Personagem do Dia 23: Vozinha, o herói da resistência cabo-verdiana

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Nem toda eliminação produz derrotados. A de Cabo Verde diante da Argentina nesta sexta, na fase de 16 avos de final da Copa do Mundo, terminou com derrota por 3 x 2 na prorrogação, mas deixou uma narrativa muito maior do que o placar sugere. Fora da competição, a seleção africana sai de cena com a imagem de um símbolo incontestável: o goleiro Vozinha, protagonista absoluto de uma campanha épica.

Aos 40 anos, o camisa 1 — nascido Josimar Dias, em Mindelo, na ilha de São Vicente — transformou experiência em liderança e resistência em identidade. O apelido que o acompanha desde a infância virou marca de uma carreira construída longe dos grandes centros, mas suficientemente sólida para sustentar o sonho cabo-verdiano na primeira participação em uma Copa do Mundo.

Diante da Argentina, Vozinha voltou a ser o que foi durante todo o torneio: o principal obstáculo entre o adversário e o gol. Fez defesas difíceis, adiou o desfecho da classificação sul-americana e manteve a seleção viva até os minutos finais. Não foi exceção, mas continuidade. Em praticamente todas as partidas, o goleiro figurou entre os destaques, sustentando uma equipe que competia acima de suas próprias projeções.

A trajetória de Vozinha também desafia o retrato comum do futebol de seleções periféricas. Sem o brilho dos grandes contratos ou a vitrine dos principais clubes europeus, construiu a carreira entre Portugal e o futebol africano, tornando-se ao longo dos anos a referência máxima de Cabo Verde e um dos jogadores mais experientes da Copa de 2026.

Em uma Copa marcada pela ascensão de novos protagonistas, ele chamou atenção pelo oposto: a permanência. Aos 40 anos, mostrou que o tempo é um aliado — e não um limite. Liderou um país de pouco mais de meio milhão de habitantes a uma campanha inédita, capaz de tensionar seleções tradicionais até o fim.

A Argentina segue na competição. Mas a lembrança daquele jogo está definida em outro nome. Cabo Verde sai da Copa. Vozinha, não. Ele permanece como uma das imagens mais fortes da história quase centenário do torneio criado em 1930 por Jules Rimet.

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Marcos Paulo Lima

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