Apesar da demência, segue o vínculo e o afeto
Cosette Castro & Manoela Dias
Brasília – Esta semana o Senado deu mais um passo para a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) pelo fim da escala 6×1. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou o texto da PEC.
Enquanto o Brasil aguarda que a PEC entre logo em votação, este Blog segue na Campanha do Setembro Lilás, mês de conscientização sobre as demências, entre elas o Alzheimer. A convidada desta edição é a fonoaudióloga Manoela Dias, especialista em Gerontologia, que durante anos foi cuidadora “sanduíche”.
Manoela Dias – “Quando falamos em demência, é comum pensarmos imediatamente em perda de memória. Mas a demência não é apenas o esquecimento. Ela pode afetar o raciocínio, a linguagem, o comportamento, a orientação e a capacidade de realizar tarefas que antes faziam parte da rotina.
Muitas vezes, começa silenciosamente, com pequenas mudanças que nem sempre são percebidas de imediato.
O cérebro funciona como uma grande rede de conexões. Os neurônios se comunicam por sinais elétricos e químicos, formando caminhos que nos permitem guardar experiências, reconhecer pessoas, encontrar palavras e tomar decisões.
Nas diferentes formas de demência, essas conexões podem se tornar progressivamente menos eficientes. Alterações nas proteínas cerebrais, processos inflamatórios e mudanças na circulação sanguínea podem contribuir para esse processo.
No início, os sinais podem parecer simples: esquecer nomes, guardar objetos em lugares diferentes, repetir perguntas ou precisar de mais tempo para encontrar uma informação. Com a evolução, tarefas mais complexas podem se tornar difíceis, assim como a orientação, a comunicação e, em alguns casos, o comportamento e a personalidade.
É fundamental compreender que a demência não é uma consequência natural do envelhecimento. Existem diferentes tipos de demência, entre elas o Alzheimer, com manifestações e evoluções próprias. Seus fatores de risco também são diversos, envolvendo saúde vascular e metabólica, qualidade do sono, inflamação, hábitos de vida e predisposição genética.
As demências não são uma consequência natural do envelhecimento. Existem diferentes tipos de demência, com manifestações e evoluções próprias. Seus fatores de risco também são diversos, envolvendo saúde vascular e metabólica, qualidade do sono, inflamação, hábitos de vida e predisposição genética.
Por isso, cuidar do cérebro começa muito antes do surgimento dos sintomas. Sono adequado, atividade física, alimentação equilibrada, estímulo cognitivo e convivência social são importantes para a saúde cerebral ao longo da vida. Esses cuidados não garantem que uma pessoa nunca desenvolverá demência, mas podem contribuir para a saúde e a reserva cerebral.
Entretanto, quando a demência chega, existe outra dimensão que não pode ser esquecida: a do cuidado. E é sobre isso que escrevo hoje, a partir das minha experiência pessoal.
Fui uma cuidadora familiar “sanduíche”. Estava cuidando duas gerações, minha mãe e meu filho, ainda na primeira infância. Dois extremos da vida que exigiam presença, dedicação e entrega. Como acontece com tantos familiares, nem sempre foi possível equilibrar todas as necessidades de quem eu cuidava com as minhas próprias.
Mas, dentro das possibilidades, pude proporcionar à minha mãe algo que considero essencial: presença afetiva. Havia a pamonha que ela amava, ouvia seus discos de vinil e principalmente a doce companhia do netinho, Davi.
Talvez nem tudo pudesse ser controlado ou resolvido. Mas havia algo que eu podia oferecer: vínculo.
Porque cuidar de uma pessoa com demência não significa cuidar apenas da doença. Significa olhar para a pessoa que permanece ali, reconhecer sua história, respeitar sua individualidade e construir, todos os dias, momentos possíveis de afeto, segurança e dignidade”.
PS: Neste domingo haverá caminhada no Parque Olhos d’Água com abertura do Setembro Lilás e distribuição de material informativo. Encontro às 8h30, na entrada do Parque (Quadra 413/414 Norte), logo após os banheiros. Depois da caminhada haverá lanche compartilhado. Leve algo para contribuir. A partir das 10h tem chorinho no Parque.

