Datacracia, os olhos do grande irmão

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ARI CUNHA

Visto, lido e ouvido

Desde 1960

com Circe Cunha e Mamfil

colunadoaricunha@gmail.com;

Charge: ambientelegal.com.br
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         Especialistas e pesquisadores de todo o planeta e do Brasil, que ultimamente vêm analisando as possibilidades geradas pelo advento do mundo digital na organização das sociedades, vislumbram, por detrás do enorme sinal de interrogação que vai escondendo a realidade atual, a possibilidade de o mundo atual estar caminhando, a passos largos, ao encontro do Grande Irmão onisciente, conforme delineou George Orwell no romance 1984.

         Para países dominados ainda por um fortíssimo e antigo sistema burocrático, como é o nosso caso, comandado pelo Estado, com o auxílio de cartórios e outras instâncias que sobrevivem justamente da complicação nos trâmites de documentos e processos, a possibilidade de estarmos rumando em direção à uma nova e inusitada forma de governo do tipo Datacracia parece cada vez mais real e inexorável.

         A transformação paulatina da gestão pública em algo tecnocrático, impessoal e dominado por nova burocracia digital, ao dificultar o acesso direto dos cidadãos aos responsáveis pelo governo, poderá retirar dos gestores públicos a responsabilidade por suas ações. Nesse caso, as responsabilidades por qualquer ato lesivo ao cidadão, decorrente da labiríntica burocracia, poderão caber unicamente ao “sistema”, ou seja, a um “ser” virtual, impossível de ser levado fisicamente aos tribunais.

         Para um país como o Brasil, atalhado por uma burocracia endêmica, herdada ainda da fase colonial, as ameaças desse processo de digitalização são ainda maiores e mais preocupantes do que em outras partes do mundo. O antropólogo francês Lévi-Strauss costumava dizer que o Brasil era um caso único de país que passou diretamente da barbárie à decadência, sem conhecer a civilização.

          No nosso caso, apanhados de surpresa por um mundo em processo rápido de informatização digital, corremos o risco de adentrarmos, totalmente despreparados, numa nova era, comandada por programas de computadores, sem antes termos resolvidos o problema histórico da burocracia onerosa. E para não renunciarmos nem uma coisa, nem outra, ao invés de eliminarmos, pura e simplesmente todo e qualquer traço de burocracia, vamos em busca de digitalizar a burocracia existente, dano nova vida e nova dinâmica aos diversos cartórios. Com isso, estamos turbinando uma atividade predadora que já deveríamos ter eliminado há muito tempo, dando nova vida a um sistema parasitário que se beneficia há séculos do descaso do Estado, de quem é sócio na criação de dificuldades e na venda de facilidades.

      A datacracia, que seria um governo comandado das profundezas do oceano digital, aliada aos traços, já conhecidos de casos sequenciais de corrupção avassaladora, poderia produzir entre nós uma espécie de Frankenstein tão sui generis com extremo perigo para os cidadãos.

         Aliás, o próprio status de cidadão com todos os seus direitos e deveres, conforme conhecemos hoje, deixaria de existir, substituído por um código sequencial de algoritmos, só inteligível por máquinas sofisticadas, instaladas nas nuvens distantes. Nesse caso, nada, nem as leis, de nada serviria.

A frase que foi pronunciada:

“Num tempo de engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário.”

George Orwell

Charge: anf.org.br
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Chão batido

Em 1969, a campanha em Brasília era para que cada morador contribuísse com o jardim da quadra. Hoje não aparece um deputado distrital com a ideia de transformar em lei a obrigatoriedade de cada quadra, cada condomínio ter uma horta e um pomar. Pelo contrário. Quando os moradores se reúnem para uma iniciativa como essa, aparece um síndico como o da 216 norte e cimenta tudo.

Foto: xapuri.info
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Absurdo

Cidade administrativa, Brasília é movimentada por concursos públicos. As bibliotecas da cidade são uma vergonha. Estacionamentos sem segurança, furtos dentro das próprias salas de estudo são comuns. A biblioteca da UnB, a mais procurada, continua fechada.

Foto: crb1.org.br (Felipe Menezes)
Foto: crb1.org.br

Xô

Por falar nisso, os alunos do “Baixo IRA” (Índice de Rendimento Acadêmico) da UnB, que gostam de paralisações, levaram um susto no Departamento de Agronomia. Foram escorraçados de lá pelos estudantes do “Alto IRA” que estão ali para estudar.

Foto: facebook.com/studentsforlibertybrasil
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Que bom

No Mangai do Shopping ID, turistas saíam com altos elogios ao atendimento da Érica e do Rafael.

Foto: ryqueza.com.br
Foto: ryqueza.com.br

SMLN

Região com o valor do IPTU altíssimo não tem retorno pelo alto preço dos serviços. A água chega com a cor de lama, e a energia desaparece no meio da tarde sem qualquer explicação. Verificar se há descontos nas contas pelo ocorrido é perda de tempo.

HISTÓRIA DE BRASÍLIA

Caixa Econômica o que, Pedro. O dr. Felinto foi da Casa da Moeda! Corrija, Arnaldo, por favor. Saiu toda errada, a notícia de ontem. Não precisa repetir. (Publicado em 20.10.1961)

Correndo atrás da sombra

Publicado em ABERTURA
Mau agouro antigo vaticinava que alguns países estariam condenados a passar direto do estágio evolutivo da barbárie à decadência, sem contudo, experimentar os frutos intermediários e saborosos da civilização. Tal parece ser o destino do Brasil. Depois de adiar sine die momento em que finalmente integraria o seleto grupo de países desenvolvidos — eis que o Cristo, redentor de nossas eternas mazelas, arremete violentamente contra o solo.
O “Brazil’s fall”, retratado na capa da primeira edição de 2016 da prestigiosa revista britânica The Economist, mostra que o país, sede das Olimpíadas, terá desastroso ano pela frente. Como o magazine é fonte de consulta obrigatória para investidores de todas os matizes, a internacionalização das nossas agruras internas ganha o mundo em manchetes, expondo a nu um governo que é a cara dos efeitos que desencadeou.
Analisada de forma sucinta, a crise é o governo em si, com nome e sobrenome e não qualquer outro fator exógeno relevante, como certamente usarão para culpar a China. O desmonte, na undécima hora, de experimentos como o Programa de Sustentação de Investimentos (PSI), contidos na cartilha bolivariana da nova matriz macroeconômica, deixa claro que despejar R$ 362 bilhões do BNDES para os campeões de produtividade não foi bom negócio para o país. O que restou da chamada bolsa empresário foi passivo de R$ 214 bilhões, que entrará no livro de contabilidade da União como dívida pública a ser paga, obviamente, pelo contribuinte.
Dentro da peculiar lógica petista de lidar com as teses do capitalismo, a retroalimentação da crise, com mais e mais endividamento, terá desdobramentos tão inusitados, que não será surpresa se o país regredir décadas. Exemplo desse modelo em que quase 600 mil investidores remuneram suas aplicações à custa do endividamento público é o Tesouro Direto.
Na prática, o que ocorre é aposta na crise. O indicador de rentabilidade desse papel é dado pelo nível de endividamento do governo. Quanto maior a dívida, maior o lucro dos investidores. Com matemática desse nível, não é por acaso que adornamos, pelos motivos errados, as capas dos principais noticiários do planeta.
Correndo atrás da sombra que se alonga à medida que o ocaso de nossa economia se evidencia, o governo, em vez prestigiar os ajustes e correções apontadas por um Levy bem avaliado mundo afora, opta por um Barbosa, que tem no currículo a paternidade da crise. Governos e chefes medíocres querem gente competente bem longe.
Buscando minorar os efeitos da crise pelo lado errado, o governo aumentou de R$ 6,7 bilhões para R$ 7,2 bilhões as verbas destinadas a emendas partidárias, no melhor estilo molhando as mãos de seus pretensos avalistas. No mesmo sentido, Dilma Rousseff aumentou de R$ 289 milhões para R$ 867,5 milhões o valor destinado ao Fundo Partidário. O mensalinho oficial tem finalidade que, se não atende ao reclame republicano, ao menos abre perspectiva de remissão dos pecados do governo, no mesmo molde das antigas indulgências concedidas pela igreja.
De qualquer forma, o fogo do impeachment, que há a meses vem fritando o governo pelas beiradas, já deixou sinais indeléveis, marcando-o com a cicatriz do pior da história, por qualquer lado que se analise. Isso não é pouco. Nem tudo. Vem muito mais por aí.