Relator da CPI, cartola e jogador: os controversos tentáculos de Romário

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Romário escapou de tomar uma invertida bem mais agressiva e desconfortável do dono da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo John Textor na audiência de segunda-feira na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas. Motivo: os controversos tentáculos do político e ex-jogador. Ele deveria evitá-los. Não soa bem.

O senador Romário (PL-RJ) não é somente parlamentar e relator de mais uma investigação no Congresso Nacional. Ele tem função na indústria do futebol. Acaba de assumir a presidência do América Futebol Clube, time tradicional do Rio. Está inscrito como jogador também. Deseja realizar o sonho de tabelar com o filho Romarinho em campo numa partida oficial. Não há nada demais nisso. Rivaldo fez o mesmo com Rivaldinho no Mogi Mirim.

A questão é: o acúmulo de funções e o risco de conflito de interesses, Ao ampliar tentáculos, Romário passa a ter telhado de vidro. Pode até não ser ilegal ocupar os cargos de relator da CPI, presidente do América e jogador do time ao mesmo tempo, porém não parece recomendável. Posso estar sendo ingênuo, mas não duvido da boa fé do senador em passar a limpo o esporte mais popular do país. O jogador eleito melhor do mundo em 1994 tentou também lá atrás, ao comandar a CPI do Futebol de 2015 a 2016 também no senado.

O problema é o arriscado conflito de interesses. Times são cada vez mais alvos de ofertas de casas de apostas on-line. Os cassinos pagam bem em troca da exposição no espaço nobre da camisa. Como agirá o “cartola” Romário quando uma oferta tentadora chegar à mesa do senador, relator da CPI, presidente do América-RJ e jogador alvirrubro?

Mesmo que diga não, resista e seja transparente — o mínimo que se espera — há conflito ético. E se algum atleta do América for tentado ou se envolver com alguma máfia da manipulação de resultados? As divisões inferiores do Campeonato Carioca estão entre os alvos prediletos dos contraventores. Houve problema na B2 na temporada passada. Como faria para desfazer o nó no clube do qual é presidente para blindar a imagem de senador?

Romário fez a parte dele na audiência. Perguntou o que queria a John Textor e ouviu o que não queria. Questionou se o empresário estadunidense pretende se livrar do Botafogo, ou seja, vender a SAF do clube e deixar o país em meio às denúncias.

O empresário classificou a questão como “estupida”. Foi até respeitoso. Imagine se Textor dá uma invertida do tipo: “Por que? O senhor tem o interesse de comprar a SAF na posição de presidente do América?”. John Textor também poderia contra-atacar: “É correto um presidente de clube ser relator da CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas?”.

No fim das contas, Romário ficou no lucro. Escapou, saiu quase ileso, mas deveria rever o acúmulo de tentáculos conflitantes. Não dava para jogar em todas as posições nos tempos de jogador, Romário. No campo da política também não, senador. Simples assim.

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Marcos Paulo Lima

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