A outra batalha da PF

Publicado em Política

Coluna Brasília-DF publicada no sábado, 8 de agosto de 2026, por Denise Rothenburg com Eduarda Esposito.

Em meio ao estica e puxa sobre as operações do Caso Master e do roubo dos aposentados do INSS, a Polícia Federal (PF) enfrentará um novo embate em breve. É que os senadores planejam tirar da gaveta o projeto que regulamenta a inteligência de Estado. No geral, há entre os policiais federais o receio de que a proposta abra ao pessoal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informações que, hoje, são exclusivas da PF. A Abin, por sua vez, defende a aprovação da matéria. Seus integrantes contam com o relator do projeto, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que já conversou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para a inclusão na pauta do esforço concentrado, em agosto. Até lá, Trad terá tempo de tentar buscar um acordo capaz de garantir a aprovação.

Origem e argumentos/ O projeto teve origem na Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), em 2025. Já houve várias tentativas de votação, sem sucesso, por causa da falta de acordo e de maioria. A PF considera que a inteligência deveria ser apenas da corporação e a Abin rebate o argumento, apontando as diferenças entre o tipo de inteligência que cada uma das instituições utiliza — a PF focada para operações, com persecução penal, ao contrário da Agência, que usará os recursos para proteção do Estado e da soberania brasileira. A proposta detalha procedimentos para a produção de conhecimento; operações sensíveis e monitoramento remoto; exigência de autorização judicial prévia para monitoramento; e garantia à proteção da identidade dos agentes.

Separe as estações

As menções do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao secretário de Estado do governo dos Estados Unidos, Marco Rubio, como alguém que “odeia o Brasil”, vêm no sentido de chamá-lo para o ringue. A ideia agora é tentar mostrar que é ali que os bolsonaristas têm sua ponta de lança para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL).

Entreguismo x soberania I

Aliás, os últimos movimentos do governo dos Estados Unidos, com o cancelamento do visto da embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti, e as pesadas tarifas a determinados setores, deixaram no governo brasileiro a certeza de que a tensão só se dissipará após o período eleitoral. Lula, porém, tentará fazer desse limão uma limonada, colocando a soberania na pauta da eleição presidencial.

Entreguismo x soberania II

A ideia que prevalece entre os aliados de Lula é associar os movimentos contrários ao Brasil à viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA, no mês passado, quando o pré-candidato do PL, de acordo com o governo brasileiro, prometeu mundos e fundos a Washington. Depois da visita, Flávio reforçou o discurso contra as urnas eletrônicas e o Departamento de Estado pretendia enviar dois observadores ao Brasil — a imprensa norte-americana divulgou que viriam para corroborar essa narrativa. O visto, então, foi negado. Tudo isso deve ser abordado na eleição por aqui.

Enquanto isso, em São Paulo…

Embora Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) apareçam bem posicionadas nas pesquisas para o Senado, os petistas temem que Tarcísio de Freitas (Republicanos) acabe puxando um dos candidatos conservadores. A esperança da turma de Marina Silva é que a divisão nas hostes conservadoras entre Guilherme Derrite, Ricardo Salles e Andre do Prado acabe dificultando a vida daqueles que apoiam a reeleição do governador.

Saltos/ Eleger-se deputado federal foi um ótimo negócio para Nikolas Ferreira (PL-MG). Em 2022, ele declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio R$ 36.820,46. Agora, candidato à reeleição, registrou R$ 3.898.456,67 em imóvel e investimentos, um crescimento de 10.487,75%. Nesses quatro anos, Nikolas financiou uma casa de R$ 2,2 milhões, que ainda está pagando, aumentou o número de aplicações e adquiriu ações em companhias privadas e públicas.

Veja bem/ Em nota à coluna, o deputado afirma que parte significativa do aumento se deveu ao financiamento da casa. Ele ainda tem saldo devedor. “O valor integral do bem consta na relação patrimonial, mas não representa patrimônio líquido efetivamente incorporado pelo parlamentar, uma vez que parcela substancial permanece vinculada à obrigação financeira assumida para sua aquisição”, justifica a nota. E afirma que “justamente por cumprir integralmente o dever de transparência é que os bens e atividades do parlamentar estão devidamente registrados e declarados”.

A arte do enfrentamento/ O Supremo Tribunal Federal inaugurou, nesta semana, o painel “Sete Marias” (foto), doado pelo pintor brasileiro Antonio Veronese. A obra, um manifesto artístico contra o feminicídio e a violência de gênero, foi instalada no Hall dos Bustos, no edifício-sede da Corte. Na cerimônia de instalação, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, ressaltou a importância e o simbolismo da obra “que carrega vida, dor, tragédia e esperança”. “A partir deste momento, ela passa a integrar a memória, a paisagem e o patrimônio simbólico do Supremo Tribunal Federal”, afirmou.

A arte da união/ Há tempos, os ministros não tinham um momento tão descontraído entre eles. A ministra Cármen Lúcia, única representante do sexo feminino na Suprema Corte, destacou que o painel é um instrumento de conscientização e defesa dos direitos das mulheres. “Somos todos humanos e humanas, e os direitos têm de ser de todos nós”, afirmou. “Este painel é exatamente a demonstração da violência que se vem praticando, a denúncia de um feminicídio que não para”, frisou.

Colaborou Renato Souza