Autor: Denise Rothenburg
Num encontro ontem com cinco senadores onde o tema central foi economia, o presidente Michel Temer, professor de direito constitucional, comentou que considera corretas as emendas que o juiz Sérgio Moro sugeriu à lei de abuso de autoridade em tramitação no Senado, já apresentadas pelo futuro líder do PSDB, Ricardo Ferraço (ES). Uma delas explicita que mera divergência na interpretação da lei durante avaliação de fatos e provas não pode constituir crime. Afinal, um juiz tem que ter autoridade para interpretar a lei.
O presidente se disse ainda “aliviado”, porque ao rejeitarem a urgência de votação das dez medidas de corrupção. “Vocês tiraram esse assunto do meu colo”, disse Temer. Afinal, se ele veta o texto, briga com o Parlamento que o apoia. Se sanciona, briga com o povo que já não é lá muito amigo do governo.
Pressão sobre Toffoli
Com Renan réu no Supremo Tribunal Federal, aumenta a pressão sobre o ministro Antonio Dias Toffoli entregue logo sua posição sobre réus na linha sucessória da Presidência da República. Ele pediu vistas e até hoje nada.
Preocupação suprapartidária
Não, pessoal. Não é a lista da Odebrecht. O que preocupa para valer os senadores que estiveram ontem no Alvorada com Michel Temer é a situação da economia. Do PSDB, José Aníbal (SP), Ricardo Ferraço (ES) e Tasso Jereissati (CE). Do PPS, Cristovam Buarque (DF). Do PTB, Armando Monteiro Neto (PE), ex-ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio do governo Dilma e ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Precisa mais
No encontro com Temer, os senadores disseram que o teto de gastos e a reforma previdenciária não serão suficientes para destravar a economia. Na semana que vem, eles vão se reunir com ministros para discutir propostas de redistribuição da atual carga tributária, de forma a aliviar a produção e os salários.
Paradinhos aí!
Os tucanos começam a puxar o tapete de Renan Calheiros. O deputado Luiz Carlos Hauly e Domingos Sávio sugerem que não se vote nada relativo a mudanças na lei de abuso de autoridade, nem as medidas contra a corrupção enquanto não terminar a Lava Jato Falta combinar com o comando do Senado. Renan Calheiros é visto hoje como alguém que age para enquadrar a primeira instância e manter o foro privilegiado.
CURTIDAS
Em campanha/ O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), janta hoje com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara. Será levado pelo deputado Heráclkito Fortes (PSB-PI).
Rosso e Jovair/ Os deputados do PTB vão deflagrar uma pressão para que Rogério Rosso (PSD-DF) desista de concorrer à Presidência da Câmara para apoiar o líder petebista, Jovair Arantes. Arantes apoiou Rosso na disputa do mandato tampão. Agora, dizem os petebistas, é hora de retribuir.
Moral da história/ Os petistas ficaram em alerta total quando o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) cobrou do juiz Sérgio Moro as gravações de conversas telefônicas de Lula. d. Marisa Letícia, filho e nora __ aquelas que vazaram, constrangendo o ex-presidente e seus familiares. Moro disse apenas que era magistrado e não iria comentar processos pendentes. Para o PT, foi um recado claro de que o inferno astral de Lula não acabou.
Estresse na embaixada/ O cerimonial e a equipe francesa que preparou a tradicional festa de apresentação do Beaujolais Nouveau viveram dias de estresse. Os queijos vindos de Marseille para o evento de ontem ficaram cinco dias retidos na alfândega e só foram liberados na véspera da recepção na residência do embaixador Laurent Bili.
A cada movimento brusco do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ele perde um pouco mais o verniz. Hoje, vira réu no Supremo Tribunal Federal. Não significa que seja culpado, mas é acusado de desvio de dinheiro proveniente da verba indenizatória do Senado, um processo que, ao que tudo indica, tem tirado a serenidade do senador. Nos últimos dias, ele tem abusado da ironia, chamando inclusive o relator das dez medidas de combate à corrupção na Câmara, Onyx Lorenzoni, como o que “parece nome de chuveiro” (na verdade, o chuveiro tem outro nome). Ontem, colocou o projeto das dez medidas em pauta sem combinar nem com o próprio partido, uma vez que o líder peemedebista Eunício Oliveira jura não ter assinado o pedido de urgência para votar a proposta que Renan mencionou como apoiada pelo PMDB. Para completar, o consultor legislativo Fabiano Silveira esteve ontem no Supremo Tribunal Federal conversando sobre a denúncia contra o senador, algo que não está diretamente relacionado com a Casa e foge às atribuições da consultoria. Silveira foi ministro de Michel Temer e saiu logo no início quando surgiram as gravações de Sérgio Machado e ele estava numa reunião que ficou famosa por dar a entender que tratava de formas para impor limites à Lava Jato.
Os senadores mencionam que haverá uma “guerra campal” em torno do projeto que institui mudanças na lei do abuso de autoridade. Renan insiste em pautar a matéria para a próxima semana, embora o relatório do senador Roberto Requião ainda não tenha sido apresentado e haver um grupo de senadores defendendo o adiamento. Considerado o número um do seleto grupo de políticos tarimbados na Casa, Renan tem errado aos olhos de quem o conhece bem. E, se brincar, terminará, dizem alguns, vítima do próprio projeto que defende.
O presidente do Senado, Renan Calheiros, havia comunicado logo cedo que não apreciaria hoje o fim do foro privilegiado aprovado pela Comissão de Constituição de Justiça da Casa de manhã. Porém, agora á noite, num requerimento assinado pelo PMDB, liderado por Eunício Oliveira, pelo PTC, de Fernando Collor, e pelo PSD, do senador Omar Aziz, colocou em votação a urgência para apreciar a toque de caixa as medidas contra corrupção aprovadas nessa madrugada pela Câmara. Embutido ali, a porta para processar juízes e promotores por abuso de autoridade. Foi essa urgência derrubada há pouco por 44 votos contra 14 e 1 abstenção.
O pedido não era do presidente do Senado. Mas ao acolher um pedido dessa ordem, e avisar de antemão que não apreciaria em plenário o fim do foro privilegiado para os políticos, um projeto que está no Senado há tempos, Renan deixa transparecer dois pesos. O desejo de colocar procuradores e juízes na mira de seus advogados, e continuar respondendo a tudo no Supremo Tribunal Federal.
Quando senadores, como Cristovam Buarque, Reguffe, Ricardo Ferraço, Paulo Bauer, Tasso Jereissati, Aloysio Nunes Ferreira, João Capiberibe, se posicionaram contra a urgência, nenhum líder apareceu de público para defender a rápida tramitação de um texto enorme que os deputados tinham aprovado na madrugada e que os senadores sequer receberam.
Quando o requerimento foi votado, uma maioria estrilou enquanto Fernando Collor permanecia imóvel. Eunício Oliveira, candidato a presidente da Casa, não defendeu o requerimento que ele, enquanto líder do partido, apresentou. O mesmo fez Omar Aziz. É, pois é. E o desgaste vai para… Renan Calheiros, que não defendeu o requerimento, mas deixou que fosse votado, como presidente da Casa.
O PSD decidiu há pouco lançar oficialmente o nome de Rogerio Rosso (DF) à Presidência da Câmara. Na terça-feira, o PSD escolherá seu novo líder e partir para a campanha interna. O primeiro passo é tentar conquistar o “Centrão”. A empreitada não é fácil. Há outro deputado do Centro Oeste, Jovair Arantes (PTB-GO), rodando os bastidores como candidato.
Aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a proposta de emenda constitucional que acaba com o foro privilegiado segue agora para o plenário da Casa. Mas, calma pessoal. Ali, quando o assunto e para deixar as excelências no mesmo patamar de qualquer trabalhador as coisas andam mais devagar. Lïderes não pretendem pedir a Renan que colocque o projeto em pauta nesse final de ano e Renan também não uer se esforar por isso. Assim, a tarefa ficará para fevereiro de 2017, depois do carnaval.
Se tudo correr de acordo com o programado, quem vai pilotar essa votação é o futuro presidente do Senado, Eunício Oliveira, que hoje recebe os senadores para o tradicional jantar de confraternização em sua casa. Ele é o candidato do PMDB e até agora não tem adversário na bancada.
Eses jantares ficaram famosos no ano passado, quando a então minsitra da agricultura, Kátia Abreu, jogou vinho no então senador José Serra. Hoje, eles trocaram as posições. Serra é ministro e Kátia senadora. Serra não deve comparecer.
Vingança na madrugada
A possibilidade de anistia ao caixa dois de campanhas passadas ficou para uma outra oportunidade, mas outros temas entraram no pacote das medidas de combate à corrupção. A sessão acaba de terminar. Por 313 votos a 132 e 3 abstenções, a Câmara dos Deputados aprovou, por exemplo, a inclusão de procuradores e juízes no rol daqueles agentes públicos que podem responder por crime de responsabilidade. Eles vão acabar com tudo. Essa Casa hoje perde a oportunidade de resgatar a própria imagem”, afirmou o deputado Onix Lorenzoni, relator das dez medidas de combate à corrupção.
Outra medida considerada importante, mas que os deputados aprovaram à revelia do relator foi a emenda de plenário que acabou com a parte do texto onde estavam definidos os incentivos a quem denunciasse crimes, algo que os deputados apelidaram de “bolsa dedo-duro”. “Não teremos mais Venina Velosa”, completou ele, referindo-se à funcionária da Petrobras que denunciou parte do esquema.
Quanto à parte do texto que trata do crime de responsabilidade para juízes e promotores foi vista como uma vingança dos deputados investigados na Lava-Jato e sua rede de amigos dentro do plenário. Algo do tipo, “vocês podem nos investigar, mas nós poderemos processar vocês”.
Os deputados concluíram a votação do texto nessa madrugada a fim de que a proposta seja votada no Senado ainda este ano. Difícil. Mas não impossível. Ali, no Congresso, tudo com acordo vira uma grande possibilidade. Ainda que seja um dia de manifestações, com quebra-quebra na Esplanada, como houve nessa terça-feira.
Analistas de redes sociais vislumbram para 2017 um movimento semelhante àquele que tomou o país em 2013, no período da Copa das Confederações. Esses especalistas identificaram um índice de mau humor infinitamente superior ao de 2015 e de 2014, fruto da grave crise econômica na qual as pessoas estão empobrecendo. E, diante da estagnação e do desemprego, a perspectiva dessa indignação extrapolar o mundo virtual e se transformar num amplo movimento de ocupação das ruas é um pulo. Ou as autoridades entendem esse recado e tratam a cuidar da crise econômica, ou outros problemas virão. O primeiro movimento está marcado para 4 de dezembro, coincidentemente, o mesmo dia em que os cubanos vão enterrar as cinzas do comandante Fidel Castro.
Cabral, segunda temporada
O verão vai ser quente. Já está no forno a segunda fase da operação que levou Sérgio Cabral a descobrir Bangu. Na mira, escritórios de advocacia e a ex-primeira-dama Adriana Anselmo, apelidada por alguns agentes, “a mulher das mil e uma jóias”. Ela é suspeita de ser uma das operadoras do esquema do marido.
Por falar em Cabral…
As notícias do cárcere são as de que o ex-governador tem chorado muito, ciente de que passará um bom tempo naquelas acomodações. O problema é que, se recorrer à delação premiada, enrosca ainda mais a família.
Nem tudo é tristeza
Não são poucos os deputados da Bahia que se dizem aliviados com o tombo de Geddel Vieira Lima. Uns garantem que, agora, Michel Temer será obrigado a redistribuir os cargos regionais.
O que eles pensam, ele fala
“Moro está acabando com o Brasil. É irresponsável. Não precisa fazer isso para combater a corrupção”, afirmou essa semana o deputado Vicente Cândido, no programa Frente-a-Frente, da Rede Vida, refletindo o sentimento que predomina entre os parlamentares, especialmente, os fisgados na Lava-Jato e seus aliados.
O que o governo deseja
A Advocacia Geral da União vai se esforçar junto ao Supremo Tribunal Federal para colocar como primeiro item da pauta de quarta-feira a ação direta de inconstitucionalidade que trata da cobrança das dívidas dos devedores contumazes nos setores de tabaco, bebidas e combustíveis. A esperança com a ação é arrecadar além do que já foi captado com a repatriação.
CURTIDAS
Adeus a Fidel I/ Lula e Dilma planejam participar dos funerais de Fidel Castro. O governo Michel Temer ainda não anunciou se o presidente vai ou será representado pelo embaixador ou pelo ministro de Relações Exteriores, José Serra. Se for, será a primeira reunião do grupo desde o impeachment.
Adeus a Fidel II/ Ontem petistas lamentavam que companheiros presos não poderão participar dessa última homenagem ao ícone da esquerda mundial. Especialmente, José Dirceu, que já morou em Cuba.
O rigor da presidente/ Os ministros do Supremo Tribunal Federal reclamam à boca pequena do rigor com que a ministra Cármen Lúcia trata o horário do intervalo. Dia desses, ela foi direta: “São 16h05. Voltaremos 16h35”. E ai de que quem não cumprir.
Por falar em Supremo…/ Na primeira quarta-feira de dezembro, dia 7, a biblioteca do STF será palco do lançamento do livro Segurança Jurídica e Protagonismo Judicial, desafios em tempos de incertezas. Werson Rêgo coordena a publicação, que reúne trabalhos de importantes personalidades do direito em homenagem ao ex-ministro Carlos Mário Velloso.
Com o pedido de demissão do ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, o governo trabalhará agora para tentar tirar o presidente Michel Temer do foco dessa crise. Desde ontem, quando veio à tona o depoimento do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero à Polícia Federal, no qual ele afirma que Temer teria feito um apelo para que ele resolvesse o problema de Geddel, o presidente ficou exposto. Por mais que Temer negue, so o fato de ter que dar explicações sobre esse caso e ter recebido o minstro para tratar de um tema menor perante os problemas que o pais atravessa já é desgastante.
O desafio agora é preservar o presidente Temer, voltando a colocá-lo como uma pessoa mais preocupada com a recuperação a economia __ e não dedicado a resolver o problema pessoal de Geddel em Salvador. Agora, na Bahia, Geddel terá mais tempo para se dedicar à salvação do empreendimento imobiliário suspenso por determinação do Instituto de Patrimônio Histórico. Frise-se: um problema pessoal, que deixou o governo frágil, diante da gravidade da crise econömica que o país tem a resolver, esse sim o desafio do presidente da República.
A semana parlamentar termina hoje com um grupo de deputados ávidos por encontrar uma fora de aprovar a anistia ao caixa dois sem que o eleitor perceba. Só não o fizeram hoje porque o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao perceber o desgaste político das manobras da manhã, correu ao plenário, fez um discurso pela democracia e encerrou a sessão. Agora, a bola está novamente no chão e as manobras, em princípio mais escassas. A perspectiva de aprovação é remota porque, agora, haverá tempo de uma mobilização em sentido contrário. Há quem aposte que os procuradores “deixem vazar” pedaços da delação premiada da Odebrecht ao longo do fim de semana, de forma a constranger deputados e senadores a optarem pela anistia. E mais: Como não está no texto, alguém terá que assinar uma emenda e assumir de público o jogo. Até aqui, ninguém quer colocar a própria estampa nessa emenda da anistia. Já houve inclusive deputados brigando por causa disso. Leia mais detalhes amanhã, na edição impressa do Correio Braziliense.
A urgência do projeto das 10 medidas passou e,agora, em discussão uma proposta para que todas as votações do texto sejam nominais. Os grandes partidos, entretanto, desejam a votação simbólica para não precisarem expor seus filiados na hora da anistia geral e irrestrita ao caixa dois de campanha.
O relator Onyx Lorenzoni denuncia uma vingança dos colegas contra o Ministério Público e a Polícia Federal. Apela para que a votação fique para a semana que vem. Seguimos acompanhando o caminhar do dia.

