Autor: Jéssica Andrade
Novo conceito amplia o olhar sobre a maternidade e vai além da ausência de doenças
A Organização Mundial da Saúde (OMS) deu um passo histórico ao formular uma definição oficial de bem-estar materno, reconhecendo que a experiência da maternidade não pode ser avaliada apenas pela ausência de doenças ou de complicações médicas. A iniciativa, apresentada em 2025, amplia o entendimento sobre saúde materna ao incluir dimensões físicas, mentais, sociais e estruturais que atravessam a vida das mulheres durante a gestação, o parto e o pós-parto.
Para entender a relevância dessa mudança, é preciso voltar no tempo. Desde 1948, a organização define saúde, em sua Constituição, como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Esse conceito geral orientou políticas públicas no mundo inteiro e foi amplamente aplicado à saúde materna e reprodutiva. Na prática, porém, a maior parte dos indicadores usados por governos e sistemas de saúde continuou focada quase exclusivamente em mortalidade, diagnósticos e eventos clínicos.
Isso criou um paradoxo. Muitas mulheres passaram a ser consideradas “saudáveis” simplesmente por terem sobrevivido à gravidez e ao parto, mesmo enfrentando sofrimento emocional, exaustão extrema, falta de apoio, violência institucional ou abandono no pós-parto. O novo conceito de bem-estar materno surge justamente para preencher essa lacuna entre o que se mede e o que, de fato, é vivido pelas mulheres.
A definição apresentada pela OMS reconhece que estar bem envolve muito mais do que parâmetros biológicos. Ela considera a experiência da mulher de forma integral e ao longo do tempo, desde a gestação até pelo menos um ano após o término da gravidez. Com isso, o pós-parto deixa de ser tratado como uma fase periférica e passa a integrar oficialmente o cuidado em saúde materna.
“A Unidade de Saúde Materna está desenvolvendo pacotes de intervenções para abordar e melhorar o bem-estar materno, em consonância com o quadro de bem-estar da saúde da criança e do adolescente. Esse quadro de bem-estar inclui boa saúde, nutrição adequada, oportunidades de aprendizagem e educação, segurança e um ambiente de apoio, relacionamentos responsivos e conexões, além da realização da autonomia pessoal e da resiliência. Esses domínios também são aplicáveis à saúde materna”, define a organização.
A Organização Mundial da Saúde não cria leis, mas estabelece referências globais. Quando ela define um conceito, esse conceito passa a moldar a forma como governos pensam políticas, como profissionais de saúde organizam o cuidado e como pesquisadores constroem indicadores. Ao nomear e definir o bem-estar materno, a OMS afirma que a saúde das mulheres não pode ser reduzida à sobrevivência ou a exames dentro da normalidade.
Essa definição transforma sofrimento invisível em questão de saúde pública. Ao reconhecer oficialmente que o bem-estar materno é um componente essencial da saúde, a OMS abre caminho para que temas historicamente negligenciados, como saúde mental no pós-parto, qualidade do cuidado, autonomia das mulheres e condições sociais da maternidade, ganhem centralidade nas agendas nacionais e internacionais.
Férias: como aproveitar o recesso com atividades lúdicas em Brasília
Especialistas destacam passeios culturais, atividades ao ar livre e brincadeiras em casa como formas de estimular o desenvolvimento infantil sem abrir mão do descanso durante o recesso escolar
Com a chegada das férias de verão, as famílias buscam alternativas para ocupar o tempo livre das crianças sem abrir mão do descanso. A proposta, segundo educadores, é equilibrar lazer, convivência familiar e experiências que despertem a curiosidade infantil, sem transformar o recesso em uma extensão da rotina escolar.
Para a diretora da Escola Eleva Brasília, Amanda Payne, o período é uma oportunidade de aprendizado mais espontâneo. “As férias são importantes para desacelerar, mas isso não significa passar o dia inteiro diante das telas. Passeios pela cidade, atividades ao ar livre e brincadeiras em família ajudam a enriquecer o desenvolvimento infantil de forma natural e prazerosa”, afirma.
Em Brasília, opções não faltam para quem quer combinar diversão e conhecimento.
Uma das alternativas é o Jardim Zoológico de Brasília, que mantém programação especial, com cinema ao ar livre, apresentações teatrais, brincadeiras e atividades monitoradas. A proposta é aproximar as crianças da fauna e estimular a curiosidade por meio de experiências práticas.
Outra possibilidade é explorar a história da capital e do país em espaços como o Museu Nacional da República, o Memorial JK, o Memorial dos Povos Indígenas e o Museu do Catetinho. Fotografias, documentos e ambientações ajudam as crianças a entender como Brasília foi idealizada e construída, além de apresentar a diversidade cultural que forma o país.
Para quem prefere atividades ao ar livre, o Parque Nacional de Brasília é um dos destinos mais procurados durante as férias. Trilhas, áreas de banho e espaços para piquenique permitem que as crianças explorem o Cerrado com segurança e criem vínculos com a natureza.
Já o Centro Cultural Banco do Brasil Brasília oferece programação gratuita aos fins de semana e feriados, com oficinas, contação de histórias, atividades sensoriais e ações voltadas especialmente ao público infantil.
Outra sugestão são os passeios rápidos pelo entorno do Distrito Federal. Cidades como Formosa, Pirenópolis e Alto Paraíso de Goiás reúnem cachoeiras, trilhas acessíveis e experiências ligadas à preservação ambiental, ideais para um bate-volta em família.
Amanda destaca ainda que, dentro de casa, as férias também podem ser um convite à criatividade. Montar um cantinho artístico com materiais simples (papéis, argila, lãs, galhos ou pedras) estimula a imaginação e a livre expressão. Cozinhar em família é outra atividade que costuma agradar: escolher uma receita, organizar os ingredientes e preparar o prato juntos ajuda a criança a entender sabores, culturas e hábitos alimentares.
O período também pode ser usado para um contato mais leve com outros idiomas. Brincadeiras como caça ao tesouro com pistas simples em inglês, músicas, desenhos animados e livros infantis em outra língua tornam o aprendizado mais natural, mesmo para quem ainda não estuda um segundo idioma.
Por fim, criar um diário de férias é uma forma afetiva de registrar o recesso. Um caderno personalizado pode acompanhar passeios e reunir fotos, desenhos e pequenos textos, transformando as lembranças do verão em memória compartilhada entre adultos e crianças.
A ideia, reforçam educadores, não é preencher todos os horários, mas permitir que o tempo livre seja vivido com qualidade, respeitando o ritmo da infância e fortalecendo os vínculos familiares.
Férias: Festival ‘Em Cantos’ leva música sensorial a bebês e crianças
4ª edição do evento ocupa o Espaço Cultural Renato Russo e a Escola MIFÁSOL-LÁ, em Brasília, com programação que vai do canto lírico ao samba e inclui oficinas de movimento
As férias de janeiro em Brasília vão ganhar trilha sonora, palco e colo. A 4ª edição do Festival Em Cantos – Música para Crianças chega com uma proposta de escuta sensível e experiências artísticas pensadas para a primeira infância. A programação reune espetáculos e oficinas que atravessam diferentes gêneros, do canto lírico ao samba, passando pela viola caipira. A programação ocorre de 17 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026, sempre às 16h, no Teatro Hugo Rodas, no Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), e na Escola de Música MIFÁSOL-LÁ (503 Sul).
A abertura do festival, no próximo sábado (17/1), coloca os bebês no centro da cena. No Teatro Hugo Rodas, será apresentado “FIO – Música para Bebês”, obra criada para crianças de 0 a 3 anos e seus cuidadores. Em vez de um show tradicional, “FIO” se constrói como uma narrativa sensorial que combina música, teatro e movimento para provocar presença, vínculo e pertencimento.
Com concepção de Jéssica Fritzen, a montagem divide o palco com Plínio Carvalho, em uma condução que aposta na música como linguagem não verbal. A ideia é simples e potente: sons que “esticam, enrolam e conectam”, criando uma ponte direta entre adultos e pequenos, respeitando o tempo de cada bebê e a maneira como ele percebe o mundo.
A inspiração vem de uma lenda japonesa conhecida como Akai Ito, o “fio vermelho” invisível que, segundo a crença, conecta pessoas destinadas a ficarem juntas. Esse fio pode se esticar, se emaranhar, mas não se rompe, tornando-se metáfora de laços afetivos e de um destino que insiste em aproximar. Em cena, a imagem se transforma em convite para que famílias construam memórias e trocas reais, sem pressa e sem excesso de estímulos.
A dimensão pedagógica e artística do espetáculo também é resultado de uma formação imersiva realizada pelos artistas com a Companhia de Música Teatral, de Portugal, referência no encontro entre música e teatro. O aprendizado aparece na costura delicada entre cena e som, pensada para estimular a percepção dos pequenos com cuidado, sem infantilização.
Idealizado pela cantora e arte-educadora Célia Porto em parceria com a MIFÁSOL-LÁ, o Festival Em Cantos nasceu do desejo de oferecer aos “pequenos ouvintes” uma experiência musical de alta qualidade, apostando na inteligência e na sensibilidade da criança, desde bebê. A curadoria deste ano reforça essa ideia ao apresentar estilos variados e formatos que alternam contemplação, narrativa e interação.
Além de “FIO”, o festival traz “Canto Lírico para Crianças”, com Rebecca Pacheco e Marcos Borges, que apresenta o universo da ópera por meio de fábulas e histórias cantadas; “Palco-Céu – Viola Orgânica”, com RC Ballerini e Jun Cascaes, unindo viola caipira e dança em um momento de contemplação; a Oficina Som e Movimento, com Victória Oliveira, pensada para bebês e acompanhantes explorarem corpo e ritmo juntos; e, no encerramento, “Samba na Areia”, com Célia Porto, o maestro Rênio Quintas e Eduardo Bento, em celebração da música popular brasileira para todas as idades.
Um dos diferenciais do Em Cantos está no acolhimento desde a chegada. Antes de cada espetáculo, intervenções artísticas de abertura preparam o ambiente: quatro vozes, com educadores musicais e monitores, introduzem o público na atmosfera do encontro, ajudando crianças e famílias a atravessarem a porta do teatro com mais calma, segurança e encantamento.
Os ingressos são gratuitos, mediante doação de 1 kg de alimento, com retirada prévia pelo Sympla na semana de cada apresentação.
Serviço
Festival Em Cantos – Música para Crianças (4ª edição)
Datas: 17, 18 e 25 de janeiro; 31 de janeiro; 1º de fevereiro de 2026
Horário: 16h
Locais: Teatro Hugo Rodas, no Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), e Escola de Música MIFÁSOL-LÁ (503 Sul, Bloco B)
Ingressos: gratuitos mediante doação de 1 kg de alimento
Retirada: Sympla, disponível na semana de cada evento
Informações: Instagram @festivalemcantos
Abertura do festival
Espetáculo: “FIO – Música para Bebês”
Data: 17 de janeiro (sábado)
Horário: 16h
Local: Teatro Hugo Rodas – Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul)
Público: bebês de 0 a 3 anos e cuidadores
Ingresso: retirada no Sympla (na semana do evento)
Ministério lança curso gratuito sobre cuidados na primeira semana de vida
Formação gratuita capacita profissionais da atenção básica para o acompanhamento de mães e recém-nascidos no período mais sensível do pós-parto
O Ministério da Saúde lançou um novo curso voltado para qualificar o atendimento a mães e recém-nascidos durante a primeira semana de vida, etapa considerada crucial para o fortalecimento da saúde materno-infantil. A formação, oferecida na Atenção Primária à Saúde, tem como foco ampliar a capacidade técnica de profissionais e gestores na atenção precoce, preventiva e humanizada desde os primeiros dias de vida.
A iniciativa, disponibilizada na plataforma da Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNA-SUS), visa promover o cuidado integral à mulher no puerpério e à criança recém-nascida, com ênfase na promoção da saúde, prevenção de agravos e identificação precoce de fatores de risco. A formação também segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e reforça o papel estratégico da atenção primária neste processo.
O primeiro contato da família com a equipe de saúde deve ocorrer preferencialmente ainda na primeira semana de vida, com escuta qualificada, abordagem técnica e articulação entre diferentes saberes e setores do sistema de saúde. O curso foi desenvolvido para traduzir essa abordagem ao cotidiano dos serviços.
Conteúdo e principais temas
O programa aborda temas essenciais para o cuidado materno-infantil, como:
- Acolhimento e vínculo entre profissionais de saúde, mães e famílias;
- Avaliação do estado de saúde do recém-nascido e da mulher no puerpério;
- Planejamento do cuidado e atuação em equipe multiprofissional e intersetorial;
- Estratificação de risco e identificação de sinais de alerta;
- Valorização da visita domiciliar na primeira semana de vida e os passos para a sua realização.
O curso combina diferentes recursos educacionais, como vídeos instrutivos com especialistas, infográficos, fluxogramas e textos de apoio. Os materiais foram pensados para facilitar a aplicação prática dos conteúdos no dia a dia dos serviços de saúde.
Inscrições e certificação
As inscrições são gratuitas e estão abertas pela plataforma da UNA-SUS. A oferta e a certificação da formação são realizadas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com a Coordenação-Geral de Atenção à Saúde das Crianças, Adolescentes e Jovens do Ministério da Saúde. Ao todo, 15 mil vagas estão disponíveis até novembro de 2026.
Férias favorecem consumo de ultraprocessados na infância, alerta especialista
Levantamento mostra que 20% dos alimentos consumidos por bebês e crianças pequenas no Brasil é ultraprocessado; especialistas defendem ação conjunta entre famílias, escolas e políticas públicas
O período de férias escolares costuma trazer mudanças na rotina das famílias e, junto com elas, um risco conhecido, mas ainda subestimado: o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados na infância. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) indicam que 20,5% da alimentação de crianças entre seis meses e dois anos no Brasil já é composta por produtos com alta concentração de açúcar, gordura, sódio e aditivos químicos, como biscoitos, doces e farinhas instantâneas.
Especialistas alertam que esse padrão alimentar, quando iniciado tão cedo, impacta a formação do paladar, a relação emocional com a comida e o risco de doenças ao longo da vida, como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Nas férias, quando há menos controle de horários e maior oferta de lanches prontos, o cuidado precisa ser redobrado.
Segundo a nutricionista da Sanutrin, Cynthia Howlett, especializada em psiconutrição, o cenário revela um desafio que vai além das escolhas individuais das famílias. “Hoje, a escola passou a ter um papel central na alimentação infantil. As crianças fazem dois lanches e, muitas vezes, também o almoço no ambiente escolar. Isso torna a instituição corresponsável pela formação de hábitos alimentares desde a primeira infância”, afirma.
Estudos científicos associam o consumo precoce e frequente de alimentos ultraprocessados a indícios de maior risco de obesidade e alterações na regulação do apetite em crianças. Pesquisadores também mostram que as propriedades desses produtos podem influenciar o sistema de recompensa cerebral e os mecanismos que regulam fome e saciedade. Estudos observacionais ainda revelam que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a maior gordura corporal e risco de obesidade em crianças.
Relatórios da UNICEF reforçam ainda que dietas ultraprocessadas tendem a ter baixa qualidade nutricional e contribuir para excesso de peso, doenças crônicas e hábitos alimentares duradouros.
- Leia também: Retrospectiva: infância no centro do debate em 2025
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo frequente desses produtos leva ao aumento da obesidade infantil, problema que já atinge uma em cada três crianças brasileiras, segundo o Ministério da Saúde.
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, referência do governo federal, é categórico ao recomendar a exclusão total de açúcar e ultraprocessados nessa faixa etária e o incentivo a alimentos in natura ou minimamente processados.
Escola como espaço estratégico de formação alimentar
A mudança no papel das escolas acompanha transformações sociais mais amplas, como jornadas de trabalho mais longas e menos tempo disponível para o preparo das refeições em casa. Se antes a cantina escolar era voltada apenas a pequenos lanches, hoje ela se tornou parte estruturante da rotina alimentar das crianças.
Esse novo contexto impulsionou alterações na gestão da alimentação escolar, com a terceirização do serviço em instituições de médio e grande porte. Empresas especializadas passaram a assumir não apenas a operação das cantinas, mas também a elaboração dos cardápios e ações educativas.
“A modernização não é só tecnológica, como o uso de sistemas digitais para pagamento e controle, mas também pedagógica. A alimentação precisa ser entendida como parte do processo educativo”, explica Cynthia.
Continuidade em casa é necessária
Para além da escola, a especialista reforça que o ambiente doméstico segue sendo determinante. A introdução alimentar saudável depende menos de regras rígidas e mais de experiências positivas com a comida.
Entre as estratégias apontadas por Cynthia estão:
– o exemplo dos adultos à mesa
– a construção de momentos prazerosos em torno da alimentação
– a não imposição ou pressão sobre a criança
– a ampliação do contato com alimentos naturais, feiras e preparações simples
“O vínculo emocional com a comida começa cedo. Quando a alimentação está associada a afeto, memória e cuidado, criamos bases muito mais sólidas para escolhas saudáveis no futuro”, resume Howlett
Cynthia defende que o enfrentamento ao consumo excessivo de ultraprocessados na infância exige políticas públicas, regulação da publicidade infantil e ações integradas entre famílias, escolas e Estado. As férias, nesse sentido, funcionam como um espelho: “escancaram hábitos que já estavam sendo construídos ao longo do ano”, diz a nutricionista.
Férias: 5 livros que ensinam, divertem e estimulam o cérebro
Tempo livre pede leituras que cabem na mala, acolhem no sofá e viram pontes de conversa entre crianças, famílias e educadores.
As férias chegaram — e, com elas, uma oportunidade preciosa para o desenvolvimento infantil. Estudos em neurociência mostram que a leitura na infância estimula áreas do cérebro ligadas à linguagem, à empatia, à autorregulação emocional e à criatividade, além de fortalecer vínculos afetivos quando compartilhados com adultos. Ler não é apenas um passatempo: é uma experiência que organiza pensamentos, amplia repertórios e ajuda a criança a compreender o mundo e a si mesma.
Pensando nisso, reunimos cinco livros que dialogam com diferentes idades e universos. São histórias que despertam a imaginação, acolhem sentimentos, promovem inclusão e convidam à reflexão, tudo com leveza, humor e sensibilidade. Uma curadoria pensada para acompanhar as crianças nas viagens, nos dias tranquilos em casa ou nas pequenas aventuras do cotidiano.
Leia também: Retrospectiva: infância no centro do debate em 2025
Prepare-se para uma vitrine que une aprendizado e encanto, porque boas férias também passam por boas histórias.
O pequeno mundo criativo
Com uma narrativa poética e ilustrações delicadas, o livro convida as crianças a percorrerem uma jornada criativa em busca da reconstrução de um pequeno mundo. A obra estimula o pensamento criativo, o olhar crítico e a resolução de problemas ao integrar arte, sustentabilidade e economia circular. Em tempos de urgência ambiental, a história mostra que imaginar soluções também é um gesto de cuidado com o planeta — e que toda criança pode ser parte dessa transformação.
Autora: Silmara Rascalha Casadei
Editora: Cortez Editora
Onde encontrar: Amazon
Óculos? Pra mim?
Tudo parece menos divertido quando o mundo está borrado. Entre tropeços e apertar de olhos, uma menininha descobre que usar óculos pode transformar não só a visão, mas a forma de se perceber no mundo. Com humor e delicadeza, a história aborda aceitação, autoestima e a beleza das pequenas descobertas do dia a dia. Ao final, o livro traz ainda um guia do oftalmologista Sergio Passerotti para pais e educadores, com orientações sobre os cuidados com a visão infantil.
Autora: Maíra Lot Micales
Editora: Caminho Suave
Onde encontrar: Amazon
Família da Libras – Sentimentos
Os sentimentos não podem ser vistos, mas podem — e precisam — ser expressos. Neste livro sensível e acolhedor, as crianças são convidadas a aprender sobre emoções por meio da Língua Brasileira de Sinais. Com poesia, afeto e sinais, a obra amplia a comunicação emocional e promove inclusão desde a infância, reforçando que acessibilidade também é linguagem, vínculo e cuidado.
Autor: Filipe Macedo
Editora: Ciranda na Escola
Onde encontrar: Amazon
João Problemão
João conhece um “amigo” curioso em um momento de frustração. Pequeno no início, ele cresce à medida que é alimentado — até se tornar um grande problema. A história é uma metáfora potente e acessível sobre emoções, hábitos e autorregulação, ajudando crianças a entenderem que sentimentos precisam ser reconhecidos, não ignorados, para que possam ser manejados de forma saudável.
Autora: Verônica Cunha
Editora: Hanoi Editora
Onde encontrar: Hanoi
Como surgiu o primeiro Griot
Inspirado em relatos ancestrais da África Ocidental, o livro apresenta a origem dos Griots — mestres da palavra responsáveis por preservar a memória, a cultura e a história de seus povos. Mais do que uma narrativa histórica, a obra conecta música, oralidade e identidade cultural, mostrando às crianças a importância das histórias como herança viva entre gerações.
Autor: Rogério Andrade Barbosa
Editora: Cortez Editora
Onde encontrar: Amazon
Cobertura jornalística ao longo do ano evidenciou como a primeira infância atravessa políticas públicas, educação, saúde, comportamento, direitos e o ambiente digital
Ao longo do ano, a primeira infância avançou como tema central no noticiário brasileiro. Reportagens publicadas pelo Correio Braziliense e pelo Blog da Primeira Infância abordaram desde políticas públicas estruturantes e educação infantil até desenvolvimento emocional, proteção digital e o enfrentamento da adultização precoce.
Entre decisões políticas, debates educacionais, alertas científicos e novas formas de violência, o ano escancarou que o cuidado com crianças de 0 a 6 anos não é apenas uma pauta social, mas um dos eixos centrais das escolhas que o país vem fazendo.
1. A primeira infância como alicerce para o país
Estudos e especialistas ouvidos ao longo do ano reforçaram que os primeiros anos de vida são determinantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Reportagens explicaram como o cérebro se forma nesse período e por que políticas voltadas à infância têm impacto direto na redução de desigualdades.
2. Primeira infância como política pública
O debate sobre a infância ganhou contornos institucionais com a implementação da Política Nacional Integrada para a Primeira Infância e discussões no Congresso. As matérias mostraram como a articulação entre saúde, educação e assistência social é fundamental para garantir direitos desde os primeiros anos.
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3. Licença-paternidade e o cuidado compartilhado
A ampliação da licença-paternidade entrou na pauta legislativa como um avanço no fortalecimento do vínculo familiar e na divisão de responsabilidades. A cobertura destacou como a presença do pai nos primeiros dias de vida impacta o desenvolvimento infantil.
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4. Creche e educação infantil: o desafio do acesso
A falta de vagas em creches seguiu como um dos principais gargalos enfrentados pelas famílias. Inaugurações de unidades, filas de espera e desigualdades regionais mostraram que o direito à educação infantil ainda não é plenamente garantido.
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5. Saúde materno-infantil e os primeiros cuidados
Temas como pré-natal, vacinação infantil e atenção básica estiveram presentes na cobertura, reforçando que cuidar da saúde das crianças começa antes do nascimento e depende de políticas públicas contínuas.
6. Choro não é birra: compreender o desenvolvimento emocional
Reportagens ajudaram a desconstruir interpretações equivocadas sobre o comportamento infantil. Especialistas explicaram que o choro é forma de comunicação e que acolher emoções faz parte do cuidado na primeira infância.
7. Combater a adultização precoce é dever coletivo
O tema da adultização ganhou destaque ao longo do ano. As reportagens mostraram como crianças vêm sendo expostas precocemente a pressões e responsabilidades incompatíveis com a idade, e apontaram o papel da escola e da sociedade na proteção do direito de viver a infância.
8. ECA Digital e a proteção da infância na internet
A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital entrou na agenda como resposta aos novos riscos enfrentados por crianças e adolescentes no mundo on-line.
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9. Quando a violência acontece na tela: cyberbullying
A violência digital passou a ser tratada como uma ameaça concreta à saúde emocional das crianças. Reportagens explicaram como identificar sinais, prevenir agressões e promover educação digital.
10. A escola como espaço de proteção da infância
No especial Escolha a escola do seu filho, matérias abordaram o papel da escola como ambiente de acolhimento, respeito ao tempo da infância e promoção do desenvolvimento integral.
Reunidas, essas reportagens constroem um retrato do ano em que a primeira infância ganhou centralidade no debate público. Entre avanços, desafios persistentes e novas ameaças, a cobertura mostrou que proteger o direito de ser criança exige informação, políticas públicas e compromisso coletivo.
Em concordância com o art. 227 da Constituição Federal, a atenção dedicada ao tema ao longo do ano reafirma o compromisso do Correio Braziliense e do Blog da Primeira Infância com uma cobertura qualificada, baseada em dados, ciência e informação de interesse público, voltada à proteção de direitos e ao desenvolvimento das crianças.
FURG recebe primeira cuidoteca da Região Sul para apoiar estudantes com filhos
Iniciativa do governo federal vai oferecer espaço de acolhimento e cuidado infantil dentro da universidade, facilitando a permanência de mães e pais na formação superior
A Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no Rio Grande do Sul, assinou na última quarta-feira (10/12) um acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) para implantar a primeira cuidoteca da Região Sul do Brasil. O espaço vai oferecer atividades de acolhida e cuidado para crianças de 3 a 12 anos, com ou sem deficiência, dependentes de estudantes, servidores e trabalhadores da instituição, com foco em ampliar condições de estudo e trabalho para famílias universitárias.
O projeto, firmado em Brasília por meio da Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família, integra a Política Nacional de Cuidados e foi comemorado pelo titular do MDS, que destacou o papel da cuidoteca em fortalecer o acesso e a conclusão do ensino superior por pessoas responsáveis por crianças.
A cuidadoteca contemplará atividades lúdicas, recreativas e de cuidado, incluindo brincadeiras, contação de histórias, leitura, higiene, alimentação e descanso. O espaço será organizado com foco em acessibilidade e linguagem inclusiva.
Segundo a reitora da FURG, Suzane Gonçalves, a iniciativa representa um suporte importante para quem enfrenta dificuldades de conjugação entre rotina acadêmica e responsabilidades familiares, especialmente em turnos noturnos, quando muitas redes de cuidado usuais estão ausentes. “É garantir tanto o direito das crianças ao cuidado, quanto das suas famílias poderem estudar, concluir um curso superior e a gente desenvolver cada vez mais o nosso país”, afirmou Suzane
O projeto da FURG faz parte de um conjunto maior de cuidotecas em universidades federais brasileiras, que inclui iniciativas em instituições como a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade de Brasília (UnB), entre outras.
Mais da metade dos municípios tem filas por creches, aponta relatório
Levantamento nacional revela que 52,1% das cidades brasileiras registram filas na educação infantil e revela o desafio de transformar diagnóstico em vagas, sobretudo para crianças de 0 a 3 anos
Mais da metade dos municípios brasileiros (52,1%) registra demanda não atendida por vagas em creches, segundo o Retrato da Educação Infantil 2025, levantamento do Ministério da Educação (MEC) em parceria com o Gaepe-Brasil. O dado evidencia que, embora o país tenha avançado na identificação das crianças fora da escola, ainda enfrenta dificuldades para converter informação em acesso efetivo à educação infantil, especialmente na etapa que atende crianças de até 3 anos.
O estudo, que contou com a participação de todos os 5.570 municípios e do Distrito Federal, traz a mais ampla radiografia já realizada sobre a gestão da demanda por creches e pré-escolas no país. Entre as cidades que conseguem quantificar a fila por creche, foram registradas 826,3 mil solicitações não atendidas, número 30,6% maior do que o do ano anterior. O crescimento reflete tanto o aprimoramento dos mecanismos de registro quanto o aumento da procura das famílias.
A pressão é maior entre os bebês. A demanda por vagas para crianças de 0 a 11 meses praticamente dobrou em um ano, passando de 123 mil para 238 mil solicitações. O movimento indica maior conscientização das famílias sobre o direito à educação desde a primeira infância, mas também expõe a insuficiência da oferta pública para absorver essa procura.
Apesar do avanço na formalização das listas de espera, a gestão dessas informações ainda é frágil. Menos da metade dos municípios que mantêm fila por creche utiliza sistemas integrados para organizar a demanda, e 38,5% não divulgam publicamente as listas, o que dificulta o planejamento, o controle social e a definição de critérios claros de prioridade. O relatório destaca que a transparência é condição essencial para garantir equidade no acesso.
A desigualdade aparece de forma contundente no recorte socioeconômico. Crianças de famílias mais ricas têm probabilidade significativamente maior de frequentar creches do que aquelas pertencentes aos domicílios menos favorecidos. O levantamento aponta ainda que 64,3% dos municípios identificam crianças de 0 a 3 anos fora da creche e fora da lista de espera, indicando barreiras de informação, dificuldades de acesso ao cadastro ou ausência de busca ativa contínua.

Na pré-escola, etapa obrigatória para crianças de 4 e 5 anos, o cenário é mais positivo, mas ainda apresenta falhas. Em 2024, o Brasil atingiu 94,6% de cobertura, o maior índice histórico. Mesmo assim, 20,1% dos municípios admitem ter crianças dessa faixa etária fora da escola. A maioria não sabe informar quantas são, mas, nos casos em que houve levantamento, foram identificadas 76.948 crianças sem matrícula, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste.
Outro entrave apontado pelo relatório é a falta de planejamento estruturado para expansão da oferta. Apenas 40,8% dos municípios afirmam ter plano de ampliação de vagas na educação infantil, enquanto 28% reconhecem a necessidade de crescer, mas não possuem qualquer planejamento formal. Mesmo entre as cidades que contam com plano, a maioria não define periodicidade de revisão, o que resulta em ações pontuais e reativas.
O estudo também chama atenção para o impacto da migração interna e internacional sobre as redes municipais. Mais da metade dos gestores relata aumento da demanda provocado pela chegada de novas famílias, e 21,4% afirmam que esse movimento compromete de forma moderada e significativa a capacidade de atendimento, sobretudo em áreas urbanas mais vulneráveis.
Para o MEC e o Gaepe-Brasil, o Retrato da Educação Infantil 2025 deve ser usado como instrumento de gestão e cooperação federativa. Os dados integram o Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil, iniciativa que busca fortalecer o apoio técnico e financeiro aos entes federativos, com foco na expansão do acesso, na melhoria da qualidade e na redução das desigualdades.
O levantamento reforça que o desafio da educação infantil no Brasil vai além da abertura de novas vagas. Sem listas transparentes, busca ativa regular, critérios de prioridade baseados na vulnerabilidade social e planejamento contínuo, o país corre o risco de perpetuar um sistema em que o direito à educação desde a primeira infância segue condicionado ao território, à renda e à capacidade das famílias de acessar o poder público.
46% das crianças mostram ansiedade ligada ao uso de telas, aponta pesquisa
Levantamento revela que metade das crianças apresentam sinais de sofrimento emocional ligados ao tempo de exposição digital; especialistas alertam para impacto na rotina, no sono e no vínculo familiar
Quase metade das crianças brasileiras demonstra algum nível de ansiedade, irritabilidade ou inquietação associado ao uso de telas. O dado faz parte de uma pesquisa inédita do Projeto Brief sobre adultização e uso precoce das redes sociais no país.
O estudo ouviu 1.800 pais sobre o apoio à regulamentação das redes para assegurar um ambiente digital seguro para crianças e adolescentes. O estudo revela um cenário crescente de preocupação entre as famílias: 46% das crianças apresentam comportamentos negativos relacionados ao tempo diante de celulares, tablets, computadores e televisores.
Segundo o levantamento, a ansiedade é o sintoma mais frequente, citado por 27% dos responsáveis. Outros efeitos destacados são irritabilidade (25%), dificuldade de concentração (23%) e alterações no sono (20%). Entre os cuidadores entrevistados, 70% afirmam que gostariam de reduzir o tempo de tela dos filhos, mas têm dificuldade em ajustar a rotina, especialmente diante da sobrecarga de trabalho, da falta de espaços de lazer e do apelo constante das plataformas digitais.
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A pesquisa também aponta que 60% das crianças utilizam telas para entretenimento entre uma e três horas por dia. Ou seja, acima do recomendado por especialistas em desenvolvimento infantil. Para crianças com menos de até 5 anos, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) orienta um uso bastante restrito e sempre supervisionado; mesmo assim, entre os entrevistados, 30% das crianças nessa faixa etária passam mais de duas horas diárias conectadas.
O impacto no comportamento preocupa. Responsáveis relatam que, ao retirar o acesso digital, 44% das crianças apresentam resistência intensa, como choro, frustração exagerada ou reações agressivas. O estudo ainda mostra que 52% das famílias percebem piora na convivência doméstica quando o uso de telas aumenta, principalmente em períodos sem escola ou feriados prolongados.
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Para especialistas ouvidos pelo levantamento, o excesso de tempo online afeta habilidades essenciais do desenvolvimento, como interação social, autorregulação emocional e brincadeira livre — etapa considerada fundamental na primeira infância. Eles alertam para a necessidade de que a mediação adulta seja ativa, com regras claras, diálogo e estímulo a atividades fora do ambiente digital.
A pesquisa também investigou a percepção dos adultos sobre a própria relação com as telas. Mais da metade (56%) admite que o próprio uso de celular interfere no tempo de qualidade com os filhos, criando um ciclo em que adultos e crianças reproduzem comportamentos semelhantes.
Os dados reforçam um debate urgente: como equilibrar tecnologia e infância em um país onde a conectividade é parte central da vida cotidiana? Para os especialistas, o ponto não é proibir o acesso, mas construir hábitos saudáveis que priorizem o brincar, o descanso, a convivência e a segurança emocional.
















