos consistentes para dizer que houve um aumento nos casos. O que sabemos é que hoje os pais têm mais acesso à informação e procuram avaliação mais cedo quando percebem algo diferente no desenvolvimento da criança”, explica a fonoaudióloga Fernanda Lobo, da Afeto Desenvolvimento Infantil.
Segundo ela, esse movimento de maior conscientização tem levado mais famílias aos consultórios, especialmente nos primeiros anos de vida.
Como a linguagem se desenvolve
O desenvolvimento da linguagem começa muito antes das primeiras palavras. Já nos primeiros meses de vida, o bebê se comunica por meio de sons, choro e expressões.
Entre 4 e 6 meses, surgem vocalizações repetitivas, como “aaaa” e “oooo”.
Entre 7 e 11 meses, aparecem os balbucios com sílabas — “bada”, “dadá”, “mamã” — e gestos comunicativos, como apontar ou dar tchau.
Por volta de 1 ano, a criança costuma falar as primeiras palavras e compreender ordens simples.
Aos 2 anos, o vocabulário pode chegar a cerca de 50 a 200 palavras, com frases curtas.
Aos 3 anos, a fala já é compreendida pela maioria das pessoas ao redor.
Segundo Isabela Alberto, da Afeto Desenvolvimento Infantil, observar esses marcos é fundamental. “Os marcos do desenvolvimento são bem definidos pela pediatria. Quando há atraso nas aquisições esperadas para determinada fase, é importante investigar”, afirma.
O papel das telas no desenvolvimento da fala
Nos últimos anos, a presença de celulares, tablets e televisão se tornou constante na rotina de muitas famílias. Diversos estudos investigam como essa exposição pode impactar o desenvolvimento infantil.
Pesquisas científicas indicam que o problema não está apenas no conteúdo das telas, mas também no fato de que elas podem substituir momentos essenciais de interação.
“O desenvolvimento da linguagem acontece principalmente por meio da interação social. A criança precisa ouvir a fala dirigida a ela, observar expressões faciais, participar de trocas de comunicação e brincar”, explica a especialista.
Quando o tempo de interação é substituído por dispositivos digitais, essas oportunidades de aprendizado podem diminuir. “Brincadeiras simbólicas, contato visual e conversas estimulam habilidades fundamentais para a comunicação. Quando esse tempo é reduzido, o desenvolvimento da linguagem pode ser prejudicado”.
Atraso de fala nem sempre indica transtorno
Apesar da preocupação comum entre pais, especialistas reforçam que atraso de fala nem sempre está relacionado a um transtorno do desenvolvimento.
É importante diferenciar fala e linguagem. A fala está ligada à pronúncia correta dos sons. Já a linguagem envolve compreensão e expressão — ou seja, a capacidade de entender e se comunicar.
“Atrasos na fala podem ter diferentes causas, como ambiente com pouca interação verbal, dificuldades auditivas, questões musculares ou outros fatores do desenvolvimento”, explica Fernanda. Por isso, a avaliação profissional é essencial quando surgem sinais de alerta.
Interação é o principal estímulo para a linguagem
Embora não exista fórmula mágica para estimular a fala, práticas simples do cotidiano fazem grande diferença no desenvolvimento infantil. Conversar com a criança durante as atividades diárias, narrar acontecimentos, ler livros e brincar são estratégias importantes para ampliar o vocabulário e incentivar a comunicação.
“A imitação é uma das principais formas de aprendizagem na infância. Quando os adultos conversam, leem histórias e brincam com a criança, estão oferecendo modelos de linguagem que ela aprende a reproduzir”, explica Isabela.
Ela destaca que o mais importante não é o brinquedo em si, mas a interação de qualidade entre adulto e criança. “Não precisa ser o brinquedo mais caro. O fundamental é a troca, o diálogo, o olhar compartilhado e o tempo de atenção dedicado à criança”.
Ruth Rocha será tema-enredo da Mancha Verde no Carnaval 2027
Educadora terá trajetória celebrada no Sambódromo do Anhembi; escola quer destacar a literatura como instrumento de transformação social
A educadora e escritora brasileira Ruth Rocha, uma das maiores referências da literatura infantil no país, será o tema-enredo da escola de samba Mancha Verde no Carnaval de 2027. O anúncio foi feito no último dia 2 de março, dia em que a autora completou 95 anos, celebrando uma trajetória dedicada à formação de leitores e à valorização da infância.
A proposta da escola é transformar o desfile em uma celebração da literatura infantil como ferramenta de transformação social. Ao escolher Ruth Rocha como tema central, a Mancha Verde pretende destacar o papel da leitura na formação cultural do país e lembrar que a infância é um período decisivo para o desenvolvimento intelectual, emocional e social.
Com mais de 200 livros publicados, Ruth Rocha construiu uma carreira marcada pela defesa da educação e da autonomia das crianças. Obras como Marcelo, Marmelo, Martelo e O Reizinho Mandão tornaram-se clássicos da literatura brasileira e ajudaram a formar gerações de leitores desde a década de 1970. Conhecidos pela linguagem acessível e pela abordagem crítica de temas sociais, os textos de Ruth foram traduzidos para diversos idiomas e adotados em escolas de todo o país.
Segundo a escola de samba, levar a trajetória da escritora para o Carnaval também é uma forma de chamar atenção para um desafio persistente no Brasil: o acesso desigual aos livros e ao incentivo à leitura na infância. “Apesar da relevância da formação leitora nos primeiros anos de vida, muitas crianças ainda crescem sem contato regular com bibliotecas, livrarias ou políticas públicas de estímulo à leitura”, disse a agremiação.
A escolha de Ruth Rocha também simboliza a valorização da educação infantil como base para o desenvolvimento do país. “É nesse período que se formam leitores, cidadãos e pessoas capazes de imaginar e construir futuros diferentes. Ao transformar a literatura em samba, a escola pretende reforçar que investir na infância e na cultura é investir em transformação social”.
“Na educação das crianças, o ato de ler vai muito além da alfabetização; é o despertar da criatividade e da empatia, aguçando a mente para enxergar o mundo com cores mais vivas e possibilidades infinitas. Investir no hábito da leitura é garantir que nossas futuras gerações tenham a liberdade de sonhar e a autonomia para transformar esses sonhos em realidade, tornando a educação um processo vibrante, mágico e verdadeiramente transformador”, afirmou a bicampeã do carnaval paulista.
A Mancha Verde afirmou ainda que a autora participa ativamente da construção do projeto do desfile, ao lado da família e de sua equipe. A proposta é que o enredo vá além da homenagem tradicional e se transforme em um grande manifesto pela leitura e pela imaginação.
Além do desfile no Carnaval de 2027, a escola também pretende desenvolver ao longo do ano atividades culturais e sociais em sua quadra, com foco no incentivo à literatura infantil. A programação deve incluir eventos voltados à comunidade e projetos dedicados às crianças, aproximando o universo dos livros da realidade de novos leitores.
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Brasília recebe mobilização nacional por políticas para autismo
Encontro reunirá especialistas e parlamentares para discutir diagnóstico precoce, inclusão escolar e acesso a terapias no Brasil
Brasília será palco, nos dias 14 e 15 de abril, de um encontro voltado à discussão de políticas públicas para pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Advocacy Day, iniciativa promovida pelo Lions International, deve reunir especialistas, representantes da sociedade civil e parlamentares para debater estratégias de diagnóstico precoce, inclusão e ampliação do acesso a terapias no país.
O evento ocorre em um momento em que o autismo ganha maior visibilidade no debate público brasileiro, impulsionado pelo aumento de diagnósticos e pela mobilização de famílias em torno de direitos como acesso à saúde, educação inclusiva e políticas de apoio ao desenvolvimento infantil.
Segundo estudos, cerca de 1 em cada 36 crianças no mundo está dentro do espectro autista. Especialistas destacam que o diagnóstico precoce e o acompanhamento multidisciplinar são fatores decisivos para favorecer o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e comunicativas.
Durante os dois dias de encontro, a programação prevê debates técnicos, articulações institucionais e audiências com parlamentares no Senado Federal. Entre os temas previstos estão a ampliação da triagem precoce na infância, a capacitação de profissionais de saúde e educação e a necessidade de consolidar dados oficiais sobre o autismo no Brasil.
Outro eixo das discussões será o combate ao estigma social associado ao TEA e o fortalecimento de estratégias de inclusão em escolas e espaços públicos. Organizações que atuam na área defendem que políticas estruturadas podem ampliar a autonomia e a qualidade de vida das pessoas autistas e de suas famílias.
Além dos debates técnicos, o encontro busca aproximar pesquisadores, gestores públicos e entidades da sociedade civil para transformar evidências científicas em propostas concretas de políticas públicas.
As atividades ocorrerão no hotel Windsor Brasília, na Asa Norte, com audiências institucionais previstas no auditório do Senado Federal.
A programação completa do evento deve ser divulgada nos próximos dias.
Ataque que matou 165 meninas em uma escola no Irã reacende alerta internacional sobre o impacto dos conflitos armados na infância
Pequenos caixões alinhados, mochilas escolares cobertas de poeira e famílias em silêncio marcaram a despedida das 165 meninas mortas após um ataque que atingiu uma escola na cidade de Minab, no sul do Irã. As estudantes estavam em sala de aula quando o prédio foi atingido durante a recente escalada militar norte-americana no Oriente Médio.
O caso é considerado um dos ataques mais mortais contra crianças em um ambiente escolar na história recente. Milhares de pessoas ignoraram o risco de novos bombardeios para acompanhar o funeral coletivo das vítimas. A maioria das meninas tinha entre 7 e 12 anos.
A tragédia levanta um alerta que já preocupa organizações humanitárias há anos: as crianças estão entre as principais vítimas dos conflitos armados no mundo. Os impactos da guerra sobre a infância vão muito além das mortes e ferimentos imediatos. Conflitos interrompem a educação, desestruturam famílias, provocam deslocamentos forçados e deixam marcas psicológicas profundas que podem acompanhar essas crianças ao longo de toda a vida. Em muitos casos, embora a guerra comece nos quartéis, as consequências mais duradouras tem origem na infância.
Em nota divulgada após os ataques recentes na região, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) afirmou estar “profundamente preocupado” com relatos de escolas atingidas durante as hostilidades. Segundo a organização, ataques contra civis e contra estruturas essenciais para a sobrevivência da população, como escolas e hospitais, constituem violações do direito internacional humanitário. O organismo também reiterou o apelo por uma cessação imediata das hostilidades e pela proteção da população civil.
O alerta ocorre em um momento em que o número de crianças vivendo em áreas afetadas por conflitos armados atingiu o maior nível já registrado. Estimativas do UNICEF indicam que cerca de 473 milhões de crianças vivem atualmente em regiões marcadas por guerras ou violência armada, o equivalente a aproximadamente 19% da população infantil global — ou uma em cada seis crianças no mundo.
Além da exposição direta à violência, os conflitos obrigam milhões de famílias a abandonarem suas casas. Dados das Nações Unidas mostram que 47 milhões de crianças estavam deslocadas por guerras e violência até o fim de 2023, vivendo muitas vezes em campos improvisados ou em condições precárias.
Organizações humanitárias alertam que os efeitos dessas crises se multiplicam em diferentes dimensões da vida infantil. A Save the Children destaca que guerras interrompem o acesso à educação, ampliam o risco de fome e expõem crianças a diferentes formas de violência, exploração e abuso.
Relatórios recentes da ONU mostram a dimensão do problema. Somente em 2023, foram registradas mais de 32 mil violações graves contra crianças em áreas de conflito, incluindo assassinatos, mutilações, sequestros e recrutamento por grupos armados.
Esses contextos de violência também aprofundam desigualdades sociais. Segundo dados das Nações Unidas, cerca de 80% das necessidades humanitárias globais estão relacionadas a países afetados por conflitos armados. Nos países afetados por conflitos, em média, mais de um terço da população vive na pobreza (34,8%), em comparação com pouco mais de 10% nos países não afetados por conflitos.
Além das consequências imediatas, especialistas alertam para os impactos psicológicos de longo prazo. Estudos indicam que crianças expostas a conflitos armados apresentam maior risco de desenvolver transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
Diante da escalada recente de tensões no Oriente Médio, agências da ONU afirmam que continuam monitorando a situação e se preparando para ampliar a assistência humanitária às famílias afetadas.
Para essas organizações, proteger escolas, hospitais e serviços básicos é essencial para evitar que os conflitos armados destruam não apenas o presente, mas também o futuro de gerações inteiras.
Encontro internacional discute direito à alfabetização como urgência social
Evento discute como garantir que todas as crianças aprendam a ler e escrever até o 2º ano do ensino fundamental, com foco na redução das desigualdades educacionais no Brasil
O Ministério da Educação (MEC) está promovendo o primeiro Encontro Internacional Alfabetização, Equidade e Futuro. A programação começou nesta segunda-feira (23/2) e vai até esta terça (24/2). O evento reuniu representantes de países da América Latina, em Brasília.
O evento integra as ações do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e busca reforçar compromissos e decisões que acelerem a alfabetização na idade adequada e com equidade na região.
Entre as agendas da tarde desta segunda-feira (23), foi realizado painel com o tema “Sistemas de Avaliação em Políticas de Alfabetização”, que apresentou as diferentes políticas de avaliação da alfabetização existentes no continente, com destaque para os desafios comuns e as aprendizagens que podem ser estabelecidas no diálogo regional.
Representante do MEC no painel, o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Manuel Palácios, detalhou como as políticas de avaliação da alfabetização estão organizadas em nível nacional. Na ocasião, ele destacou a importância da articulação com os entes federados.
“É um esforço muito importante de articulação interfederativa para que as políticas estaduais e políticas de colaboração entre estados e municípios estejam alinhadas com as políticas federais. Esse esforço de alinhamento entre o sistema nacional de avaliação e os sistemas estaduais de avaliação da educação básica têm sido uma inovação muito poderosa”, afirmou o Palácios.
O evento integra as ações do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, uma iniciativa do MEC que envolve União, estados e municípios na busca para que jovens concluam o 2º ano do ensino fundamental alfabetizados — um objetivo que ainda não foi alcançado de forma plena no Brasil e na região, segundo educadores e movimentos sociais.
Representantes de Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Uruguai e Brasil participam da programação, que inclui painéis técnicos, troca de experiências e debates sobre políticas públicas que podem reduzir as desigualdades educacionais que persistem há décadas. Também estão presentes secretarias estaduais e municipais de educação, universidades, redes de pesquisa e organizações da sociedade civil.
Na abertura, o ministro da Educação, Camilo Santana, que estava em missão oficial na Índia, foi representado pelo secretário-executivo do MEC, Leonardo Barchini. Para Barchini, discutir alfabetização hoje é “reconhecer que sem a leitura e a escrita consolidadas desde os primeiros anos a criança fica excluída de oportunidades fundamentais ao longo da vida”.
Durante a programação, o tema “Regime de Colaboração na Política de Alfabetização Brasileira” também foi debatido e contou com a participação da secretária de Educação Básica do MEC, Kátia Schweickardt. A agenda teve a proposta de intensificar a importância da construção de estratégias de colaboração e cooperação em diversos níveis, a fim de assegurar a efetividade de políticas de alfabetização em contextos federativos vivenciados em países como o Brasil, o México e a Colômbia.
No diálogo, a secretária citou avanços e desafios no contexto do Compromisso Nacional Criança Alfabetiza, a partir da experiência do regime de colaboração e das ações que integram as políticas de educação e de monitoramento e aperfeiçoamento.
No encontro, ela enfatizou que o Compromisso estabelece, entre seus princípios, a promoção da equidade educacional, sendo considerados aspectos regionais, socioeconômicos, étnico-raciais e de gênero; a colaboração entre os entes federativos; e o fortalecimento das formas de cooperação entre estados e municípios.
Na apresentação, Schweickardt também destacou políticas de enfrentamento às desigualdades no acesso à educação e a importância de defender e melhorar a qualidade das escolas públicas no país. “A qualidade não é medida só pelo resultado; é pela entrega da formação do cidadão, o que nós estamos fazendo. A escola pública forma cidadania para todos e por isso estamos olhando para os mais vulnerabilizados e para fatores como as questões de gênero e raciais. Essa preocupação está na esfera pública”, celebrou.
O encontro também é transmitido ao vivo pelo canal do MEC no YouTube, com tradução simultânea em português, espanhol e Libras, sinalizando a tentativa de incluir não só gestores, mas também educadores, pesquisadores e ativistas no debate.
Dia Nacional da Criança Traqueostomizada reforça cuidado, empatia e inclusão
Data chama atenção para a importância da orientação às famílias, do acompanhamento multidisciplinar e da desmistificação do procedimento. Dia Nacional da Criança Traqueostomizada alerta que o procedimento pode ser decisivo para salvar vidas e garantir qualidade de vida às crianças
Celebrado no dia 18 de fevereiro, o Dia Nacional da Criança Traqueostomizada é uma oportunidade para ampliar a conscientização sobre um procedimento médico muitas vezes cercado de medo e desinformação. A data também reforça a importância do atendimento qualificado e destaca a necessidade de suporte contínuo às famílias e equipes de saúde que acompanham esses pequenos pacientes.
A traqueostomia, procedimento terapêutico que cria uma abertura direta na traqueia para permitir a respiração, pode ser fundamental para garantir a sobrevivência e o desenvolvimento de crianças com dificuldades respiratórias graves. Embora a técnica salve vidas, ela também representa desafios técnicos e emocionais para pais e cuidadores, especialmente em contextos fora do ambiente hospitalar.
De acordo com publicações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o perfil das crianças submetidas à traqueostomia mudou nas últimas décadas. Se antes o procedimento era mais frequentemente associado a infecções respiratórias agudas, hoje está majoritariamente relacionado a condições crônicas complexas, como prematuridade extrema, malformações congênitas das vias aéreas e doenças neuromusculares que exigem suporte ventilatório prolongado.
O aumento da sobrevida de recém-nascidos prematuros e de crianças com doenças raras também contribuiu para a ampliação dessa demanda assistencial.
No Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), a cirurgiã torácica Maria Alice Cardozo explica que a traqueostomia não deve ser vista como algo definitivo ou assustador, mas como uma solução que pode ser temporária e essencial para a segurança respiratória da criança. Segundo ela, a compreensão correta do procedimento desde o primeiro diálogo com a família é um passo importante para reduzir ansiedades e promover cuidado com empatia.
Entre as principais preocupações das famílias está a obstrução da cânula, um risco que pode exigir ações imediatas. Embora o Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu) deva ser acionado em emergências, a equipe do HCB treina as famílias para realizar aspirações, nebulizações e até procedimentos de emergência, como retirar e recolocar a cânula quando necessário. “Às vezes o Samu não chega a tempo. Por isso a família tem que ser orientada”, afirma a médica.
O cuidado vai além do procedimento em si: envolve um atendimento multidisciplinar, incluindo enfermagem, fisioterapia, psicologia e fonoaudiologia. Esta última com papel crucial na reabilitação da fala e da deglutição, aspectos que preocupam intensamente os familiares.
Vida ativa e suporte à família
Apesar da complexidade do tratamento, a médica reforça que a criança traqueostomizada pode viver de forma ativa, com limitações específicas. Elas, por exemplo, devem evitar atividades que aumentem o risco de entrada de água nas vias aéreas, como nadar em piscina. Mas com potencial de desenvolvimento é comparável a de outras crianças, quando acompanhada adequadamente.
Leia também: Comissão aprova oferta de abafadores de ruídos a estudantes autistas
A decânulação, momento em que a cânula é retirada definitivamente, é uma etapa possível para muitas crianças, e ocorre após avaliações clínicas cuidadosas, incluindo broncoscopia e testes de tolerância com a cânula ocluída. O corpo normalmente fecha o orifício da traqueostomia naturalmente, sem a necessidade de pontos cirúrgicos, e a criança permanece em observação por 24 a 48 horas.
Por trás de cada cânula, existe uma criança pronta para descobrir o mundo. O Dia Nacional da Criança Traqueostomizada não é apenas uma data no calendário, mas um convite à empatia, à troca de experiências entre famílias, à melhoria contínua da qualidade de vida dessas crianças e à criação de políticas públicas que garantam assistência integral.
Com informações do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) e da Agência Brasília
Animação infantil apoiada pela Lei Paulo Gustavo vira sucesso na web
Produção de São José dos Pinhais recebeu R$ 39 mil e já ultrapassa 42 mil visualizações no YouTube
O média-metragem de animação “Pruca – A Menina Jacaré” se tornou um sucesso nas plataformas digitais ao ultrapassar a marca de mais de 42 mil visualizações no YouTube, desde que foi disponibilizado em novembro de 2025, segundo dados da produção. (assista abaixo)
Produzido em São José dos Pinhais (PR), o filme infantil foi realizado com o apoio financeiro da Lei Paulo Gustavo (LPG). Por meio de um edital municipal, foram destinados R$ 39 mil para o projeto. A verba foi considerada essencial pela equipe para transformar a ideia em produto audiovisual.
A história se inicia quando uma menina que se recusa a arrumar o quarto é transformada em jacaré por uma bruxa. Para recuperar sua forma humana, a personagem embarca numa jornada pela Mata Atlântica, vivenciando encontros com espécies como mico-leão dourado, sapo-cururu e uma mariposa, além de “vilões” representados por cobra e aranha. Todos os personagens inspirados em animais reais do bioma.
Segundo Ravena Bianca Vargas, produtora audiovisual e uma das responsáveis pelo projeto no Abluba Estúdio de Animação e Vídeo, o enredo foi pensado para combinar diversão com mensagens pedagógicas sobre responsabilidade, respeito ao meio ambiente e cuidado com os seres vivos.
“Queríamos conscientizar o público infantil de que organização vai além de apenas arrumar coisas: trata-se de cuidar de si e das pessoas à sua volta. A Mata Atlântica serve como pano de fundo perfeito para falar sobre biodiversidade e preservação”, explicou Ravena.
A equipe afirmou que a recepção da animação na internet superou as expectativas iniciais. A estratégia de lançamento no canal do YouTube da produção, que já tem alcance consolidado, permitiu que o filme chegasse a diversas regiões do Brasil, muito além do público local de São José dos Pinhais.
“Prevíamos algo em torno de 10 mil visualizações, com foco sobretudo na região. Mas a Pruca se mostrou uma personagem carismática que gerou identificação nacional”, destacou Ravena.
Contrapartida social
Antes de sua divulgação online, a animação foi exibida em casas de acolhimento e ONGs do Paraná, com sessões voltadas para crianças em situação de vulnerabilidade. As exibições contaram com acessibilidade completa, incluindo Libras (Língua Brasileira de Sinais) e legendas, seguidas de bate-papos com o público infantil, o que, segundo a equipe, proporcionou experiências marcantes e feedback direto das crianças.
Para Loana Campos, coordenadora do Escritório Estadual do Ministério da Cultura no Paraná, a Lei Paulo Gustavo foi fundamental para fomentar o setor audiovisual no estado e dar visibilidade a produções locais. Segundo ela, o Paraná recebeu mais de R$ 203 milhões repassados pelo Ministério da Cultura às prefeituras e ao governo estadual.
“A Lei Paulo Gustavo tem sido essencial para descentralizar o fomento cultural, permitindo que talentos fora dos grandes centros desenvolvam e compartilhem suas obras. O sucesso de Pruca – A Menina Jacaré é um exemplo claro do impacto positivo desses investimentos”, afirmou Campos.
Entidades reforçam orientações sobre identificação, prevenção de desaparecimentos, riscos de exploração e cuidados com saúde durante a folia
O Carnaval é uma das maiores manifestações culturais do país e reúne milhões de pessoas em blocos de rua, desfiles e festas populares. Cada vez mais, crianças e adolescentes participam da programação, especialmente em eventos diurnos e familiares. Mas a combinação de aglomeração, calor intenso, consumo de álcool e grande circulação de pessoas exige atenção redobrada dos responsáveis.
Em entrevista à TV Justiça, a supervisora do Núcleo de Apuração e Proteção (NUAPRO) da 1ª Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal (1ª VIJ/TJDFT), Ana Luiza Simões Müller, destacou que um dos episódios mais recorrentes no período carnavalesco é o desencontro entre crianças e responsáveis.
“A identificação com pulseiras, crachás ou etiquetas com o nome do responsável e telefone é uma medida simples que reduz o tempo de reencontro em caso de desencontro”, orientou.
Segundo ela, a distração natural das famílias em meio à festa e os deslocamentos em massa aumentam o risco de separação. Por isso, além da identificação visível, é essencial conversar previamente com a criança e explicar como agir caso os responsáveis a percam. A orientação é conversar anteriormente sobre procurar apenas policiais, agentes públicos, brigadistas ou equipes identificadas da Vara da Infância, evitando qualquer abordagem de desconhecidos.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) também reforçou orientações para o período, destacando que o Carnaval deve ser um espaço de alegria com proteção integral garantida. Antes da folia, o organismo recomenda combinar pontos de encontro, guardar uma foto recente da criança com a roupa do dia e avaliar se o ambiente escolhido é adequado para a faixa etária.
Blocos com menor lotação, estrutura de apoio e programação voltada ao público infantil tendem a oferecer mais segurança.
Para adolescentes, a recomendação inclui manter o celular carregado, com contatos de emergência salvos, e alinhar regras claras sobre horários e deslocamentos.
Supervisão constante e prevenção de riscos
Durante a festa, a supervisão deve ser permanente. “Crianças devem estar sempre acompanhadas por um adulto responsável”, reforça o UNICEF. O órgão alerta ainda que grandes eventos podem intensificar riscos como exploração sexual, trabalho infantil, oferta de bebidas alcoólicas e exposição precoce ao consumo de drogas.
A venda e o fornecimento de álcool a pessoas com menos de 18 anos são proibidos por lei e configuram crime. A 1ª VIJ também destacou a importância de os responsáveis observarem sinais de vulnerabilidade, sobretudo em adolescentes, que podem estar mais expostos a situações de risco em ambientes com consumo generalizado de álcool.
Ao identificar qualquer criança desacompanhada, em situação de trabalho infantil ou com sinais de violência física ou sexual, a orientação é acionar imediatamente os canais oficiais de denúncia, como o Disque 100, o Conselho Tutelar ou a Polícia Militar.
Saúde também é prioridade
Além da segurança, os cuidados com a saúde são indispensáveis. Crianças têm maior dificuldade de regular a temperatura corporal e podem desidratar rapidamente. A recomendação é oferecer água com frequência, evitar exposição prolongada ao sol e reaplicar o protetor solar a cada duas horas.
Roupas leves e confortáveis ajudam a prevenir mal-estar. Fantasias devem permitir ventilação e mobilidade. Em blocos com som amplificado, protetores auriculares são indicados, especialmente para bebês, crianças pequenas, pessoas com sensibilidades sensoriais e dentro do espectro autista.
A proteção de crianças e adolescentes é garantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que estabelece prioridade absoluta à infância e responsabiliza família, sociedade e poder público. No Carnaval, isso se traduz em planejamento, diálogo e presença ativa dos adultos. Como reforçou a representante da Vara da Infância: “O importante é aproveitar o Carnaval com responsabilidade”.











