Do “silêncio dos nada inocentes” da Seleção às linhas e entrelinhas do “Manifesto do Paraguai”

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Dizem que a expectativa é a mãe da decepção ou da frustração, como queira. Criou-se o clima de que o posicionamento da Seleção Brasileira sobre a transferência da Copa América da Colômbia e da Argentina para o Brasil com direito a tabelinha entre Alejandro Dominguez, chefão da Conmebol; Rogério Caboclo, presidente da CBF; e o governo do presidente Jair Bolsonaro seria bombástico. Sinceramente, não esperava nada além do que vimos e lemos no início da madrugada desta quarta-feira depois da excelente vitória por 2 x 0 sobre o Paraguai, pela oitava rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo do Qatar-2022.

Na madrugada do último domingo, publiquei aqui no blog que pacificadores de plantão, a popular turma do deixa disso, entrou em ação no caos na CBF. A informação que eu tinha, e se confirmou, era a seguinte: a Seleção disputaria a Copa América sob o comando de Tite, que não seria demitido nem pediria para sair, e os jogadores fariam um manifesto inspirado no extinto Bom Senso FC, movimento que peitar a CBF com manifestos e protestos no gramado. À época, houve, inclusive, ameaça de greve, mas nunca passou de ensaio.

Considero o “Manifesto de Assunção” importante do ponto de vista de os jogadores saírem um pouco do mundinho deles. Pouco, mesmo. Quase nada. Engatinharam timidamente, como bebês “inocentes” descobrindo que podem andar com as próprias pernas. O conteúdo da nota de repúdio decepciona, contém equívocos gravíssimos, como criticar apenas a Conmebol e passar o pano na CBF e no Governo. Vou além: peca ao não exigir apuração séria sobre as denúncias de assédio sexual e moral do presidente afastado Rogério Caboclo contra uma funcionária. Seria no mínimo simpático. A Seleção e os clubes, que adoraram usar as redes sociais como instrumento de provocação e marketing, exigiram respeito às mulheres.

Com um pouco de boa vontade, li as linhas e as entrelinhas do “Manifesto de Assunção”. A Seleção precisa entender que “quando nasce um brasileiro”, nasce também um cidadão. Quem veste a amarelinha, como se diz carinhosamente, não pode enxergar mais de 200 milhões de brasileiros como torcedores ou a pátria de chuteiras. Cidadãos merecem respeito.

Ao dizer “somos um grupo coeso, porém com ideias distintas”, está claro que há divisão ideológica no vestiário da Seleção. Gente de direita, esquerda, bolsonarista, lulista, de centro e até isentos, que, para mim, também merecem respeito. Portanto, o grupo não é tão coeso.

“Se alguém quiser se posicionar politicamente, que o faça em casa, não com a camisa da Seleção”

Marquinhos, zagueiro

Os jogadores erram ao criticar apenas a Conmebol pela condução da Copa América. O torneio veio parar aqui porque o presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo, intermediou a negociação com o presidente da República, Jair Bolsonaro. Se há um descontentamento, por que poupar esses dois atores definitivos para dar asilo ao torneio?

Considero uma entrelinha importante o trecho “todos os fatos recentes nos levam a acreditar em um processo inadequado em sua realização”. Uma pena o medo de colocar o dedo na ferida. Há uma crítica implícita, velada, inclusive, ao vexame de Caboclo, mas a opinião é sufocada, talvez até censurada ou autocensurada para evitar bolas divididas.

A afirmação de que, “em nenhum momento, quisemos tornar essa discussão política” é uma afronta à inteligência de quem lê. O movimento é um ato político. A postura recente da Seleção, também. Há dois anos, Tite evitava Bolsonaro na comemoração do título da Copa América no gramado do Maracanã. Enquanto isso, jogadores posavam felizes e sorridentes ao lado de um presidente que agarrava o troféu como se fosse um dos 23 campeões.

O discurso de que “somos trabalhadores, profissionais do futebol”, é óbvio. Surpreendente é o desfecho da carta. Termina dizendo que “somos todos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à Seleção Brasileira”. Não é feio dizer não à amarelinha. O maior pecado do “Manifesto de Assunção” é o medo, temor ou desdém de referir-se explicitamente à dor das famílias de 477 mil mortos, até a noite de terça-feira, pela covid-19. Isso, sim, é imperdoável. Gol contra.

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Marcos Paulo Lima

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