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Circe Cunha e MAMFIL
No fim do ano passado, quando o diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa), Paulo Salles, declarou que a população precisava rezar para chover, estavam aparentemente lançadas, segundo seu entendimento técnico, todas as condições necessárias para que os reservatórios que abastecem a capital com água tratada voltassem aos níveis normais, evitando, assim, que o racionamento rigoroso fosse decretado pelas autoridades.
Fosse simples assim, bastaria entregar a pasta a algum padre ou pastor, que a situação estava resolvida. Bastaria a população sair em procissão pelas ruas, com velas, entoando cantos religiosos ou quem sabe por meio da convocação de povos indígenas para a realização de antigos rituais invocando as águas do céu.
Não querendo entrar no mérito da eficácia desses métodos, que têm explicação no plano da metafísica, o problema diz respeito à confluência de um complexo conjunto de causas, muito humanas, que remontam à história recente de Brasília e do Entorno. Anteriormente, as desculpas se resumiam a atribuir aos imponderáveis caprichos da natureza pela falta de água. Rezar é bom e alivia a alma, que não necessita desse tipo de água para viver. A fonte da vida é outra.
Obviamente, não cabem à Adasa, da qual a população desconhece a existência, todas as responsabilidades pela escassez de água. A parte que lhe diz respeito diretamente vem exatamente do aparelhamento político imposto pelos governos passados, das agências reguladoras, com a substituição de técnicos especializados e renomados, por apadrinhados políticos, sem qualificação específica para a função. Numa escala de responsabilidades, cabe, primeiramente, à classe política os infortúnios vividos pela população. A transformação das terras do DF em moeda de troca política permitiu que imensas áreas, muitas, comprovadamente de proteção ambiental, com importantes nascentes, está em uma das raízes do problema.
Com a farra dos loteamentos irregulares, construídos da noite para o dia, veio o inchaço populacional desordenado. Uma vez estabelecidas, as invasões eram imediatamente equipadas com redes de água e luz, mesmo antes de qualquer planejamento urbano técnico , consolidando o problema e empurrando a solução para um futuro que, agora vemos, chegou com a conta nas mãos.
A falta de planejamento de longo prazo e de uma política permanente de educação sobre o uso correto desses recursos finitos vem em seguida. A transformação do cerrado em extensas áreas de monocultura para a exportação, com a destruição da vegetação nativa, ao destruir o ecossistema da região, considerado o berço das águas, fez o resto.
É importante observar que, ao longo da história da humanidade, nenhuma civilização foi capaz de prosperar e mesmo sobreviver sem os recursos hídricos necessários e essenciais. Muitas cidades importantes na antiguidade simplesmente foram deixadas para trás, quando a água secou. O exemplo permanece. Portanto, debitar nas contas, já volumosas de Deus e da administração celeste, as causas pelo esgotamento hídrico, não convence, mesmo aos mais crédulos.
A frase que foi pronunciada:
“Esse estádio monstrengo é a prova de que nunca faltou dinheiro para atender pacientes com dignidade nos hospitais públicos. Faltou mesmo foi sensibilidade e humanismo.”
Paciente na emergência do Hran
Notas
» Sob o argumento de superlotação, o Hospital do Paranoá suspendeu, temporariamente, o atendimento a todos os pacientes que procuram a unidade. Essa situação inusitada revela e expõe a falência da estrutura de saúde no DF. Já o Hran, na madrugada de ontem, tinha enfermeiras e médicos de plantão. Só que o atendimento na emergência só começou na troca de turno.
SOS nojo
» Por falar em Hran, no orelhão do PS perto da chefia de enfermagem, havia uma cadeira onde alguém com diarreia sentou. Com a espuma alta, cada um que sentava ali, para amenizar a exaustão da espera, levantava com a surpresa desagradável.
Vermelho
» Não é de hoje que pacientes que necessitam de atendimento de urgência, em todo o DF, só têm acesso ao interior dos hospitais e, portanto, aos cuidados médicos, se derem entrada nos estabelecimentos, deitados em macas e transportados pelas unidades dos Bombeiros e das ambulâncias, de preferência prontos para morrer.
Ver para crer
» E mesmo quem dá entrada é atendido de forma precária. Sem limpeza, sem lençóis, sem a menor dignidade. E justiça seja feita: falta dignidade para os pacientes e para os que optam por trabalhar sem o mínimo básico necessário para exercer a profissão. Os médicos enfermeiras, técnicos, que batem ponto e trabalham, merecem todo o respeito da população. O governador Rollemberg poderia ir a qualquer hospital público de madrugada disfarçado, sem estafe. Alguma coisa mudaria.
Realidade
» Devido a carências no setor, as brigadas do Corpo de Bombeiros foram transformadas em serviço de atendimento de emergência de saúde, transportando pacientes de todo o DF para os hospitais depois de um atendimento preliminar. São heróis que também lutam com condições que poderiam ser melhores.
História de Brasília
Como não há exceção, caiu o decreto das corridas de cavalo, e as determinações sobre o uso de carros oficiais foram desrespeitadas, mas nessa mesma edição há uma carta do chefe da Casa Militar da Presidência, general Amaury Kruel, a respeito. (Publicado em 21/9/1961)
VISTO, LIDO E OUVIDO – ARI CUNHA com Circe Cunha colabora MAMFIL
Desde 1960
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com Circe Cunha // circecunha.df@dabr.com.br
Ovo não fecundado
Com a forte rejeição ao nome e ao partido, divulgada por recente pesquisa, o lulismo caminha trôpego para o colapso final. O símbolo da sigla partidária, representada pela estrela vermelha solitária, numa referência a seu único nome de peso, amarga um entardecer melancólico.
Aquele tempo do agitar as bandeiras sem pensar em pagamento se foi. Até artistas se envergonham de ter bradado por um Brasil que seria diferente. Irene Ravache declara que o PT foi a maior decepção da vida dela, e Regina Duarte permanece na elegância de quem sempre soube das coisas.
Com a saída de Lula, dono da bola e do campo petista, o jogo para a legenda murchou. A ideia de refundação do partido, levantada em outras ocasiões, permanece de pé. O brasileiro já sabe que isso não vai resolver. Quantos nomes teve a LBA? O rótulo nunca muda o conteúdo.
Refundado ou não, resta ao PT colher os frutos de sua lavoura nesses 13 anos. À medida que as investigações vão cavando e revelando os cadáveres escondidos, aumenta também, na mesma proporção, o fosso que separa o partido e seu dirigente da sociedade brasileira. Se vencer a tese da refundação, o único caminho razoável será extirpar da sigla toda a antiga direção, inclusive o próprio Lula.
Aliás, qualquer refundação pra valer terá de que ser feita com gente nova. O estatuto do partido, que até aqui tem dado total proteção para acusados e condenados pela Justiça, terá que ser reescrito. Dada a pouca chance desses fatos ocorrerem, fica a impressão de que ou não haverá refundação ou a sigla rachará, a exemplo do que ocorreu com o brizolismo e a sigla do PTB, ocasionando o nascimento do PDT.
Desacreditado e com discurso esvaziado, restará ao PT se conformar com a nova estatura de anão político. A outra saída será se unir ao PSol e ao PCdoB, formando esquerda tipo maionese, onde ideários copiados do bolivarismo venezuelano, vãose misturar à nostalgia cubana dos anos 1960, com pitadas do Foro de São Paulo, num sarapatel requentado e até mesmo hilário. A foice deixou de eliminar a corrupção, o martelo bateu no dedo, a estrela é lixo celestial e o picareta, em alusão ao dono da bola, serão fundidos. Dessa amálgama nascerá um ovo. Um ovo choco.
A frase que não foi pronunciada
“Uma democracia sem corrupção é reconhecida pela coragem da oposição.”
Livro imaginário Antes do inteiro 13 e depois do partido 13
No tribunal
Em um caso em que a lei deixou escapar a previsão, o advogado perguntou ao juiz de onde ele tirou a ideia, onde estava escrita. Sabiamente, fazendo o papel que lhe cabe, o juiz respondeu: “No bom senso”.
Segurança
Um cargo na diretoria de sindicatos rende 72 meses de emprego garantido. Ninguém vai demitir sem justa causa e ressarcir essa enormidade de tempo.
Trabalho
Fiscais do Trabalho precisam sair no horário de almoço para dar uma volta no Senado, na Câmara e nos ministérios. Os terceirizados que cuidam da limpeza não têm onde descansar. Almoçam sentados no meio-fio, deitam-se na grama ou em calçadas. As condições de descanso nos intervalos precisam melhorar.
Memorável
Quem comentou sobre o encontro com Claudio Coletti foi Helival Rios. Estava realmente emocionado quando voltou ao túnel do tempo e viu como foi a participação de toda a turma para a imprensa brasileira.
Legis
Pegando carona nas leis, a Editora Saraiva está legislando. O Vade Mecum volta e meia apresenta algumas correções incabíveis ou omissões inadmissíveis.
Saída
Para o governo Rollemberg, a situação é insustentável. A saída foi inteligente. Para espaços públicos como a Torre de TV, parques e zoológicos, entre outros, a solução será a parceria com empresas privadas.
De graça
Inspirada na tragédia Otelo, de Shakespeare, a Cia. Face e Carretos Alegre (RS) traz a temática do ciúme manipulado pela inveja e, com ela, constrói drama fantástico, em tom surrealista na peça O monstro dos olhos verdes, ou por quem morrem as pombas? Amanhã e quinta-feira, às 20h, no Teatro Plínio Marcos.
História de Brasília
Observância ao Plano Piloto. Na W3 há diversas oficinas, principalmente de automóveis (Folks, DKW, Willys) tudo isso irregular. No Setor Escolar há uma estação de rádio. Em frente à Novacap, residências são transformadas em casas de comércio, e os cartórios dão mau exemplo. No SCL, a área de trânsito público é ocupada por bares, com mesas ao ar livre. (Publicado em 17/9/1961)

