Odegaard festeja a vaga da Noruega contra a Costa do Marfim. Foto: Alex Slitz/Getty Images via AFP
New Jersey — O duelo entre Brasil e Noruega reserva um encontro curioso nas oitavas de final da Copa do Mundo. De um lado, Carlo Ancelotti. Do outro, Martin Odegaard, líder de assistências da Noruega na Copa, com três, incluindo o passe para o primeiro gol na vitória por 2 x 1 contra a Costa do Marfim. A história dos dois começou muito antes da partida do próximo domingo, no MetLife Stadium, às 17h (de Brasília).
Em 2015, foi o treinador italiano quem entregou ao garoto norueguês a primeira oportunidade no elenco principal do Real Madrid. Aos 16 anos, o meia desembarcava na Espanha cercado por uma expectativa desproporcional até para um prodígio. Tratava-se de um dos adolescentes mais observados do planeta.
A fama havia chegado cedo. Aos 15 anos, atuava na primeira divisão da Noruega pelo Stromsgodset. Antes de completar 16, estreou na seleção principal. Clubes de toda a Europa enviavam observadores a Drammen para acompanhar aquele jovem capaz de enxergar espaços invisíveis para a maioria dos jogadores da mesma idade.
O sonho, porém, transformou-se em uma longa travessia. Entre o peso da camisa merengue e a concorrência de astros consagrados, o talento escandinavo passou anos à procura de espaço. Acumulou empréstimos, mudou de país, adaptou-se a diferentes estilos de jogo e viu a promessa conviver com a dúvida.
A análise apressada costuma tratar esse período como uma decepção. Ignora um detalhe fundamental. Odegaard não disputava posição com jogadores comuns. À frente dele estavam Modric, Kroos e Casemiro, um dos trios de meio-campo mais vitoriosos da história do futebol europeu. O desafio do norueguês era muito mais complexo do que a simples comparação entre expectativa e realidade.
Ancelotti jamais foi um adversário nessa caminhada. Quando retornou ao clube, em 2021, manifestou o desejo de aproveitar o meia. O problema era outro. Depois de tantas idas e vindas, o jogador não buscava mais uma oportunidade. Precisava de um projeto.
A passagem pela Real Sociedad havia sido decisiva para essa mudança de percepção. Pela primeira vez, o futebol europeu enxergava não apenas um fenômeno de marketing ou uma aposta para o futuro, mas um articulador capaz de decidir partidas em alto nível. O garoto-prodígio começava a dar lugar ao jogador pronto.
Foi então que surgiu Mikel Arteta.
Se Ancelotti apresentou Odegaard ao futebol de elite, o treinador espanhol foi quem lhe ofereceu uma identidade. No Arsenal, encontrou minutos, confiança e responsabilidades. Mais importante: recebeu liberdade para comandar. De promessa itinerante, tornou-se líder. De talento em formação, virou referência.
A braçadeira de capitão não foi um detalhe. Representou a confiança de um clube inteiro em alguém que, durante anos, ouviu que seu potencial era enorme, mas raramente teve o ambiente ideal para demonstrá-lo. Arteta enxergou algo além da qualidade técnica. Identificou personalidade para liderar um processo de reconstrução em uma das instituições mais tradicionais da Inglaterra.
A transformação extrapolou Londres. Durante décadas, a Noruega produziu talentos esporádicos sem conseguir construir uma geração competitiva. Hoje, a seleção gira em torno da parceria formada por Odegaard e Haaland. Um fornece a imaginação. O outro, a força e os gols. Juntos, devolveram protagonismo internacional a um país ausente das fases decisivas dos grandes torneios desde 1998.
Embora Haaland monopolize manchetes, a influência do capitão lembra a exercida por Modric na Croácia. Não se resume a assistências ou passes decisivos. Trata-se da capacidade de controlar o ritmo das partidas, conectar setores e oferecer sentido coletivo a uma equipe.
Há uma ironia elegante nesse reencontro. Quando Ancelotti lançou Odegaard no Real Madrid, Vinicius Junior ainda era uma promessa das categorias de base do Flamengo. Onze anos depois, o italiano conhece a Noruega como adversário e vai preparar o Brasil para enfrentar justamente o jogador que ajudou a apresentar ao futebol mundial.
Mais simbólico ainda: entre os integrantes daquele lendário meio-campo merengue estava Casemiro. Agora, o volante brasileiro terá a missão de reduzir os espaços do jogador. Odegaard amadureceu observando os movimentos dele nos treinamentos de Valdebebas.
Neste domingo, Ancelotti reencontra um personagem muito diferente daquele adolescente lançado aos holofotes em Madri. O técnico da Seleção Brasileira abriu a primeira porta. Arteta escancarou as demais.
Poucos jogadores traduzem tão bem o valor da persistência em uma era obcecada pela precocidade. Durante anos, Odegaard carregou o peso de expectativas quase impossíveis de atender. Hoje chega às oitavas de final da Copa do Mundo como capitão, cérebro da Noruega e símbolo de uma verdade frequentemente esquecida no futebol: nem todo prodígio floresce imediatamente. Alguns precisam percorrer um caminho mais longo para encontrar o lugar onde realmente pertencem.
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