New Jersey — Copas do Mundo raramente oferecem redenção. Menos ainda no mesmo dia. Mas o 1º de julho de 2026 resolveu contrariar a lógica que transforma heróis em vilões em questão de segundos — e quase nunca devolve o caminho inverso. Em poucas horas, Kane e Lukaku, dois nomes marcados pelo fracasso no Catar reapareceram no centro das classificações de Inglaterra e Bélgica às oitavas de final. Agora, como protagonistas de viradas.
Três anos e meio atrás, Harry Kane conduzia a Inglaterra às quartas de final da Copa de 2022, diante da França. Capitão, artilheiro e referência técnica, viu o lance crucial escapar do pé direito: um pênalti isolado por cima do travessão. A imagem se tornou símbolo de mais uma eliminação dolorosa.
No mesmo Mundial, Romelu Lukaku viveu uma noite de frustração coletiva. Diante da Croácia, entrou no segundo tempo com a Bélgica pressionada por um resultado inalcançado. Teve chances claras, acertou a trave, desperdiçou finalizações decisivas e terminou a partida em choque, ajoelhado, enquanto a chamada geração de ouro deixava o torneio ainda na primeira fase.
O tempo passou, mas as narrativas permaneceram coladas aos dois.
Kane seguiu como líder absoluto da Inglaterra e maior artilheiro da história da seleção, referência de uma equipe acostumada a flertar com decisões sem transformar presença em título. Lukaku continuou como principal referência ofensiva da Bélgica, agora ainda mais cobrado por uma geração envelhecida lidando com a expectativa versus realidade.
Na Copa de 2026, o roteiro mudou no mesmo dia.
Kane foi decisivo na vitória da Inglaterra por 2 x 1 sobre a República Democrática do Congo. A virada autoral garantiu a classificação inglesa às oitavas de final. Mais do que o gol, chamou atenção a naturalidade com que voltou a decidir em jogo eliminatório, como se o passado tivesse perdido peso no momento decisivo.
Horas depois, Lukaku liderou a Bélgica na virada por 3 x 2 sobre Senegal, também assegurando vaga nas oitavas de final. Participativo, agressivo e presente na área, voltou a ser o ponto de ruptura de uma equipe que há anos oscila entre talento e frustração.
O curioso é que ambos chegaram até aqui por caminhos diferentes, mas com a mesma necessidade: transformar memória em resposta. Kane já não joga contra o pênalti perdido diante da França. Lukaku já não entra em campo preso aos gols desperdiçados contra a Croácia. O passado segue existindo — mas deixou de ser sentença.
No mesmo dia, em jogos disputados nos Estados Unidos, os dois atacantes reescreveram o mesmo enredo: o de jogadores que um dia simbolizaram eliminações e agora sustentam seleções vivas no Mundial. Em Copas do Mundo, o erro costuma ser definitivo. Kane e Lukaku mostraram o contrário no 21º dia da Copa: ele apenas adia a próxima chance.
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