Diplomacia, ideologia e o custo das palavras

Publicado em Íntegra

VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

 

Construída ao longo de décadas, a política externa de uma nação não pode ser confundida com a política doméstica nem subordinada às conveniências ideológicas de governos transitórios. Sua função primordial consiste em proteger interesses permanentes do Estado, preservar mercados, ampliar oportunidades econômicas e reduzir áreas de conflito capazes de comprometer o desenvolvimento nacional. Quando essa lógica é invertida, o custo costuma aparecer de forma silenciosa, porém concreta: diminuição da confiança internacional, retração de investimentos, perda de competitividade das exportações e desgaste das relações diplomáticas. Como observava o diplomata americano George F. Kennan, um dos formuladores da política externa dos Estados Unidos no século XX, “a diplomacia existe para administrar diferenças, não para ampliá-las”. A frase sintetiza um princípio que permanece atual: países não escolhem seus parceiros por afinidade ideológica, mas pela convergência de interesses.
Brasil e Estados Unidos constituem um exemplo eloquente dessa realidade. Há mais de duzentos anos, os dois países mantêm uma das relações bilaterais mais relevantes do continente americano. Os Estados Unidos figuram entre os principais investidores estrangeiros no Brasil, enquanto milhares de empresas brasileiras mantêm vínculos comerciais diretos com o mercado norte-americano. Em 2024, o intercâmbio comercial entre os dois países ultrapassou US$ 80 bilhões, consolidando os Estados Unidos como um dos maiores parceiros econômicos do Brasil. Além do comércio, a cooperação estende-se às áreas científica, universitária, tecnológica, energética, agrícola e de defesa, formando uma rede de interesses cuja importância transcende governos e ciclos eleitorais.
Nos últimos anos, entretanto, essa relação passou a conviver com um ambiente político mais tenso. Divergências em torno do comércio internacional, das plataformas digitais, das mudanças climáticas, dos organismos multilaterais e de diferentes conflitos internacionais ampliaram o distanciamento entre Brasília e Washington. O episódio mais sensível foi a adoção de novas tarifas sobre determinados produtos brasileiros, inseridas em uma política comercial mais ampla adotada pelos Estados Unidos em relação a diversos parceiros. Paralelamente, foram abertas investigações comerciais envolvendo alegações de práticas consideradas desleais pela legislação americana. Evidentemente, nenhuma decisão dessa natureza decorre de um único fator. Tarifas resultam de estratégias econômicas, disputas comerciais, pressões domésticas e cálculos geopolíticos. Ignorar, porém, a influência do ambiente político sobre essas decisões seria desconhecer o funcionamento da diplomacia contemporânea.
Ao longo do atual mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez sucessivas críticas públicas ao governo de Donald Trump e aproximou o Brasil de agendas internacionais frequentemente recebidas com reservas pela atual administração norte-americana. Em resposta às medidas tarifárias, o governo brasileiro reafirmou a defesa da soberania nacional, contestou a legalidade das sanções e declarou disposição para negociar. A posição oficial dos Estados Unidos, por sua vez, fundamentou-se em argumentos relacionados a práticas comerciais, questões ambientais, comércio digital e procedimentos conduzidos pelo Escritório do Representante Comercial norte-americano. Independentemente da avaliação que se faça sobre os méritos de cada argumento, permanece válido um princípio elementar das relações internacionais: interesses nacionais dificilmente prosperam quando são subordinados ao acirramento político.
Como escreveu Henry Kissinger, “não existem amigos permanentes nem inimigos permanentes; existem interesses permanentes”. Embora a frase seja frequentemente associada a ele, e tenha origem atribuída anteriormente a Lord Palmerston, ela permanece como uma das definições mais precisas da lógica que orienta a política internacional.
Nesse contexto, surgem críticas formuladas por setores da oposição, segundo os quais o governo brasileiro teria elevado desnecessariamente o tom político das divergências, reduzindo o espaço para negociações pragmáticas. O governo, em sentido oposto, sustenta que apenas respondeu de forma firme a medidas consideradas unilaterais e incompatíveis com o direito internacional. Trata-se de um debate legítimo em qualquer democracia. O que não deveria admitir controvérsia, entretanto, é a necessidade de preservar empregos, investimentos, mercados consumidores e oportunidades para empresas brasileiras. Cada aumento tarifário reduz competitividade, pressiona cadeias produtivas, dificulta exportações e amplia incertezas para trabalhadores e investidores. Em um cenário internacional marcado pelo avanço do protecionismo, a previsibilidade tornou-se um ativo econômico de enorme valor.
As grandes potências costumam combinar firmeza e confronto porque compreendem que declarações públicas produzem efeitos concretos sobre decisões de investimento, contratos internacionais e confiança dos mercados. Não por acaso, Rui Barbosa, patrono da diplomacia brasileira, advertia que “a pátria não é ninguém; são todos”. Em matéria de política externa, essa máxima recorda que governos passam, mas os custos e benefícios de suas decisões permanecem para toda a sociedade.

A frase que foi pronunciada:
“Política externa brasileira: só ventos do norte não movem moinhos”
Janina Onuki

História de Brasília
O dever de cidadão, participando do Juri Popular, obrigar-me-ia a deixar êste espaço sem a coluna, hoje. Mas, como estou na Casa da Justiça, neste momento, abro o espaço para citar um caso interessante, já que terão início, no fim do mês, as partidas de futebol pelo Campeonato Mundial.(Publicada em 25.05.1962)

 

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