A vitória da Sociedade do Cuidado

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Natalia Duarte

Brasília – O Brasil é um país de contradições gritantes. Vivemos uma semana poderosa, onde a Marcha das Mulheres Negras reuniu cerca de 300 mil mulheres na Capital Federal por reparação e bem viver.

A Marcha aconteceu logo após a Conferência do Clima (COP30), realizada em Belém (PA) para tratar das mudanças climáticas. Ela reuniu 25 mil pessoas e mil organizações de diferentes países.

Uma semana após a COP30 tivemos a triste comprovação que a maioria do Congresso não prioriza a população brasileira ao votar a favor do PL da Devastação. A Câmara dos Deputados, liderada por Hugo Mota, derrubou 56 vetos do Presidente Lula ao Projeto de Lei.

Isso fragilizou as normas de licenciamento ambiental. Sem os vetos, aumenta o risco de desmatamento, queimadas e cerceia direitos adquiridos de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

Por outro lado, essa semana celebramos a eleição das pessoas representantes da sociedade civil para compor o Comitê Estratégico do Plano Nacional de Cuidados no triênio 2025-2028 (Conheça a lista).

Sobre o tema, quem escreve na edição de hoje é a professora da UnB, Natalia Duarte, que faz parte da coordenação do Coletivo Filhas da Mãe.

Natalia Duarte – “Estamos felizes e orgulhosas pela eleição de Cosette Castro para o Comitê Estratégico do Plano Nacional de Cuidados no segmento Notório Saber.  Essa conquista não é apenas pessoal, de uma jornalista, psicanalista, pesquisadora e ativista.

É vitória coletiva: Cosette representa todas as mulheres que lutam pelo reconhecimento do trabalho invisível das cuidadoras familiares. Mulheres cuidadoras reivindicam políticas públicas, entre elas Centros Dia e ILPIs. E o direito ao envelhecimento ativo e participativo.

Cosette, Cofundadora do Coletivo Filhas da Mãe, traz para esse espaço institucional a força de quem transformou dor em ação coletiva política e social. O Coletivo Filhas da Mãe nasceu há quase 06 anos da experiência concreta que milhares de famílias vivenciam e enfrentam: os desafios do cuidado cotidiano de pessoas idosas com diferentes processos de envelhecimento.

Ao dar visibilidade às cuidadoras sem remuneração, o Coletivo denuncia a invisibilidade histórica patriarcal do trabalho de cuidado. Ao mesmo tempo, oferece rede de apoio, informação, acolhimento e atividades de autocuidado.

É um espaço de resistência e de esperança, que mostra que cuidar não é apenas uma tarefa doméstica e de pessoas, mas uma questão social e política central para o futuro do país.

A criação da Política Nacional de Cuidados é um marco civilizatório. Ela reconhece que o cuidado não tem gênero: todos, em diferentes momentos da vida, precisam cuidar e ser cuidados. É uma corresponsabilidade dos homens, da família, das empresas, da sociedade e do Estado.

O direito ao cuidado está imbrincado nos Direitos Humanos e não há um direito sem o outro. Independente da idade, todas as pessoas atravessam fases em que o cuidado é essencial.

Ao colocar essa pauta no centro das políticas públicas, o Brasil dá um passo decisivo para enfrentar hierarquia de gênero, apagamentos, desigualdades. E trilha na construção de uma sociedade mais justa. É o reconhecimento de que o cuidado é tão fundamental quanto saúde, educação ou segurança.

O Comitê Estratégico, agora com representantes da sociedade civil como Cosette, simboliza um modo de governar participativo. Não se trata de decisões tomadas de cima para baixo, mas de instâncias participativas que auxiliam em todo o ciclo da política pública.

Quem vive o cuidado e quem presta cuidado precisa ter voz ativa para assegurar efetividade. Essa participação popular fortalece a democracia e garante que as políticas sejam desenhadas a partir da realidade das famílias brasileiras.

Encerramos 2025 com esperança! Esperança de superar uma sociedade marcada pela violência e pela desigualdade, dando mais um passo para construir uma Sociedade do Cuidado. Uma sociedade em que cuidar é valor, é política pública, é prática cotidiana. O primeiro passo já foi dado com a Política Nacional de Cuidados. Um outro será dado com a efetivação das metas do Plano Nacional de Cuidados.

Cabe a nós, coletivamente, seguir caminhando para que o cuidado seja reconhecido como direito fundamental na Constituição (PEC 14) e como base de um Brasil mais humano e solidário. Cosette é uma das porta-vozes desse futuro.

PS: Quer conhecer mais sobre os próximos passos do Plano Nacional de Cuidados? Assista a entrevista com Luana Pinheiro, do MDS, no Programa Terceiras Intenções (Aqui).

Cosette Castro

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