
Juiz Ricardo Tadeu da Fonseca
Há coincidências que o calendário produz por acaso e que a consciência transforma em sentido. O dia 15 de outubro é uma delas. No Brasil, celebra-se o Dia do Professor. No plano internacional, a data é dedicada à bengala branca. Esse objeto simboliza a autonomia das pessoas cegas e com baixa visão. Nenhum decreto uniu as duas celebrações. Contudo, a vida aproximou ambas de forma natural. De um lado, está quem ensina a ler o mundo. Do outro, quem aprende a ler o mundo com os dedos e de outras maneiras. Entre os dois universos, surge uma pergunta que precisamos fazer com calma: o que significa, afinal, enxergar?
VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha
(In memoriam) no Correio Braziliense
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Invenção do Braille e a transformação da escrita tátil
A resposta começa na históLer o mundo com os dedos e com o coração no ensino inclusivo
Há coincidências que o calendário produz por acaso e que a consciência transforma em sentido. O dia 15 de outubro é uma delas. No Brasil, celebra-se o Dia do Professor. No plano internacional, a data é dedicada à bengala branca. Esse objeto simboliza a autonomia das pessoas cegas e com baixa visão. Nenhum decreto uniu as duas celebrações. Contudo, a vida aproximou ambas de forma natural. De um lado, está quem ensina a ler o mundo. Do outro, quem aprende a ler o mundo com os dedos e de outras maneiras. Entre os dois universos, surge uma pergunta que precisamos fazer com calma: o que significa, afinal, enxergar?
Invenção do Braille e a arte de ler o mundo com os dedos
A resposta começa na história do sistema Braille. Em 1824, um adolescente de quinze anos, Louis Braille, cego desde a infância, reduziu o alfabeto a seis pontos em relevo. Dessa forma, abriu uma porta que séculos de exclusão mantiveram fechada. O gesto reúne aspectos científicos, artísticos e pedagógicos. Exigiu rigor científico na criação do código. Ademais, demonstrou arte ao transformar o toque em escrita e os dedos em olhos. Do mesmo modo, revelou dimensão pedagógica. Braille não guardou a invenção para si. O jovem tornou-se professor na mesma instituição que o formara, ajudando outros a ler o mundo com os dedos e a atravessar a ponte que construíra.
No Brasil, essa travessia ganhou rosto institucional no Instituto Benjamin Constant, fundado no Rio de Janeiro em 1854. Ali, gerações de estudantes aprenderam que a cegueira não significa ausência de inteligência, de imaginação ou de futuro.
Papel fundamental do professor na construção de significados
Nesse ponto, as duas datas se tocam profundamente. Ensinar nunca significou apenas transmitir conteúdo estático. Pelo contrário, exige criar pontes entre quem sabe e quem ainda vai compreender. O professor trabalha constantemente com o invisível. Ele enxerga a dúvida não dita, o talento oculto e o sentido que surge após anos. Como abordamos em nossa análise sobre o que as escolas deixaram de ensinar, a formação humana deve prevalecer sobre qualquer projeto ideológico.
Por sua vez, o leitor que busca ler o mundo com os dedos trabalha com o que os olhos não alcançam. Ele descobre que a leitura representa, antes de tudo, atribuição de significado. Ler não é apenas reconhecer formas. Trata-se de construir compreensão. Nesse sentido, todo bom mestre ensina a tatear, a desconfiar das aparências e a buscar o essencial por trás da superfície.
Exemplo histórico de Anne Sullivan e Helen Keller
A história de Anne Sullivan e Helen Keller traz uma lição inesquecível. Helen aprendeu a reconhecer a palavra água quando a professora soletrou a palavra em sua mão sob o jorro de uma bomba. Essa cena permanece como a mais conhecida dessa pedagogia do toque.
O episódio permitiu que um vínculo humano profundo florescesse além da técnica. Havia alguém do outro lado insistindo em compreender o mundo. Essa experiência demonstra que o método importa, mas a presença faz ainda mais diferença. Antes de ensinar conteúdos, o professor ensina ao aluno que ele merece atenção, seja lendo com os olhos, com os dedos ou com os ouvidos.
Sensibilidade artística e a ampliação dos sentidos na educação
A arte conhece bem esse território de percepções. As mãos podem compreender perfeitamente uma escultura. Uma melodia desenha paisagens sem utilizar uma única imagem. Da mesma forma, um poema acende cenas que retina nenhuma registrou.
Museus com réplicas táteis, teatros com audiodescrição e livros acessíveis mostram que a sensibilidade não depende de um único sentido. A educação verdadeiramente humana faz o mesmo. Ela forma o olhar, a escuta, o tato, a memória e o afeto. Existe uma leitura do mundo feita com o coração. Essa sensibilidade impede que o conhecimento se torne frio e desumano. Como lembrou Antoine de Saint-Exupéry, o essencial exige ser sentido além da visão.
“O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração.” — Antoine de Saint-Exupéry
Percepção da invisibilidade e a capacidade de ler o mundo com os dedos
Existe também uma cegueira que nada tem a ver com a visão física. Trata-se da atitude de quem olha, mas não percebe o entorno. Em toda escola existem alunos invisíveis que não perguntam e se escondem no fundo da sala. Nas cidades, muitas pessoas passam despercebidas por não caberem nos padrões urbanos tradicionais.
A grande lição do Dia dos Cegos indica que ver não garante perceber. Por sua vez, o Dia do Professor lembra que educar significa aprender a enxergar quem ainda não recebeu atenção. O verdadeiro mestre vê pessoas reais diante de si, em vez de encarar apenas uma fileira de rostos.
Avanço tecnológico e os desafios da acessibilidade digital
Vivemos um tempo de transformações profundas no qual essas datas ganham urgência. Recursos de inteligência artificial que descrevem imagens, leitores de tela e impressoras Braille ampliaram possibilidades antes impensáveis. No entanto, o mundo atual está saturado de telas e interfaces pensadas apenas para quem enxerga.
A tecnologia pode derrubar barreiras ou criar novos obstáculos silenciosos. Uma plataforma digital sem acessibilidade funciona como uma escada sem rampa. Ferramenta alguma substitui o que só a relação humana oferece: a paciência, a adaptação do caminho e a confiança na capacidade de quem aprende.
Substituição do professor e os limites éticos da inteligência artificial
Olhar para o futuro exige afastar a ingenuidade. A inteligência artificial já escreve, traduz e descreve imagens com precisão. Diante disso, surge a dúvida se ainda haverá lugar para o professor nas salas de aula. A resposta reside naquilo que as máquinas não possuem: a vivência do corpo, o risco da relação e a responsabilidade pelo que se ensina.
Sistemas avançados podem descrever uma fotografia para uma pessoa cega, o que representa um avanço notável. Contudo, decidir o que é importante dizer, a quem e com qual delicadeza continua sendo uma escolha ética, e não técnica. Quanto mais sofisticadas forem as ferramentas, mais valiosa será a formação humana de quem as orienta.
Inclusão na prática e a importância de ler o mundo com os dedos
Falar de inclusão exige falar sobre a valorização dos professores. Segundo as diretrizes da Lei Brasileira de Inclusão, assegura-se o direito a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis. No entanto, direitos escritos só se realizam quando traduzidos na prática diária da sala de aula.
Isso exige formação continuada, materiais adequados, tempo de planejamento e remuneração justa. Ninguém constrói uma escola acolhedora com profissionais exaustos e desamparados. As homenagens aos professores precisam se traduzir em condições dignas de trabalho. Da mesma forma, a celebração da bengala branca deve resultar em calçadas acessíveis, sinalização sonora e oportunidades reais no mercado de trabalho.
Autonomia representada pela bengala e pelo giz
Existe uma semelhança marcante entre esses instrumentos de orientação. A bengala e o giz — ou o teclado e a tela — ajudam a guiar o indivíduo. A bengala explora o chão antes do passo e devolve a liberdade de caminhar.
O professor faz o mesmo ao sondar o terreno do conhecimento junto com o estudante, preparando o aluno para andar de forma independente. Em ambos os casos, o objetivo final busca a autonomia. Esta nasce do vínculo com o outro, pois ninguém aprende ou atravessa a rua completamente sozinho.
Importância do tempo no aprendizado para ler o mundo com os dedos
Há também uma lição sobre a gestão do tempo. O sistema Braille exige leitura pausada, palavra por palavra, linha por linha. Essa lentidão não representa um defeito, mas um modo elevado de atenção para ler o mundo com os dedos. Em um cotidiano regido pela pressa e pelo excesso de estímulos, o aprendizado do toque lembra que compreender exige tempo.
O bom mestre entende essa necessidade. Ele protege o direito de pensar sem pressa, de errar sem humilhação e de revisar o conteúdo quantas vezes for necessário. Resistir à velocidade em nome da profundidade é uma das tarefas mais urgentes da educação contemporânea.
Beleza do conhecimento e a métrica humana da escola
Essa atenção ao outro revela uma forma genuína de beleza. Quando uma criança cega reconhece o relevo de um mapa do seu próprio bairro, testemunha-se a alegria do conhecimento em estado puro. Cenas assim não aparecem em rankings ou avaliações em larga escala, mas justificam a existência da escola.
Reconhecer que o trabalho do professor produz efeitos imensuráveis representa a homenagem mais justa. Trata-se de uma transformação interior que o aluno carrega pela vida inteira.
Metáforas da linguagem e a superação da visão como único sentido
Nossa própria língua reflete essa busca por sentido. Dizemos que enxergamos uma saída, que vemos o sentido de algo ou que precisamos de luz para entender. Falamos em esclarecer, iluminar e lançar um olhar. Quase todo o vocabulário do saber veio da metáfora da visão.
Entretanto, a escrita tátil demonstra que o conhecimento nunca esteve preso aos olhos. A educação devolve às palavras o seu alcance maior: compreender é uma experiência de todo o ser humano, e não o privilégio de um único órgão.
Protagonismo das pessoas com deficiência na construção de saberes
Lembremos que a inclusão não se faz para as pessoas, mas com elas. O lema do movimento das pessoas com deficiência afirma: “nada sobre nós sem nós”. Essa máxima vale para a escola e para a cidade.
Estudantes, professores, pesquisadores e artistas cegos não são receptores passivos de políticas públicas. Eles atuam como autores de conhecimento. Ouvir esses protagonistas é a forma mais elementar de respeito. Uma sociedade que escuta quem percebe o mundo de outro modo torna-se mais atenta, criativa e justa para todos.
Convite à reflexão sobre as diferentes formas de conhecer
A coexistência dessas duas datas no calendário traz uma oportunidade valiosa. Em um mundo acelerado que confunde ver com compreender, lembrar o Braille e os professores recorda a existência de outras formas de conhecer. A grandeza humana não cabe em um único sentido, e a inteligência assume muitas linguagens. A educação acolhe essa diversidade como riqueza.
Que o 15 de outubro seja um convite permanente. Aos professores, para continuarem ensinando com a alma além do olhar. Às escolas e governos, para que a acessibilidade seja regra. E a cada um de nós, para aprendermos a ler o mundo com os dedos e com o coração, pois a humanidade nos espera nesse espaço. Há ainda a pedagogia por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas esse tema ficará para outra oportunidade.

