Cosette Castro & Natália Duarte
Brasília – Nesta segunda-feira cinzenta e com chuva, já começaram as movimentações para o segundo turno das eleições.
Hoje quem escreve no Blog é a professora e pesquisadora da UnB, Natália Duarte, que faz parte da coordenação do Coletivo Filhas da Mãe. Ela convida a refletir sobre os tipos de cuidado existentes no Brasil, desde o ponto de vista de quem necessita cuidados e de quem cuida.
Natália Duarte – “Por muito tempo, tentamos explicar o Brasil pela lente da polarização. Mas talvez seja hora de reconhecer que o que chamamos de “polarização” é também a expressão de duas visões sobre cuidado que atravessam séculos da nossa história.
Não são apenas posições políticas: são modos de viver, sobreviver e cuidar que se formaram em experiências profundas do povo brasileiro.
A primeira visão nasce da realidade de quem não teve Estado, proteção ou políticas públicas que chegassem aos territórios.
Povos indígenas sempre cuidaram de si, de suas comunidades e de sua espiritualidade sem apoio externo, resistindo apesar da violência e da negligência oficial.
O povo negro, escravizado e depois abandonado à própria sorte, construiu redes de cuidado comunitário, familiar e espiritual para sobreviver.
As mulheres, especialmente as mais pobres, sempre foram responsáveis, sem remuneração, pelo cuidado de crianças, de pessoas idosas, de pessoas com deficiência, de doentes, vizinhas, parentes e agregados.
Cuidaram porque era preciso, porque não havia alternativa, porque o trabalho de cuidado era a única forma de manter a vida em movimento. E de sobreviver.
Essa experiência histórica produz uma visão de mundo: o cuidado como responsabilidade individual, da mulher e familiar, sem esperar muito do Estado.
Para milhões de pessoas, essa foi a única realidade durante muitos anos e ainda o é, em algumas situações. Muitas dessas pessoas, por exemplo, nunca ouviram falar na Política Nacional de Cuidados. Por isso, não surpreende que parte da população, onde nem sempre as políticas públicas chegam, defenda menos Estado, menos impostos, menos políticas sociais, mais individualismo e mais conservadorismo.
Não é ignorância: é memória social. É a marca de gente que sempre “foi em frente sem nem ter com quem contar”.
O Outro Lado
A segunda visão nasce das lutas e da mobilização social. Ao longo do século XX e especialmente após a Constituição de 1988, que hoje completa 38 anos, foi conquistado o reconhecimento de que cuidar é corresponsabilidade coletiva. E isso virou política pública.
Construímos o SUS, o Sistema Único da Assistência Social (SUAS), a educação pública, o programa Minha Casa Minha Vida e a farmácia popular, políticas de renda, cultura, esporte, lazer, proteção do trabalho e programas comunitários. E, mais recentemente, a Política Nacional de Cuidados. Nada disso caiu do céu.
É resultado da resistência das mulheres, dos movimentos sociais, dos povos tradicionais, das trabalhadoras remuneradas do cuidado e das cuidadoras familiares, sem remuneração, que sabiam que o cuidado não pode existir apenas no âmbito privado.
O Coletivo Filhas da Mãe se insere nessa tradição. Defendemos uma Sociedade do Cuidado, onde as famílias, em especial os homens, a comunidade, as empresas e o Estado devem compartilhar a corresponsabilidades do cuidado.
Acreditamos e defendemos as políticas públicas para toda população.
Sejam elas as políticas públicas de cuidado, as escolas integrais, a atenção primária forte, os centros de convivência, os centros dia e os territórios de cuidado. Também defendemos o direito ao autocuidado, como explícita a Política Nacional de Cuidados, aprovada em dezembro de 2024.
Somos mulheres cuidadoras e sabemos que cuidar é afeto, mas também é trabalho, na maioria das vezes invisível e gratuito. Com condições dignas e com corresponsabilidade, o cuidado produz amor, gentileza e bem-viver.”
No Coletivo Filhas da Mãe seguiremos resistindo e defendendo políticas públicas. E seguiremos conjugando o verbo esperançar.

