Cosette Castro
Brasília – Pela primeira vez na história do Brasil será lançado o Fórum Nacional Pelo Protagonismo das Mulheres Idosas, institucionalizado dentro do Ministério das Mulheres (MM) em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC).
Até pouco tempo, as mulheres com 60 anos ou mais eram tratadas como pessoas a serem escondidas. Uma categoria a parte, quase separada das questões de gênero. Como se deixar de menstruar, entrar na menopausa ou ter rugas retirasse o direito a ser mulher em toda sua potência. Esconder a idade, então, era praticamente obrigatório. Onde já se viu, envelhecer…
O apagamento social das mulheres 60+ se estende a todas as áreas. Inclusive nos Ministérios, comitês, conselhos e fóruns. Elas estão lá, trabalhando, mas poucas falam sobre a idade ou sobre essa outra fase da vida. Tenho escrito e falado em palestras e encontros que dizer a idade é um ato político contra o apagamento, o preconceito, contra a vergonha ou o medo de envelhecer. Sim, vivemos em uma sociedade que estimula a vergonha e o medo.
Nas famílias, que deveria ser um espaço de acolhimento, o preconceito e a violência contra mulheres seguem ocorrendo também após os 60 anos. Ou seja, segue durante toda a vida. E não se restringe ao que a família acredita que as mulheres idosas podem fazer ou vestir. Segue na demanda para serem cuidadoras não remuneradas até pelo menos os 80 anos.
Na área jurídica, por exemplo, um juiz do Distrito Federal se negou a incluir na Lei Maria da Penha a violência doméstica que uma mulher de 64 anos sofreu. Ele disse que ela era idosa e seria considerado apenas o Estatuto da Pessoa Idosa. Esse é apenas um exemplo do idadismo e da violência institucional que as mulheres idosas passam diariamente no país.
Houve um tempo em que ser mulher idosa era abrir mão da própria sexualidade, dos próprios desejos, sonhos e projetos. Foram os movimentos de mulheres e as redes de apoio que contribuíram não só para que os direitos fossem ampliados, mas para que uma boa parte das mulheres idosas sigam participando dos movimentos sociais. E lutem contra o apagamento social, inclusive cometido por outras mulheres. E contra as desigualdades sociais, como as questões de raça/etnia, deficiência, lgbtfobia, territórios.
É hora de falar sobre o idadismo, um dos nomes do preconceito por idade. Ele é resultado do estímulo à eterna juventude que acontece no país, da cobrança social por performances jovens sobre as mulheres e pela negação da idade que atinge uma parcela importante da população. Não por acaso questões como peso e idade seguem causando sofrimento mental às mulheres. São uma violência a mais, inclusive entre as idosas.
Foram as mulheres do Fórum Nacional das Mulheres Envelhecentes (50+) e das Mulheres Idosas (60+) – FNMEI, criado em 2023 e ampliado em 2025, que trouxeram a público a pauta sobre o idadismo de gênero e suas interseccionalidades. O Fórum tem como criadora Maria do Carmo Guido, estudiosa do envelhecimento, e conta com coordenação colegiada, da qual o Coletivo Filhas da Mãe faz parte. Foi o FNMEI que levou a pauta das mulheres idosas ao MM.
O novo Fórum será construído a muitas mãos. E, depois de implementado, terá representação de representantes do Ministério das Mulheres, de dois Conselhos (MM e MDHC) e de sete instituições da sociedade civil. Link para a live aqui.

