Quantas raivas acumuladas existem no cuidar?

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Ana Castro &  Cosette Castro

Brasília – Em geral só falamos do amor que sentimos pelos familiares  que cuidamos, idosos e/ou enfermos. Contamos a parte boa da história. Floreamos.

Falamos (e escrevemos) sobre como é lindo cuidar. Mandamos fotos, vídeos e áudios mesmo que no final do dia estejamos exaustas e seja difícil dormir e descansar.

Lemos em jornais, revistas, livros ou na internet que o cuidado é um ato amoroso. Que é uma “obrigação amorosa”.

Escutamos (e repetimos) frases do tipo “quem ama, cuida”. Enquanto isso, sublimamos a dor, a raiva e a vontade de gritar em diferentes momentos do dia.

Isso pode ocorrer enquanto vestimos e carregamos nos braços um familiar doente (em geral maior e mais pesado). Enquanto damos banho e eles tentam fugir do chuveiro. Enquanto tentamos fazer com que comam e não escondam e/ou joguem os remédios fora.

Tentamos nos acostumar a repetir as mesmas frases e dar as mesmas respostas várias vezes ao dia. Como um disco que não para de se repetir continuamente.

A cada minuto engolimos o sentimento de impotência que o cuidado  familiar de pessoas com demências e Alzheimer – a mais conhecida das demências –  pode trazer.

Vestimos a capa e a espada para mais uma maratona diária contra uma doença que não fomos preparadas a enfrentar.

Escondemos o desespero – ainda que ele escape em forma de respostas ríspidas, palavrões ou mesmo gritos proferidos contra familiares mais próximos. E esses familiares nem sempre compreendem porque estamos “tão” agitadas, nervosas ou ansiosas.

Em geral, choramos pelos cantos, escondidas, sem entender direito a tristeza e o desânimo que  vai entrando pelas bordas e nos consumindo aos poucos. Ou sem compreender por que nos atiramos na geladeira em busca de compensações imaginárias (haja comidinhas, chocolates e docinhos!).

Não fomos educadas e  educados para perder a conta gotas nossos familiares enfermos. Um pouco todos os dias, sem despedidas e reconhecimento.

Nem fomos preparadas e preparados para deixar de ser filhas e filhos, esposas, maridos. Netas e netos da noite para o dia.

Não somos só adultos. Dentro de nós há uma criança que fica gritando por atenção. Que manda sinais de dor, medo, tristeza e raiva. Que sente  raiva por não ter como escapar, por não ter para onde fugir. E vive uma imensa solidão que consome parte dos dias.

Essa mistura de emoções  gera culpa (como vamos sentir raiva se “deveríamos ” ser só amor?). Uma culpa que muitas vezes jogamos pra debaixo do tapete sem entender essa montanha russa de sentimentos.

A questão não é sentir ou deixar de sentir raiva. Mas, sim, como lidamos com esse sentimento. E é aqui que entra o autocuidado.

Uma forma de autocuidado possível é buscar ajuda para entender essas emoções,  buscar se conhecer melhor e tentar lidar melhor com elas, sem transbordar ou se desesperar. Isso pode ser feito conversando semanalmente com profissionais especializados na escuta.

Pode ser feito encontrando um espaço para falar e ser acolhida, ainda que isso ocorra de forma on-line em tempos de pandemia. Pode ser feito também de forma coletiva  em grupos de apoio, rodas de cuidado e autocuidado e de forma mais profunda, em análise em grupo.

PS: caso você não possa pagar um profissional especializado, o SUS oferece equipes profissionais e terapias integrativas que contribuem para a saúde mental.

PS 2: é  recomendável também que você faça exercícios físicos regularmente, o que ajuda a circular a energia.

PS3: já pensou também na raiva e no medo acumulado pela falta de vacinas, hospitais e leitos?

Cosette Castro

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