Personagem do dia 19: Bounou, o canadense que virou ícone marroquino

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New Jersey — Quando Marrocos vê uma eliminatória caminhar para os pênaltis, a tensão costuma trocar de endereço. Aos 35 anos, Yassine Bounou voltou a assumir o papel de protagonista ao defender a cobrança decisiva da Holanda e conduzir os Leões do Atlas às oitavas de final da Copa do Mundo. Para um país adestrado a sonhar grande depois da campanha histórica de 2022, ele é um dos atalhos mais seguros entre a esperança e a glória.

O triunfo por 3 x 2 nas penalidades, após o empate por 1 x 1 no tempo regulamentar e na prorrogação, reforça uma percepção cada vez mais consolidada no futebol internacional: poucos especialistas inspiram tanto respeito nas disputas por pênaltis quanto o camisa 1 marroquino.

A vaga conquistada em Monterrey não é obra do acaso. Foi mais uma demonstração de uma habilidade refinada ao longo de quase duas décadas entre as traves. Bounou parece confortável onde os demais se sentem vulneráveis. Enquanto os cobradores carregam nos ombros o peso de uma nação inteira, ele exibe uma serenidade quase desconcertante.

Foi assim também no Catar.

Nas oitavas de final da Copa de 2022, a seleção norte-africana encontrou a Espanha. Depois de 120 minutos sem gols, o confronto foi decidido nas cobranças alternadas. O arqueiro defendeu as tentativas de Carlos Soler e Sergio Busquets. Pablo Sarabia acertou a trave. Os espanhóis encerraram a disputa sem balançar a rede uma única vez. A vitória por 3 x 0 alterou para sempre o lugar de Marrocos no mapa do futebol mundial.

Aquela tarde abriu caminho para uma jornada inesquecível. Embalado pela confiança transmitida pelo guardião, o time eliminou Portugal e tornou-se a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal de Copa do Mundo.

Quatro anos mais tarde, o goleiro mantém o papel central nos momentos mais delicados dos Leões do Atlas.

A fama não nasceu apenas nos Mundiais. Ao longo da carreira, Bounou construiu uma reputação rara em confrontos eliminatórios. Em clubes e na seleção, acumulou decisões resolvidas nos pênaltis, desenvolvendo uma combinação de estudo dos adversários, leitura corporal e paciência. Não costuma se antecipar. Espera. Observa. E transforma segundos de tensão em vantagem psicológica.

O curioso é que o maior símbolo da resistência marroquina nasceu longe de Casablanca, Rabat ou Marrakech. Veio ao mundo em Montreal, no Canadá. Filho de marroquinos, mudou-se ainda criança para a terra dos pais e pavimentou o caminho para a consagração como uma das referências esportivas da geração dele.

O destino resolveu acrescentar mais uma camada à narrativa. Depois de derrubar a Holanda, Bounou terá pela frente justamente o Canadá, seu país natal, na próxima fase. Um duelo carregado de significados para quem cresceu entre duas culturas e duas geografias.

Após anos de destaque no futebol espanhol, especialmente no Sevilla, e da transferência para o Al-Hilal, na Arábia Saudita, ele desembarcou nos Estados Unidos como uma das lideranças técnicas e emocionais desta geração. Não ostenta a popularidade global de alguns atacantes nem monopoliza manchetes diariamente. Sua influência aparece nos instantes em que um torneio dessa dimensão costuma separar personagens comuns daqueles destinados à memória coletiva.

A Espanha conheceu o talento em 2022. A Holanda sentiu o mesmo peso em 2026.

Quando uma Copa do Mundo exige sangue-frio, coragem e reflexos, Marrocos sabe exatamente a quem recorrer.

Afinal, existem goleiros que pegam pênaltis.

Yassine Bounou agarra algo maior.

Defende a crença de um país que aprendeu a sonhar com títulos.

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Marcos Paulo Lima

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Marcos Paulo Lima
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