
CIArce
VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Há um ponto em que a imprensa internacional que acompanha o Brasil parece unânime: o que começou, em novembro de 2025, como a liquidação de um banco médio de varejo de crédito consignado e CDBs com juros acima do mercado deixou de ser, há meses, uma história sobre finanças. Tornou-se, nas palavras recorrentes de correspondentes e editorialistas estrangeiros, um teste de estresse sobre as instituições que sustentaram a democracia brasileira desde a tentativa de golpe de 2022 ,a começar pelo próprio Supremo Tribunal Federal. A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, é tratada por agências e jornais como Reuters, Bloomberg e Financial Times como o ponto de partida daquilo que boa parte da cobertura já descreve como o maior escândalo de fraude bancária da história do país, e o mais significativo escândalo de corrupção desde a Operação Lava Jato.
Publicado pela coluna em 2017: Proposta pede concurso público para ministros do STF e TCU
Às vésperas das eleições
A Bloomberg, em reportagem assinada por Rachel Gamarski, Matheus Piovesana, Martha Beck e Andrew Rosati, reconstitui a trajetória do banqueiro Daniel Vorcaro e descreve como o chamado “caso Master” devolveu a corrupção ao topo das preocupações do eleitorado brasileiro às vésperas da eleição presidencial de outubro de 2026. A agência nota que o desfecho do escândalo, hoje estimado por analistas em cerca de US$ 10 bilhões em rombo e ressarcimentos, deverá pesar diretamente sobre quem vier a governar a maior economia da América Latina. Escritórios internacionais de advocacia que assessoram investidores, como Covington & Burling e Steptoe, chegaram a conclusões semelhantes em notas técnicas voltadas a clientes estrangeiros: ambas tratam o caso como um evento de risco institucional que já alterou o desenho da corrida eleitoral, ao mesmo tempo em que fragiliza a reputação regulatória do Banco Central e cria, segundo a Steptoe, “um novo patamar de risco institucional” para quem investe no país
Em 2019 era assim: O STF e a opinião pública interna e externa
Redes de relações
O fio que essas análises seguem é o mesmo: a fraude bancária, sustentada por títulos com prêmios muito acima da média de mercado e por uma expansão agressiva via fundos de pensão estaduais e municipais, não ficou circunscrita ao sistema financeiro. Investigações da Polícia Federal, a partir de dados extraídos dos celulares de Vorcaro, passaram a expor uma rede de relações entre o banqueiro e autoridades públicas — parlamentares, ex-presidentes, reguladores e, no centro da crise mais recente, ministros do próprio Supremo Tribunal Federal. A revista britânica The Economist resumiu o cerne do problema em um editorial, cuja manchete :“Quando os defensores da democracia viram as costas para ela”, foi amplamente replicada pela imprensa brasileira: os mesmos juízes que, segundo a publicação, protegeram o Brasil do golpismo em 2022 e 2023 aparecem agora sob suspeita de terem se beneficiado, por vias indiretas, do dinheiro do banco que colapsou.
Manobras vernaculares e o desrespeito ao cidadão brasileiro. Um julgamento que não aconteceu.
Envolvimento de autoridades no caso Banco Master
O episódio mais citado pela imprensa estrangeira é o confronto aberto entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. O Financial Times descreve como o levantamento do sigilo do relatório da Polícia Federal, determinado por Mendonça, relator do caso no Supremo, trouxe à tona registros de ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro entre 2024 e 2025, além de um contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. Segundo o jornal britânico, Moraes reagiu acusando Mendonça de abuso de poder e de tomar decisões motivadas por cálculo político; a publicação nota que Mendonça foi indicado à Corte por Bolsonaro, o que adiciona uma camada partidária à disputa entre os dois magistrados. Para o cientista político Leandro Consentino, ouvido pelo FT, trata-se de “uma crise institucional com potencial para pesar na decisão do eleitor” — avaliação que resume o tom com que a imprensa internacional passou a tratar o STF: não mais como árbitro acima da disputa, mas como parte interessada nela.
Em 2020 dissemos: Reformar o STF é evitar crises futuras
O impacto da crise do Banco Master no futuro do STF
Essa mudança de enquadramento é o que mais chama atenção em quem lê a cobertura estrangeira de fora para dentro. Até o início de 2026, artigos em veículos como o próprio Financial Times e a Bloomberg tratavam o Supremo como o contrapeso que resistiu às tentativas de ruptura institucional. A partir de março quand,o o presidente da Corte, Edson Fachin, declarou publicamente que as apurações sobre o Master iriam “até o fim, doa a quem doer”, numa referência direta a colegas de toga , essa narrativa começou a se inverter. Boletins voltados a investidores, como o da Rio Times, descreveram as sessões deliberativas do STF como “o primeiro teste totalmente público da coesão da Corte” desde que o sigilo do processo principal foi levantado. A publicação resume o ponto central para o leitor estrangeiro: não se trata mais de um escândalo bancário, mas de um teste de resistência da instituição que ancorou a democracia brasileira ,agora acusada da mesma opacidade que deveria fiscalizar, a semanas de uma eleição presidencial.
FGC e o Sistema bancário
Outro eixo recorrente na cobertura estrangeira é o regulatório. Análises voltadas a investidores insistem que o caso Master expôs uma falha sistêmica de supervisão bancária: o próprio Vorcaro, em depoimento à Justiça noticiado pelo Valor Econômico e replicado por veículos internacionais, afirmou que técnicos do Banco Central revisavam informalmente documentos do banco antes de sua submissão oficial ao regulador, alegação que, se confirmada, sugeriria uma captura regulatória mais profunda do que se supunha. Publicações como a Rio Times observam que reguladores de toda a América Latina acompanham o caso de perto, na medida em que ele demonstra como uma licença bancária somada a um canal de distribuição digital agressivo pode escalar uma estrutura fraudulenta a proporções nacionais mais rápido do que os ciclos de supervisão conseguem reagir. O Fundo Garantidor de Créditos já desembolsou mais de R$ 37 bilhões a cerca de 1,6 milhão de credores, o maior pagamento da história do fundo , e o banco público BRB, que tentara adquirir o Master antes da liquidação, precisou provisionar quase R$ 9 bilhões em perdas.
Eleger isso?
A dimensão eleitoral é tratada pela imprensa internacional como inseparável da crise institucional. Reportagens da Steptoe e da Bloomberg apontam que o escândalo atingiu, em graus distintos, praticamente todo o espectro político recente do país: documentou-se um fluxo de cerca de R$ 65 milhões em contratos e repasses do banco para nomes ligados aos governos Lula, Temer e Bolsonaro. Ainda assim, o efeito eleitoral não tem sido simétrico. Sondagens citadas por analistas estrangeiros mostram candidaturas de oposição e da base governista sentindo o desgaste da associação entre aliados e o esquema do Master. Ao mesmo tempo, analistas alertam que o desgaste institucional do STF, a corte que também julgará eventuais contestações ao resultado das urnas em outubro, pode se voltar contra o establishment político como um todo, independentemente de quem vença a disputa pelo Palácio do Planalto.
Sugestão de leitura: O Deserto da República
Futuro das instituições
O retrato que emerge dessa cobertura, lida em conjunto, não é o de um golpe de Estado em curso, tampouco o de uma crise passageira de índole puramente financeira. É antes o de uma erosão de confiança que atinge simultaneamente três pilares, o sistema bancário, o Congresso e o Judiciário ,no momento mais sensível do calendário político brasileiro. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pediu “verdade sem manipulação” e “justice sem privilégios”; ex-ministros aposentados do próprio Supremo teriam pedido a Fachin que convocasse o plenário para deliberar publicamente sobre o caso. Para a imprensa internacional, esse é talvez o dado mais preocupante: um tribunal que se acostumou, nos últimos anos, a atuar como guardião de última instância da estabilidade democrática brasileira agora precisa provar, sob os olhos do mundo, que consegue investigar a si mesmo sem se fragmentar , e sem que o processo seja lido, pelos eleitores, como mais uma etapa da disputa partidária.
Dimensão eleitoral
Se há um consenso possível entre analistas tão distintos quanto os colunistas do Financial Times, os editorialistas da The Economist e os advogados de bancas internacionais que assessoram fundos estrangeiros, é o de que o caso Banco Master deixou de ser um problema exclusivamente brasileiro para se tornar um estudo de caso sobre os limites da autorregulação institucional em democracias sob pressão. O desfecho dos inquéritos abertos pela Polícia Federal e o resultado da eleição de outubro dirão se as instituições brasileiras, Banco Central, Congresso, Judiciário, conseguirão, enfim, aplicar a si mesmas o mesmo padrão de escrutínio que a imprensa internacional já lhes aplica há meses.
A frase que foi pronunciada
Ministro Gilmar Mendes
História de Brasília
O sr. Sebastião de Almeida Prado Sampaio, presidente da Associação Médica Brasileira escreveu ao dr. Fábio Rabelo, e, sobre o Plano Hospitalar, disse isto: “Esse Plano representa a solução para o problema médico em nosso meio, realizando a comunidade de serviços, baseado no município”. ( Publicada em 26.05.1962)

