Cosette Castro & Deyse Mara
Brasília – Próximo ao dia das Mães, o show da cantora Shakira no dia 02/05, em Copacabana, segue repercutindo dentro e fora do Brasil. Inclusive na edição de hoje do Blog em que aproveitamos para homenagear as mulheres que são mães biológicas, adotivas ou afetivas.
Hoje o blog se dedica a agradecer às mães de todas as idades, inclusive as mais jovens que cuidam de filhos e cuidam, temporaria ou permanentemente, de suas mães. Elas podem ser cuidadoras principais ou co-cuidadoras. Podem cuidar de perto ou online. Todo cuidado vale e é bem vindo.
A convidada de hoje é a professora da rede pública municipal de Angra dos Reis (RJ), Deyse Mara que, em 2025, viveu a experiência de se tornar cuidadora temporária da mãe e precisou adaptar a sua vida, a do filho e a rotina de trabalho para cuidar. No último sábado ela foi em grupo ao Rio de Janeiro e fez parte dos 2 milhões de pessoas que tomaram conta da praia de Copacabana. Com a palavra, Deyse Mara.
“— Filho, sabe o que a Shakira falou lá no show?
— Não…
— Que no Brasil mais de 20 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas. Inclusive, ela disse: “eu sou uma delas”.
Filho, será que ela quis insinuar que o Piqué não paga pensão?
— Claro que não, Mãe. Ela estava falando que sustentar é cuidar, dar atenção e carinho.
Esse diálogo deixou meu coração ainda mais aquecido depois de viver uma noite histórica na praia de Praia de Copacabana E com esperança nas futuras gerações.
O show da Shakira foi muito além de um evento musical. Foi uma experiência coletiva de reafirmação da nossa identidade latina, da nossa feminilidade e da força silenciosa que as mulheres carregam enquanto equilibram maternidade, trabalho, afetos e sobrevivência emocional.
Em muitos momentos, senti que aquele palco também era mais do que música e dança. Era um espaço de denúncia.
Denúncia contra a violência dos homens. Contra a sobrecarga feminina. Contra a cobrança impossível de sermos fortes, bonitas, sensuais, mães exemplares, profissionais produtivas, emocionalmente disponíveis e felizes o tempo inteiro. E cuidadoras. Enquanto Shakira cantava, eu pensava em quantas mulheres vivem exaustas tentando sustentar o mundo sem nunca poder desmoronar. E talvez por isso aquele grito coletivo tenha sido tão necessário.
Vivemos tempos estranhos. Tempos em que discursos misóginos, de ódio e desrespeito às mulheres, ganham força e visibilidade nas redes sociais digitais. Onde homens ressentidos transformam mulheres livres em alvo constante de hostilidade.
Mas o que mais me marcou foi perceber que essa violência não estava apenas na internet. Os ataques estavam ali, na areia de Copacabana. Ao meu lado.
Enquanto eu assistia ao show, ouvi homens próximos fazendo comentários cruéis sobre o corpo da Shakira, sua idade, suas roupas e sua vida pessoal.
Em meio a uma apresentação histórica, que reuniu mais de 2 milhões de pessoas, ainda havia quem estivesse profundamente incomodado por ver uma mulher livre, poderosa e dona da própria narrativa ocupando um espaço tão grandioso. E gratuito para quem quisesse ver.
Aquilo me atravessou de uma forma difícil de explicar, porque evidenciava exatamente o que ela denunciava no palco: a violência simbólica contra mulheres nunca descansa. Nem quando estamos celebrando. Nem quando estamos dançando. Nem quando estamos felizes.
Mas, ao mesmo tempo, a grandeza daquela apresentação esmagava toda a pequenez do discurso machista. Era impossível não se sentir atravessada pela potência daquela mulher latina ocupando um palco gigantesco sem pedir desculpas por existir.
E eu estava ali. Cercada de pessoas que amo, pensando nas diferentes “lobas” que me sustentaram até aqui. Pensei nas amigas que seguraram minha mão quando eu me perdi na floresta. Nas terapeutas. Nas comadres. Nas madrinhas. Nas mulheres da minha família. Na minha mãe, que tantas vezes abriu mão do próprio descanso para me oferecer colo, alimento e proteção enquanto meu pai trabalhava nas madrugadas.
Percebi que sobreviver também é uma experiência coletiva feminina. Nenhuma mulher chega inteira até aqui sozinha.
Trazer ao palco nomes como Anitta, Ivete Sangalo e Maria Bethânia foi como abraçar diferentes gerações de mulheres brasileiras e latino-americanas em uma única celebração.
Em tempos em que tantos insistem em idolatrar referências estrangeiras enquanto desprezam a própria cultura, ver milhões de pessoas celebrando nossa latinidade foi restaurador.
Foi político.
Foi afetivo.
Foi feminino.
E no fim da noite eu ainda pensava no meu pequeno “lobinho”, citado no começo deste texto que, aos 13 anos, conseguiu compreender melhor a dimensão social daquela fala da Shakira do que muitos homens adultos perdidos na misoginia contemporânea.
Talvez porque amor, cuidado e consciência social também sejam coisas que se aprendem observando mulheres fortes sobreviverem.”
PS: Neste domingo, 10 de maio, não haverá caminhada. Mas no dia 17/05, acontecerá a 4a. Trilha Urbana “Os Caminhos de Athos Bulcão na Asa Norte”. Atividade aberta e gratuita. Você pode confirmar participação por mensagem no instagram do Coletivo (@blocofilhasdamae) ou pelo WhatsApp 999895808.