Precisamos Falar Sobre Trabalho de Cuidado Gratuito

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Cosette Castro

Brasília – O dia depois do dia das mães é um bom momento para pensar sobre a romantização do trabalho gratuito de cuidado que as brasileiras realizam todos os dias.

No domingo, 10 de maio, foi possível ler frases nas redes sociais digitais que seguem enaltecendo e naturalizando o cuidado gratuito de pessoas e o cuidado doméstico sem remuneração. Entre elas havia uma ‘pérola’ que exemplifica a tentativa cotidiana de apagar a sobrecarga e o cansaço das mulheres.

“O cuidado por amor não pesa”.

A frase foi escrita por um homem que cresceu sendo dispensado de realizar cuidado doméstico e de cuidar de familiares, porque cuidado ‘não é coisa de homem’. Enquanto isso, ele viu as irmãs tendo que ‘ajudar’ a cuidar da casa e de outras pessoas, antes ou depois da aula.

Ele, que passou a infância e adolescência sendo cuidado, considera ‘natural’ seguir sendo cuidado na vida adulta. Ao mesmo tempo se considera uma pessoa moderna porque a mulher também está trabalhando no mercado para dividir os gastos da casa. Mas quando chega em casa ele descansa, enquanto a mulher segue realizando jornadas de cuidado gratuito.

A frase “o cuidado por amor não pesa” vai muito além de um aparente elogio às mulheres. Além de naturalizar o cuidado feminino e reduzir o peso do cuidado, é um grande incentivo a que as mulheres ‘fortes’ sigam cuidando de forma invisível e gratuita ao longo da vida. É também uma perversidade, pois trata-se de uma tentativa subliminar de gerar culpa nas mulheres que sentirem cansaço físico e emocional ao longo do dia de cuidados.

Esse trabalho doméstico invisível começa cedo para a maioria das meninas, em geral antes dos 10 anos (33%), ou logo após os 10 anos (44%) e segue ao longo da vida. Já o cuidado gratuito de familiares tem mais força a partir da adolescência, por volta dos 15 anos , crescendo na vida adulta e após os 60 anos. Esses dados aparecem na Pesquisa “Quem Cuida de Quem Cuida? – reflexões sobre o trabalho de cuidado não remunerado entre mulheres bancárias do Distrito Federal” que foi recentemente finalizada sob minha coordenação.

De acordo com a pesquisa, 58,2% das participantes são chefes de família e 77,4% delas têm pessoas dependentes para cuidar. Isso faz com que as participantes do estudo tenham sobrecarga física e mental diária, sobrando pouco tempo para praticar autocuidado e para  pensar ou calcular o tempo diário gasto no cuidado não remunerado.

Apesar da aprovação da Política Nacional de Cuidados (dez.,2024), 95% das participantes ainda não conhecem seus direitos.

A pesquisa, que contou com a participação de 150 mulheres,  será lançada no Seminário “Quem Cuida de Quem Cuida?” na sexta-feira, 15 de maio, às 19h, no teatro do Sindicato dos Bancários DF, localizado na Entrequadra 314/15 Sul, com entrada aberta para a comunidade. Esperamos você.

Cosette Castro

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