Personagem do dia 22: Cristiano Ronaldo não aprendeu dizer adeus

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O roteiro da despedida estava pronto. Cristiano Ronaldo teve um gol anulado por impedimento, converteu um pênalti, foi substituído aos 41 anos por Rúben Neves sob aplausos e caminhou para o banco como quem acabara de encerrar uma das maiores histórias da Copa do Mundo. O empate levava a partida à prorrogação. Faltava apenas o apito final. Mas o futebol resolveu reescrever o roteiro. Gonçalo Ramos marcou o gol da vitória por 2 x 1 sobre a Croácia e transformou o que parecia ser o último ato em apenas mais um capítulo. Cristiano Ronaldo, definitivamente, não aprende a dizer adeus.

Poucos personagens desafiaram tanto o tempo quanto ele. Mais do que o relógio, Cristiano enfrenta a ideia da despedida. A cada ciclo, surge uma nova geração, um novo protagonista, uma nova razão para acreditar que chegou a hora de passar o bastão. O jogador eleito cinco vezes melhor do mundo de alguma forma encontra um jeito de permanecer.

Foi assim em 2022. O Mundial do Catar parecia marcar o encerramento de uma era quando Fernando Santos o tirou do time titular na fase eliminatória. O escolhido para ocupar o lugar foi justamente Gonçalo Ramos, autor de um hat-trick contra a Suíça nas oitavas de final no triunfo por 6 x 1. A imagem de Cristiano no banco, com o semblante abatido, parecia simbolizar a troca definitiva de gerações em Portugal.

Quatro anos depois, o destino resolveu brincar com os mesmos personagens. Cristiano voltou à condição de titular, capitão e referência técnica da seleção portuguesa. Gonçalo Ramos permaneceu como herdeiro natural, mas desta vez desempenhou outro papel. Em vez de representar o futuro, preservou o presente. O camisa 9 entrou no lugar de João Cancelo e foi dele o gol que impediu a despedida do maior artilheiro do futebol em atividade. Faltam 24 gols para Cristiano Ronaldo alcançar o milésimo. São 976. E contando.

O simbolismo da noite em Toronto, no Canadá, vai além da classificação para as oitavas de final. Cristiano marcou de pênalti, viu um gol ser anulado por centímetros e deixou o campo ovacionado, como se recebesse as homenagens reservadas aos gigantes antes do encerramento do espetáculo. Tudo indicava que aquele seria seu último gesto em Copas do Mundo. Bastava o cronômetro cumprir seu trabalho.

Mas o futebol nem sempre respeita os roteiros aparentemente inevitáveis.

Assim como tantas vezes decidiu partidas nos minutos finais, Cristiano agora depende dos outros para continuar escrevendo a própria história. É uma inversão curiosa para quem passou duas décadas decidindo partidas quase sempre pelos próprios pés. Aos 41 anos, já não controla tudo. Mas continua encontrando motivos para seguir em frente.

Talvez seja esse o maior legado de Cristiano Ronaldo. Mais do que os gols, os recordes ou os títulos, permanece a obstinação quase irracional de não aceitar que exista um último capítulo enquanto ainda houver uma página em branco.

A despedida continua esperando. E Cristiano Ronaldo também. Porque, enquanto a Copa insistir em lhe oferecer mais um capítulo, continuará ecoando para o camisa 7 o refrão eternizado por Leandro & Leonardo: “Não aprendi dizer adeus”.

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Marcos Paulo Lima

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