Paquetá empatou o jogo com 1 minuto e 26 segundos em campo. Foto: Douglas Magno/AFP
O discurso raso diz que Leonardo Jardim jogou a casa construída por Filipe Luís no Flamengo abaixo e iniciou a construção de outra. A proposta de jogo do engenheiro rubro-negro no empate por 1 x 1 com o Cruzeiro, no Mineirão, pelo duelo de ida das oitavas de final da Libertadores, mostra o contrário. Em um gesto de humildade, o português pegou a planta deixada pelo antecessor e fez adaptações para controlar a Raposa.
A escalação de Leonardo Jardim parece aleatória, só que não. Dos 11 escolhidos para iniciar a partida contra o Cruzeiro, nove foram escalados por Filipe Luís há pouco mais de um ano, no empate por 1 x 1 com o Ceará, em 3 de agosto.
Havia apenas dois jogadores diferentes em relação ao time usado por Filipe Luís. O ex-técnico havia optado por Evertton Araújo — e não Pulgar — ao lado de Jorginho no meio de campo; e Alex Sandro em vez de Ayrton Lucas na lateral esquerda.
Os outros nove eram os mesmos: Rossi, Emerson Royal, Léo Ortiz, Léo Pereira, Jorginho, Arrascaeta, Plata, Bruno Henrique e Samuel Lino.
O Flamengo saiu na frente e cedeu o empate ao Ceará. Contra o Cruzeiro, saiu atrás e se reinventou para buscar o 1 x 1.
A opção de Jardim não é apenas uma coincidência numérica. O português recuperou uma estrutura testada por Filipe Luís, com Plata pela direita, Samuel Lino pelo outro lado, Bruno Henrique mais centralizado e Jorginho ao lado de Arrascaeta na construção.
A escolha tinha lógica: mais mobilidade, velocidade para pressionar e tentativa de incomodar a saída do Cruzeiro. O problema é que a fórmula funcionou apenas em parte.
O Cruzeiro cresceu no segundo tempo e abriu o placar. Que golaço de Arroyo! Deixou Samuel Lino no chão antes de acertar o ângulo de Rossi.
Jardim então mexeu no ponto sensível da escalação: tirou Bruno Henrique e Arrascaeta e colocou Pedro e Paquetá.
A resposta veio rápido.
Pedro deu presença ao ataque. Paquetá ocupou espaços, participou mais do jogo e empatou no rebote da cobrança de falta de Léo Ortiz que explodiu no travessão.
O Flamengo melhorou.
A mudança não transforma Jardim em Filipe Luís, nem o empate em vitória. Mas oferece uma pista sobre o momento do time: o novo treinador não precisa destruir o que recebeu para construir algo diferente.
Há uma base anterior. Há jogadores que se conhecem. Há mecanismos que podem ser recuperados.
No Mineirão, Jardim fez isso de maneira quase literal. Ativou o modo Filipe Luís para começar o jogo e mudou o repertório quando percebeu que precisava de outra solução.
O 1 x 1 deixa a decisão aberta para o Maracanã. O Cruzeiro mostrou força em casa, mas o Flamengo saiu vivo e mostrou capacidade de reação.
Mais do que o resultado, Jardim leva de Belo Horizonte uma resposta importante: o Flamengo tem mais de um caminho para jogar.
E talvez esse seja o melhor ponto de partida para o novo trabalho.
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