Enterrados vivos

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A senhora chegou de repente, saiu do carro e esticou o pescoço, perscrutando o ambiente, obviamente a procura de alguém. Esperou mais um pouco sem falar com ninguém até que desistiu, entrou no carro e foi embora. Joãozinho, o atendente que também faz as vezes de fofoqueiro, disparou: – Salvo pelo gongo! Não estamos em Londres. Não há gongo, nem […]

O sarau improvisado

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Bares com as portas novamente abertas, o negócio agora é se adaptar ao horário. Para ver futebol, só se for campeonato europeu por causa do fuso horário, para ver os jornais da tevê, não se pode ir além dos programas vespertinos, regados a sangue; a opção é o velho papo. Mas não tem sido fácil. A turma vesperal dos botecos […]

Falta a trilha sonora

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Em outros tempos bicudos a música nos salvou. Compositores interpretavam a frustração das pessoas, transformada em canções que, de alguma forma, serviam de consolo ou mesmo desabafo. A repressão combatia por meio da censura oficial, mas havia alguma resistência, o que bastava para aplacar a angústia coletiva. Nos tempos do Estado Novo de Vargas, o samba era um inimigo tão […]

Pior do que gambá

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Risquem o nome de Casanova de seu caderno. O aventureiro veneziano, ex-padre que alegou ter seduzido mais de cem mulheres, incluindo casadas e freiras, está para ser banido da história, apesar de sua contribuição intelectual com Voltaire e Mozart, entre outros. Don Juan, libertino e sedutor personagem criado por Tirso de Molina, também está com os dias contados, assim como […]

O preço da liberdade

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O inferno são os outros, decretou Jean-Paul Sartre. É uma angústia que vem na mesma proporção da liberdade que os seres humanos têm de decidir sobre a própria vida, quase que na forma de uma condenação. Talvez isso explique – ou provavelmente não – o desprezo pela própria existência demonstrada por pessoas que se recusam a se proteger da covid-19. […]

O poeta que amou Brasília

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Hoje é fácil amar Brasília. A cidade está pronta, bem cuidada – mesmo que viadutos despenquem na cabeça da gente, como aconteceu há quatro anos – e se transformou numa metrópole, com tudo de bom e de ruim que vem com o progresso. Esses dias estamos privados de nossos botecos, o que entristece bastante a cidade, mas a vida pulsa. […]

Os mandamentos do botequim

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Engana-se quem pensa que os botecos são terra de ninguém. Mesmo o muquifo mais soez preserva a autoridade ditatorial do proprietário, quase sempre um sujeito – ou sujeita – de maus bofes, cara fechada e resmungão. As normas estão nas feições do dono, mas algumas estão escritas pelas paredes dos ambientes, caso clássico do “fiado, só amanhã”. Ultimamente tem aparecido […]

A magia desfeita

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Quando um bar fecha as portas a cidade morre um pouco. É nos bares que a comunidade pulsa, que os humores se apresentam e as paixões afloram. Há poucos lugares tão democráticos; com o fechamento de um bar o cidadão perde sua embaixada, seu púlpito, espaço de reivindicação, protesto, lamento, desabafo. Como dizia o sábio Tetê Catalão, pode não mudar […]

O tijolo da discórdia

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Priscas eras, provavelmente no tempo da impressão a chumbo quente, me recusei a publicar aqui, neste mesmo Correio, um artigo em que o autor – vamos mantê-lo no anonimato – defendia pichações como manifestação artística. Como hoje, havia rabiscos por toda a cidade, garabulhas apressadas pelo medo da polícia chegar – tudo propositalmente feio, segundo o autor do artigo, para […]