Além de terreno, emprego e reportagens, Luiz Estevão ofereceu apoio político para corromper agentes

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Além de oferecer terreno, emprego e reportagens jornalísticas a agentes penitenciários, o ex-senador Luiz Estevão também negociou apoio político dentro da Papuda, em troca de benefícios no sistema penitenciário. Um dos objetivos dos agentes acusados, segundo o Ministério Público do Distrito Federal, seria angariar recursos e apoio político para uma eventual candidatura de Leandro Allan Vieira, presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Distrito Federal, a um cargo eletivo.

Em 2014, o presidente da entidade já havia disputado a eleição para deputado distrital pelo PTC, mas, com 4,1 mil votos, ficou apenas como suplente. Luiz Estevão comanda o PRTB no DF e, em 2014, bancou a campanha de dezenas de políticos. Conseguiu eleger, à época, dois representantes para a Câmara Legislativa. Mas, desde então, o partido perdeu força no Distrito Federal.

O Ministério Público aponta que os diretores do Centro de Detenção Provisória prevaricaram e deixaram de dar andamento a procedimentos contra Luiz Estevão também por questões políticas. Diogo Ernesto e Vítor Espíndola, denunciados com o ex-senador, foram os primeiros agentes penitenciários a chegar ao comando da unidade prisional. A cúpula, até então, era tradicionalmente composta por policiais civis e delegados.

O MP indica que eles “não queriam experimentar enfrentamentos com o denunciado Luiz Estevão de Oliveira Neto, cuja força política evidenciava-se não apenas pelo fato de ter sido o responsável pela construção do bloco prisional que habitava, como pelas visitas de políticos e pelas reuniões mantidas com o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários, responsável pela indicação dos ocupantes da direção do CDP”.

Leandro Allan, do Sindicato dos Agentes Penitenciários, havia sido indiciado pela Polícia Civil, mas não foi denunciado pelo Ministério Público do DF. Não é, portanto, réu na ação que envolve Luiz Estevão. “A defesa comemorou muito o fato de ele não ter sido denunciado, é o triunfo da verdade. O Leandro Allan não tem nenhuma relação com o ex-senador Luiz Estevão, nem cometeu qualquer irregularidade”, afirma o advogado Antônio Rodrigo Machado, que representa o presidente do sindicato. “Ele foi vítima de uma acusação falsa, por conta de embates que travou, como presidente do sindicato, com autoridades do sistema penitenciário”, acrescenta o advogado.

Sequestrador

Para tentar evitar a aplicação de punições ao ex-senador, os ex-dirigente do CDP mentiam aos superiores. Em depoimento prestado como testemunha, o então subsecretário do Sistema Penitenciário, Anderson Espíndola, revelou que, após a determinação para a transferência de Luiz Estevão para o isolamento, o então vice-diretor do CDP, Vítor Espíndola, tentou articular para manter o empresário em sua cela, na área da Papuda onde tinha privilégios garantidos. A justificativa citada por Vítor Espíndola foi de que Osmarinho Cardoso da Silva Filho, condenado pelo sequestro da filha de Estevão, estaria na mesma ala e, após a transferência, teria entrado em confronto com o empresário.

Segundo o relato de Vítor Espíndola, ao voltar do trabalho externo, Osmarinho teria comido a quentinha de Luiz Estevão, “o que teria gerado uma discussão entre os presos”. Com base nesse episódio, o vice-diretor do CDP defendeu que o ex-senador voltasse à cela anterior, na Ala B, e deixasse o isolamento.

Depois de ouvir esse relato, Anderson Espíndola procurou a Vara de Execuções Penais. A juíza titular da vara, Leila Cury, foi ao Centro de Detenção Provisória para uma inspeção e, em conversa com o preso Luiz Estevão, o questionou acerca da suposta briga com Osmarinho. O ex-senador relatou à magistrada não ter nem sequer ciência de que o sequestrador de sua filha estava na mesma ala. “Isso demonstrou ao depoente (Anderson Espíndola) que a direção daquela unidade estava, mais uma vez, tentando fazer com que o interno em apreço (Estevão) retornasse à cela de origem”, diz um trecho da denúncia do Ministério Público.

Ex-tenente da Polícia Militar, Osmarinho foi condenado a 22 anos de prisão pelo sequestro de uma das filhas de Luiz Estevão, Cleucy Meirelles. O crime aconteceu em setembro de 1997. A presença do ex-PM na Ala C da Papuda foi, à época, uma das alegações da defesa de Estevão para evitar o isolamento preventivo do empresário. O parlamentar cassado recebeu punições depois da constatação de que tinha regalias dentro da Papuda.

O advogado Antônio Rodrigo Machado, que representa Diogo Ernesto e Vítor Espíndola, diz que os agentes penitenciários serão absolvidos ao fim da ação penal. “Vai ficar comprovado que eles sempre agiram buscando primar pela defesa do interesse público, sem qualquer tipo de prevaricação”.

Helena Mader

Repórter do Correio desde 2004. Estudou jornalismo na UnB e na Université Stendhal Grenoble III, na França, e tem especialização em Novas Mídias pelo Uniceub.

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