Cosette Castro & José Leme Galvão Jr.
Brasília – No Brasil aumentam as reclamações contra plataformas digitais públicas e privadas pouco acessíveis. Entre elas está o e-gov, onde proliferam vídeos e depoimentos no Facebook, no Instagram e no Tik Tok. É urgente escutar o que as pessoas estão dizendo.
Mas a questão vai além do e-gov. Há cada vez mais sites e plataformas usando Inteligência artificial (IA), cujo desenho não leva em conta a diversidade e as diferentes necessidades da população.
Em um país aonde não foi completada a passagem do mundo analógico para o digital, não é compreensível deixar de lado as pessoas que não têm letramento digital ou aquelas encontram dificuldade na navegação.
Essas plataformas tampouco levam em consideração a situação das pessoas com deficiência ou das pessoas idosas. É urgente trazer de volta e garantir o atendimento humano para responder dúvidas e reduzir o sofrimento mental de quem não faz parte dos parâmetros das máquinas.
Em um país com baixo letramento digital e aumento da população Idosa, 36 milhões segundo o IBGE (2026), acessibilidade não pode ser só uma palavra. Precisa ser uma prática cotidiana.
Nesta edição, o Blog recebe o depoimento do arquiteto José Leme Galvão Jr., 75 anos, de Brasília, que nasceu com deficiência visual.
José Leme Galvão Jr. – “Certa noite de 2024 descobri que a TAM tinha derrubado minha senha antiga do plano de milhagem. Fiquei sem acesso à conta e precisava comprar uma passagem urgente, mas, para isso, precisava fazer o tal reconhecimento facial. Me posicionei com uma parede iluminada de fundo, ajustei o app e iniciei… Enquadra, afasta, aproxima, mais inclinado etc. e quando achei que estava tudo certo veio mais a ordem: – abra os olhos. Tentei mas tenho Pitose congênita na pálpebra esquerda. Prá quem não sabe o que é pitose, é o “olho baixo” por falta de um tendão. Daí meu apelido Soneca…
Naquele momento já irritado me dei conta do ridículo. Enquanto tentava novamente falava com os filhos em ligação (sim, com dificuldades, mas sou capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo no celular). De novo o “abra os olhos”! Já ia soltar os cachorros contra aquela IA maledetta quando me dei conta do ridículo da situação e comecei a rir… Enfim, virou piada interna familiar e resolvi comprar a passagem, sem o reconhecimento facial, sem acesso à minha conta e sem milhas, mesmo tendo-as acumuladas.
Algum tempo – meses – depois, meu filho descobriu que sob luz natural fica mais fácil e de fato consegui. Fica a dica.
Mais recentemente resolvi me modernizar e fui na Claro comprar um novo celular. Me informo, sou convencido por um determinado modelo com bom desconto etc. Então começamos a venda/compra. Tudo indo bem lentamente bem, até me sentir fazendo crediário nos anos 60, mesma burocracia, só que na tela do computador. Então o atendente/vendedor anunciou:
– Agora vamos fazer sua biometria, ou reconhecimento facial!
Logo avisei da minha experiência malfadada, mas seguimos. Câmera ajustada, aproxima, afasta, vira, inclina etc e, claro (sic), lá vem a ordem fatal: – Abra os olhos!… Claro (sic II), não consegui, a Pitose é minha marca natural contra a inteligência artificial.
Tentamos, com o vendedor bastante intrigado, mais uma vez e nada. Por fim desistiu, conversou com alguém acima na loja, confabularam e finalmente fez um pedido à alguém – por telefone! – uma espécie de central de vendas, para fazer uma autorização especial. Mais uns bons 40 minutos prá ficar tudo certo e fechar o negócio.
Demorei menos prá comprar uma bicicleta na loja Novo Mundo de Goiânia, em 1964!”
Ignorar a realidade das pessoas com deficiência, das pessoas idosas, das pessoas com fragilidade social, daquelas não têm dinheiro para comprar aparelhos de última geração, que moram em locais onde não há qualidade/acesso à internet, que não têm acesso à internet gratuita, que não compreendem o que lêem (alfabetismo funcional), que não sabem usar as diferentes plataformas digitais e não têm letramento digital é, no mínimo, uma falta de respeito.
Oferecer inclusão digital escutando as diferentes realidades não é favor. É direito.

