Cosette Castro
Brasília – A distopia do filme brasileiro “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, saiu das telas e bateu na porta da realidade. Parece brincadeira, mas não é. Basta ver o que aconteceu no bairro da Lapa, no município de São Paulo, há poucos dias.
No filme de 2025, as pessoas idosas de 75 anos eram retiradas do convívio social e levadas compulsoriamente em uma carrocinha (similar aquelas de cachorro de antigamente) para um lugar incerto e não sabido. Teoricamente exilados em uma “colônia” onde viveriam felizes para sempre separados da sociedade e das pessoas mais jovens. Sem serem vistas nem “dar trabalho”. Desta distopia, é possível traçar uma comparação com a realidade lapiana.
Para quem ainda não conhece o escândalo do Caso Lapa, vale a pena contextualizar. No bairo Lapa, zona Oeste da capital paulista, há 40 Instituições de Longa Parmanência para Pessoas Idosas (ILPIs), nome dado aos antigos asilos. Alguns vizinhos, entre eles vários com 50, 60 anos ou mais, solicitaram à Prefeitura de São Paulo, e foi rapidamente acatado, a retirada das ILPIs porque elas “desvalorizam o imóvel” e incomodam a vizinhança com a chegada de ambulâncias ou carros funerários.
Os veículos anunciam a fragilidade humana e concretizam a morte, algo que as pessoas têm medo e costumam negar diariamente. Saiba mais aqui.
Para além da denúncia na prefeitura, aceita pelo Prefeito Ricardo Nunes, alguns vizinhos passaram a colocar caixas de som com música alta voltada para as ILPIs, interrompendo a rotina das pessoas idosas, muitas delas doentes. Como se não bastasse, eles mantém atitudes ríspidas e intimidadoras em relação às pessoas que visitam seus familiares, assim como contra funcionários que trabalham nessas instituições. Uma das atitudes é filmar as pessoas que entram e saem das ILPIs, interpelando algumas delas.
Em resposta à violência contra as pessoas idosas na capital paulista, cidade onde 17% da população tem mais de 60 anos, profissionais de diferentes áreas, pesquisadoras e pesquisadores sobre envelhecimento e movimentos sociais do Brasil se uniram para denunciar o preconceito por idade. Há várias maneiras de nominar o mesmo preconceito: idadismo, etarismo, ageismo ou velhofobia.
Mais do que um problema de desvalorização do imóvel, o que revela esse movimento para retirar as ILPIs e as pessoas idosas, muitas delas sem familiares ou casas para onde voltar, é o desejo de não olhar para a velhice (sua ou dos outros). O preconceito não se restringe aos vizinhos. Muitas vezes, o isolamento e o apagamento social das pessoas 60+ acontece dentro das famílias, especialmente quando a pessoa idosa tem fragilidade física ou cognitiva.
O escândalo da Lapa revela a ponta do iceberg em um país com 36 milhões de pessoas idosas (IBGE, 2026), em rápido processo de envelhecimento, onde crescem, paralelamente, movimentos em defesa da eterna juventude. Entre eles, aqueles voltados para o “congelamento da idade”, como se isso fosse possível a medio e longo prazo. Na lista entram os procedimentos estéticos, a ampliação do mercado de profissionais de saúde voltados para essa área, assim como a hiper utilização e multiplicação de academias.
Com a redução das famílias e novos formatos familiares, é preciso aumentar o número de ILPIs públicas no Brasil, assim como melhorar e qualificar as existentes, entre elas as filantrópicas e privadas.
A ampliação das ILPIs públicas é uma das ações prioritárias de 2026 do Plano Nacional de Cuidados. Em um país com tantas desigualdades, a maioria das famílias não têm orçamento para sustentar serviços privados. E sem ILPIs públicas, o trabalho de cuidado gratuito das pessoas idosas da família (mais uma vez) recai sobre as mulheres.
É preciso ainda estimular outras alternativas de vida coletiva, como casas comunitárias para pessoas 60+, Repúblicas sem custo, programa Minha Casa Minha Vida 60+ estimulando atividades e convivência entre diferentes gerações.
Assine o abaixo-assinado contra o preconceito sobre pessoas idosas. O idadismo machuca. O etarismo doi. E pode até matar. Link para assinatura aqui.
Junho, mês de conscientização sobre a violência contra as pessoas idosas.

