Autor: Circe Cunha
ARI CUNHA – Visto, Lido e Ouvido
Desde 1960
aricunha@dabr.com.br
com Circe Cunha e MAMFIL
Alguém, em sã consciência, entregaria uma caríssima obra de reforma de seu patrimônio a um grupo de pessoas no qual não deposita absolutamente nenhuma confiança? É mais ou menos o que vem ocorrendo com a reforma da Previdência, apresentada com enorme urgência, pelo governo Temer. Mesmo diante do reconhecimento da necessidade de reformar o sistema, os trabalhadores brasileiros, na sua imensa maioria, não confiam naqueles que estão, em todos os níveis, operando para mudar a mecânica do sistema previdenciário. Não é para menos. A população não confia no Congresso, não confia nos políticos, não confia no governo e desconfia, inclusive, dos próprios sindicatos que dizem representá-la.O futuro da classe trabalhadora está nas mãos daqueles que as ruas já disseram, em alto e bom som, que não a representam. Que reformas podem resultar de políticos que, em suma, não se submeterão às novas regras? Todos poderão se aposentar com 8 anos de serviço? Ou receber de castigo a aposentadoria compulsória? Para qualquer trabalhador interessa, obviamente, uma aposentadoria digna e, se todos são iguais perante a lei, que a mesma lei funcione para todos no mesmo gênero, número, grau e quantia proporcional.Para isso, o trabalhador investe ao longo da vida parte significativa de seus rendimentos. Trata-se aqui de uma aplicação que é retirada à revelia do assalariado pelo Estado e, muitas vezes, aplicada de forma irresponsável, em negócios nebulosos e, não raro, com sinais claros de corrupção.Falar em reforma, o que salta primeiro diante dos olhos do brasileiro é o risco de gestão temerária dos recursos feita pelos governos. É preciso lembrar que o dinheiro dos trabalhadores tem sido usado até para comprar papéis e títulos podres da dívida pública de países que todos sabiam economicamente falidos. Nos últimos anos, os mais sólidos fundos de pensão das empresas públicas brasileiras foram simplesmente esvaziados por conta de interesses que misturavam afinidade ideológica e interesses particulares escusos. O que resultou nesse carnaval com o dinheiro do trabalhador foram fundos pobres e operadores, partidos e dirigentes ricos.Muito mais do que o envelhecimento da população, o que tem levado à falência do sistema previdenciário são a incúria e a corrupção, facilitadas não só pelas brechas que escancaram as portas do cofre às fraudes corriqueiras, mas sobretudo pela facilidade com que os recursos são apropriados em nome da política partidária. Os recursos da Previdência têm sido usados para tudo, menos para garantir o futuro daqueles que investiram por anos a fio, dando parte de seu sacrifício, para receber paz no futuro.
A frase que não foi pronunciada
“Péssima notícia. Papai Noel está de saco cheio.”
Alguém fantasiado de bom velhinho pagando contas e mais contas
BB
» Buscando comunicação com agências do Banco do Brasil, descobrimos uma inovação que acelera a comunicação dos clientes com a gerência da conta. Ao acessar, pela internet, pela agência e conta, ao entrar na página, basta o cliente clicar em um balãozinho no canto direito no alto da tela. Ali está a interface. A gerência recebe a questão em tempo real, que fica aberta no computador até que dê a resposta. Uma solução bastante ágil para os internautas. Os idosos que preferem o contato telefônico ainda penam.
Denúncia
» Leitor chama a atenção do governo Temer para impedir que as riquezas do Brasil saiam como estão saindo. Desde matéria-prima para indústrias farmacêuticas multinacionais até o nióbio, vendido a preço de banana.
Regresso
» Lendo a história de Brasília abaixo, aqui mesmo nessa coluna, quando na década de 1960 uma carta saía do Aeroporto de Brasília e chagava no mesmo dia ao Ceará, hoje um susto com a surpresa. Para uma carta chegar aos Estados Unidos, em uma semana, é preciso desembolsar
R$ 100. Que diferença. Quanto tempo levamos para fazer o pior.Qualquer reforma séria deveria começar pela universalização dos direitos. Isso, logicamente, significaria, teto salarial, fim de privilégios e outras desigualdades vergonhosas. Uma simples sondagem nos salários de alguns nababos da República dá a dimensão do abismo social do país. Renan Calheiros sabe disso e encostou o ferro gelado no nervo central da questão.
História de Brasília
Quando alguém falar mal do DCT faça, por favor, exceção à agência do aeroporto de Brasília. Um telegrama para o Ceará, que vai via Rio, chegou ao destino no mesmo dia. É uma pena se noticiar uma coisa dessas, porque fato como esse devia ser rotina, mas infelizmente não é. (Publicado em 19/9/1961)
ARI CUNHA
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Qualquer cidadão que venha acompanhado as sessões realizadas no plenário do STF, desde 2005, quando teve início as transmissões ao vivo do julgamento da Ação Penal 470 do mensalão, já tem, nessa altura dos acontecimentos, uma teoria formada sobre um personagem muito peculiar daquela Corte que, a despeito de seu comportamento apagado, parece um estranho no ninho, quer por uma perceptível limitação nas filigranas jurídicas, quer por uma inclinação, digamos, tendenciosa em prol dos governos que ocuparam o Planalto nos últimos dez anos.
Essa figura, que, num átimo, foi alçada da condição de advogado sem muitos talentos, do Partido dos Trabalhadores, para ministro dessa alta Corte Constitucional, onde o notório saber jurídico é condição sine qua non para o exercício do cargo, destoa do conjunto. A presença desse juiz na Corte Suprema, só reforça a tese de que as indicações para o alto cargo técnico deveriam ser prerrogativa interna do Judiciário, com a sabatina dos indicados sendo feita pelos próprios ministros da Corte.
Colocado no centro do plenário e tendo como questionantes, doutos constitucionalistas e experientes juízes, qualquer candidato ao cargo, seria sabatinado comme il faut . Mas como a indicação e a sabatina ainda são postas sob o crivo exclusivamente ideológico, não surpreende que, cada vez mais, a Corte venha adotando interpretações e decisões com forte coloração político-partidária.
Para os que observam com mais atenção a performance desse ministro, quem ali enverga a túnica talar é uma espécie de ator que se limita a ler pareceres escritos, obviamente preparados por uma plêiade de juristas alojados em seu amplo gabinete. Mais curioso, e não menos emblemático, é que na maioria das decisões que vem proferindo, quando o que está em pauta são questões de interesse do seu antigo empregador e padrinho, não raro, o parecer se esvai pelos meandros infinitos do direito e encontra brechas para aliviar a mão pesada da Justiça sobre os antigos benfeitores. Dizer que ministro não tem passado, só futuro, neste caso, não corresponde aos fatos.
Desde 2005, quando eclodiu o escândalo do mensalão, quando por razões óbvias e éticas era recomendável que se declarasse impedido de julgar, o que se viu e ouviu, foram repetidas decisões contra o bom senso e na direção de livrar o petismo das pesadas sanções legais que se anunciavam. A partir daquele julgamento emblemático, os olhos da opinião pública passaram a focar com mais atenção no desempenho desse magistrado, infelizmente fabricado sob medida e posto a atuar sob pedidos.
A frase que não foi pronunciada
“Voltem sempre!”
João, funcionário da delegacia da Asa Norte, bem-humorado, apesar do trabalho estafante.
Leitor
» As 30 lâmpadas fluorescentes de 40w cada da Estação Catetinho do BRT permanecem acesas 24 horas, gerando um consumo diário de 28,8kh, totalizando, no fim do mês, 864kw, dos quais pelo menos a metade, 432kw, é desperdício acintoso nesses momentos de crise. Essa energia que é jogada fora equivale aproximadamente ao consumo de duas residências médias. Será que quem projetou aquilo nunca ouviu falar em relés de controle tipo fotocélula?
Vacinação
» A Secretaria de Saúde do GDF precisa organizar melhor a próxima campanha de vacinação. Na Asa Norte, por exemplo, tudo foi centralizado em um único Posto de Saúde 207/407. Um caos total.
Mais cuidado doutor
» Depois que a coluna chamou a atenção das autoridades para os comentários feitos discretamente, um prato cheio para quem faz leitura labial, agora as fontes informam que as portas dos quartos de hotéis em Brasília, não são tão assim, digamos, à prova de som.
Exemplo
» Operação Dr. Lao, parceria entre o Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, o Ministério da Transparência, Fiscalização e a Controladoria-Geral da União, aplicou penalidades disciplinares a oito servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por peculato e associação criminosa. O fato ocorreu no Mato Grosso e o chefe da Unidade Estadual que trabalhava no cargo por mais de 30 anos foi demitido depois de instaurado o processo administrativo disciplinar (PAD).
Mujica
» O Mujica de Brasília, que entrou na Administração do Lago Norte de fusca e deixou o cargo de administrador com o mesmo fusca, está cabisbaixo. Roubaram na 213 Norte seu possante verde. O ex-administrador, Manoel Andrade foi prontamente atendido pela polícia civil quando comunicou o sumiço do velho carro.
História de Brasília
Esta é com a Capua e Capua. O bloco 56 da Asa Norte está com uma fenda muito grande, de alto a baixo. Parece que não há perigo, mas o pessoal que mora lá bem que está apreensivo. (Publicado em 19/9/1961)
ARI CUNHA
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Com a divulgação dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), mais uma vez o Brasil aparece na rabeira entre os 70 países pesquisados. Pela pontuação alcançada em cada uma das áreas pesquisadas, fica demonstrado, na prática, que o desempenho de nossos alunos no âmbito dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) permanece ainda muito abaixo de outras nações, mesmo aquelas em que o PIB é bem menor do que o do Brasil.
No fim da lista, o Brasil ficou com 401 pontos comparados à média de 493 pontos alcançados por outros países. Em leitura estamos na 59ª posição, em ciências descemos para 63ª posição e em matemática despencamos para 66ª colocação. Um vexame internacional.
Realizada a cada 3 anos, a pesquisa traça, além de um diagnóstico básico de habilidades e conhecimentos específicos, uma radiografia sobre as variáveis demográficas e sociais de cada um dos países da OCDE, que possibilita ainda aferição confiável dos sistemas de ensino da cada país ao longo do tempo. No Brasil, a avaliação do Pisa é coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que para essa pesquisa selecionou 33 mil estudantes nascidos em 1999, em todos os estados, e matriculados na 7ª série do ensino fundamental.
De acordo com o último Pisa, soubemos que, desde 2006, o Brasil se mantém estável nas áreas de ciências. No quesito leitura, continuamos praticamente no mesmo patamar de 2000. Com os resultados dessa última pesquisa, podemos avaliar que o montante investido por aluno entre 6 e 15 anos ficou em US$ 38.190, contra US$ 90.294 dos países da OCDE, o que corresponde a 42% da média dos gastos por aluno nos demais países.
Persistem enormed desigualdades não só na estrutura física das escolas públicas, como também na formação e valorização dos profissionais em educação. O Sul e o Sudeste continuam na dianteira em relação ao Norte e ao Nordeste. Em ciências, a melhor pontuação ficou com o Espírito Santo, com 435 pontos, contra Alagoas, que marcou 360 pontos, o pior desempenho de todos.
Na avaliação do Inep, o baixo desempenho dos estudantes brasileiros está ligado ao alto índice de repetências, que acaba por desestimular os alunos. Para a secretária executiva do Ministério da Educação (MEC), Maria Helena Guimarães, “o Brasil não melhorou a qualidade nem a equidade nos últimos 13 anos, principalmente. A única melhora do país foi no fluxo. É importante registrar que 77% dos estudantes que fizeram o Pisa estão no ensino médio.”
A frase que não foi pronunciada
“ Não à toa que no Brasil só se vota na zona eleitoral!”
Carioca, ao se reatar com o bom humor
Denúncia
» Entre os trechos 8 e 9 do Setor de Mansões do Lago Norte, uma cerca limita o espaço público, tomando, inclusive, parte da mata ciliar. É tão discreto o arame farpado que está avançando, enquanto escapa da fiscalização da Agefiz.
BB
» Se alguém conseguir ligar para uma agência do Banco do Brasil, por favor, nos envie o número.
Harmonia
» Senado Verde e Coral do Senado trabalharam em sintonia neste ano. Todo o cenário da ópera Carmen foi de material reciclado. O viveiro do Senado produz a própria energia, além de armazenar a água da chuva, reaproveitada nos jardins.
Clareza
» Comentário no cafezinho do Senado é que o presidente Temer precisa criar um canal de comunicação franco e intenso com a população. Até agora, a população não teve do governo nenhuma informação sobre a reforma da Previdência. O assunto precisa ser colocado honestamente e rápido.
Oportunidade
» Shakira tem dois fãs-clubes no Brasil. Um que adora suas músicas e performances artísticas e outro que a admira por ter investido na criação de uma escola para crianças de baixa renda, que se transformou em destaque na Colômbia. Aplicar a verba obtida pelo próprio sucesso, acreditando no sucesso de outros, é uma ação para poucos.
História de Brasília
Atualmente, em Brasília, há quatro pretendentes para cada cargo. Um do Juscelino, que quer voltar; um do Jânio, que quer ficar; um do sr. Tancredo Neves, e outro do sr. João Goulart. (Publicado em 19/9/1961)
ARI CUNHA
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Tão acostumados estamos com nosso horizonte imediato e nossas mazelas diárias, que muitas vezes não percebemos a progressiva decadência que vai tomando conta de nosso mundo ao redor. No caso de nossa cidade, capital do país, o que se apresenta diante de nossos olhos parece ser um a crônica de um colapso social anunciado. Se forem contabilizados entre bares, restaurantes e botecos informais, Brasília possui hoje aproximadamente 12 mil estabelecimentos, que empregam um exército de mais de 100 mil pessoas. Para uma população de pouco menos de 3 milhões de habitantes, o que não faltam são opções de bares e biroscas onde a oferta de álcool variada é abundante.
O que poderia parecer um paraíso de comércio, com vendedores e consumidores exercitando as saudáveis leis do mercado, para o bem da economia local, esconde uma realidade devastadora. O que se assiste hoje na capital do país é a liberalização total e o estímulo, sem precedentes, do consumo de bebidas alcoólicas.
Na região do Plano Piloto, a proliferação de bares, botecos e outros estabelecimentos de venda de álcool segue acelerada. Mesas e cadeiras vão se espraiando por ruas, invadindo as áreas verdes e chegando cada vez mais próximas às residências. O mais preocupante é que o grande público desse tipo de comércio é formado por jovens, a maioria ainda estudantes.
Nas cercanias das universidades, o movimento de bares e o consumo de álcool são mais acentuados. Algumas quadras, como a SQN 408, o comércio local foi tomado por bares que lucram fábulas com os alunos de universidades e escolas da redondeza. Em todas as quadras, o fenômeno se repete. Os bares à noite ficam lotados e as salas de aula vazias. Nunca tantos jovens beberam tanto como agora. Estamos nos transformando na capital do álcool. O que poderia ser uma diversão esporádica, vai se transformando numa constante perigosa.
O que estamos assistindo, sob o olhar complacente das autoridades e principalmente das famílias, é ao consumo desbragado de álcool. Gerações estão sendo entregues ao vício silencioso. Trata-se muito mais do que de um problema de saúde física e mental, que já é sério. O que estamos vendo em nossa cidade e arredores é a lenta destruição de todo um contingente de jovens, desinformados sobre os perigos do alcoolismo.
Sem uma campanha séria e massiva que alerte para esse flagelo que vai se instalando por todo lado, o que teremos num futuro próximo são hospitais lotados de pessoas acidentadas, vítimas de cirrose, delegacias cheias de infratores, presídios superlotados de delinquentes, clínicas e estâncias para dependentes, acidentes de trabalho, hospitais psiquiátricos repletos de jovens desequilibrados. Os moradores das superquadras sabem bem que o problema existe, está se disseminando com rapidez e já é um dos maiores motivos de queixa da atualidade.
A frase que foi pronunciada
“Você ganha liberdade quando tem responsabilidade.”
Alison Zigulich
Aids
» Cresce a cada dia no DF o número de infectados pelo vírus da aids. Já são, segundo a Secretaria de Saúde, 11 mil infectados. Isso sem contar aqueles que ainda não suspeitam ainda da contaminação, além dos que, simplesmente não fazem a notificação e não procuram os cuidados médicos adequados.
Perfil
» Preocupa as autoridades o fato de a maioria dos infectados estarem na faixa etária entre 15 e 19 anos, sendo que a proporção de soropositivos é de 46,7 casos masculinos para cada uma mulher infectada.
Propaganda
» No caso da proliferação desenfreada desse vírus, fatal para o ser humano mesmo com todos os avanços da medicina e dos remédios retrovirais existentes hoje, as novas gerações não foram sensibilizadas por campanhas massivas como acontecia em décadas passadas.
Carnaval
» Com a aproximação das festas de Momo, deverá crescer também o número de registros de pessoas infectadas num futuro próximo. Por isso, não se entende como a menos de dois meses para o carnaval ainda não se veem propagandas apelando para o uso de camisinhas e outros protetores.
História de Brasília
No meio da crise, não falta gente esperta. A Imobiliária Guanabara Ltda. está vendendo o Jardim Maravilha, em Formosa, e apresenta para o cliente esta atração: Recebe do cliente a importância de 5 mil cruzeiros, e dá uma escritura de 40 mil cruzeiros. E tem mais: dá, ainda, uma apólice de 100 mil cruzeiros, para seguros de acidentes pessoais. (Publicado em 19/9/1961)
ARI CUNHA
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Não conheci pessoalmente o poeta Ferreira Gullar. Mas sempre nutri por seu trabalho e por suas posições, firmes e claras, forte admiração. Estive, há muitos anos, no lançamento de uma coletânea de seus textos, reunidos sob o título Toda poesia. Fiquei de longe. Havia muita gente na ocasião e resolvi ser um a menos a perturbá-lo com tietagens e não pedi autógrafo. Não me arrependo.
A mim, Gullar sempre pareceu ser confiável. Percebi, desde logo, que havia em seus múltiplos trabalhos como escritor e crítico uma coerência linear, que faz com que você conheça na intimidade o verdadeiro criador. É raro encontrar no vasto mundo das artes talentos que possuam a coragem genuína de expor com franqueza e sem enfeites sua personalidade. O que se vê com frequência são artistas deslumbrados com o próprio umbigo, vaidosos e cheios de estereótipos sobre o mundo ao redor.
À guisa de explicação, é preciso deixar esclarecido que tomar o autor pelo trabalho exposto é uma das grandes ilusões das plateias mundo afora, principalmente quando se descobre que autor e obra são dois seres antípodas. A desilusão é ainda maior quando se descobre que, por trás de uma obra-prima qualquer, pode estar um ser mesquinho e cheios das mais baixas veleidades humanas. Ou mesmo o oposto: obras cáusticas com um ser angelical a compondo. Muitos chegam a duvidar que determinada obra seja de um autor, tal a discrepância entre ambos.
A filosofia distingue bem ética de estética. Neste sentido, é possível entender por que alguns grandes artistas, criadores de verdadeiras obras-primas, sejam, na intimidade, seres humanos desprezíveis, capazes de atitudes e baixezas impensáveis. A prudência ensina a não confundir criador e criatura.
Ferreira Gullar tinha esse quê raro de sinceridade. Seus textos e sua pessoa estavam ali, derramados em tinta preta sobre a folha branca. Talvez venha daí a sua enorme aceitação pública. Quando ainda havia a esquerda, como matiz ideológico e pessoal, Gullar se posicionou, não como defensor cego das orientações do Partidão, mas no sentido de que acreditava, com sinceridade, na redenção do ser humano e sua libertação do capitalismo selvagem e predador.
Por sua vivência e liberdade de pensar, desde logo identificou nos governos petistas uma fantasia que levaria o país à ruína moral e econômica. No poema “Não há vagas”, de 1963, Ferreira Gullar traz para o lirismo dos versos, a realidade do brasileiro comum desde sempre:
“O preço do feijão/não cabe no poema. O preço do arroz/não cabe no poema./Não cabem no poema o gás, a luz o telefone, a sonegação, do leite, da carne, do açúcar, do pão./O funcionário público/não cabe no poema/com seu salário de fome/sua vida fechada/em arquivos./Como não cabe no poema o operário/ que esmerila seu dia de aço/e carvão/nas oficinas escuras/– porque o poema, senhores,/está fechado:/“não há vagas”/Só cabe no poema/ o homem sem estômago/ a mulher de nuvens/ a fruta sem preço/ O poema,/senhores,/ não fede/nem cheira.”
A franqueza de sua prosa afastou-o da maioria dos políticos atuais, principalmente os populistas e demagogos. Talvez tenha sido essa a razão por que muitos deles preferiram ir assistir aos funerais do ditador Castro, na longínqua Cuba — um homem a quem é debitado milhares de mortes — do que ver descer a terra um dos maiores poetas da atualidade. Melhor assim para a biografia de Gullar.
A frase que foi pronunciada
“A arte existe porque a vida não basta.”
Ferreira Gullar
Desigualdade
» De acordo com o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Brasília registra os maiores índices de desigualdade econômica e social do Brasil. Nas medições feitas pelo desigualtômetro existem enormes discrepâncias na oferta de bens e serviços entre os moradores do Plano e das áreas periféricas. Enquanto no Plano Piloto, 84% da população tem planos de saúde, a poucos quilômetros, na Estrutural, esse número cai para apenas 5,6%.
CPI
» Na era das delações, feitas diante do pavor da prisão iminente, o país vai conhecendo um pouco do submundo dos bastidores políticos. Num desses últimos relatos, nada mais, nada menos, feito pelo ex-líder do governo no senado, Delcídio do Amaral, ficamos sabendo que as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) vinham sendo usadas apenas para achacar empresários, principalmente em época de eleições.
Deflexão
» Com os desdobramentos da Operação Lava-Jato, nesta nova fase intitulada Deflexão, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Marco Maia (PT-RS) e o atual ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e ex-senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), respectivamente, relator e presidente da CPI da Petrobras, terão de prestar contas à Justiça sobre denúncias de que teriam recebido R$ 5 milhões de um clube de empresários para livrá-los da convocação a fim de prestar depoimentos à Comissão.
História de Brasília
Em Goiânia, outro dia, nenhum funcionário do Ipase compareceu à repartição, exceto um servente, que dava a seguinte explicação às pessoas que procuravam a autarquia: “O pessoal está todo doente”. (Publicado em 19/9/1961)
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No caso do Plano Piloto, somente a crise financeira pode explicar por que ainda não foi implantado um transporte leve sobre trilhos, percorrendo toda a extensão Sul e Norte, com ramificações pelas L2 e W3. Enquanto a solução definitiva, que outros países já conhecem há quase um século, não vem, as vans piratas e toda uma modalidade terceiromundista de transportes voltam a ocupar, de modo extensivo e permanente, as lacunas deixadas pelo poder público. Obviamente, essa é uma modalidade danosa para todos os que precisam se deslocar por longas distâncias.
Além de caros, os transportes clandestinos colocam diariamente em risco a vida de passageiros e demais motoristas. Nas cidades do Entorno, esse tipo de transporte já é maioria presente nas ruas, principalmente nas horas de pico e durante as constantes greves no sistema público.
Na verdade, o transporte pirata das vans nunca deixou de existir. Houve uma retração, durante um curto espaço de tempo, mas sempre atuou, principalmente nas áreas mais carentes. Quem precisa, submete-se, e, na falta de algo melhor à mão, até aprova o serviço. Também as paradas de ônibus, muitas ainda improvisadas, carecem há anos de uma repaginação completa para adequá-las ao novo volume de passageiros, que cresce a cada dia.
» A frase que não foi pronunciada
“Se a gestão brasileira administrar o deserto do Saara, em 5 anos faltará areia”
Milton Friedman, no Liberzone
Pauteiro
» Se quiser falar de uma notícia diferente, observe os shoppings. Eles obrigam as lojas a abrir em horários que fogem às regras celetistas, onerando em demasia a folha de pagamento do empresário e sacrificando os trabalhadores. Nem o sindicato dos trabalhadores impede a prática. Quando avocarem a crise, daí a resignação do lado mais fraco da corda interrompe o assunto.
Quimera periclinal
» UnB 703. Esse é um tipo de mandioca desenvolvido pela Universidade de Brasília que pesa 20 quilos. O professor Nagib Nassar nos mostrou a foto, cheio de orgulho.
Novos nomes
» Senado aprova Luiz Felipe Mendonça para a missão do Vaticano, Maria Laura da Rocha para a embaixada do Brasil na Hungria e Luís Cláudio Villafañe para a Nicarágua.
Jovens senadores
» Em 16 de junho, seria aniversário de Ariano Suassuna. A meninada que participa do programa Jovem Senador sugere à instituição a data como Dia Nacional de Combate ao Preconceito. O grupo propõe que esse tipo de crime seja inafiançável.
Salmo 91
» Era pequeno, quando acompanhava a mãe, Débora Arruda Penha Soares, durante os ensaios do Coro Sinfônico da UnB. Hoje, Artur Soares é compositor de alta estirpe. O certo é que os coralistas estão se empenhando ao máximo para seguir as notas da brilhante composição.
Vale
» Espetáculo urgente no CCBB. Dois minutos para passar toda uma vida. De quinta a sábado, às 20h, e no domingo, às19h, até 11 de dezembro.
» História de Brasília
O espírito guanabarino conta que um psicanalista inglês examinou o sr. Jânio Quadros durante várias horas. Depois veio o laudo: o paciente está completamente são. Mandem-me, agora, os seis milhões de eleitores brasileiros… (Publicado em 19/9/1961)
ARI CUNHA
Desde 1960
Com Circe Cunha e MAMFIL
Ninguém até hoje consegue entender a razão que leva Brasília, cujo o desenho urbano foi concebido para livrar o homem moderno da praga dos congestionamentos de trânsito que geram tantos prejuízos à saúde e à economia, a não ser dotada de um moderno e eficiente meio de transporte urbano ou soluções mais avançadas de mobilidade urbana.
Enquanto a luz da razão não desce sobre as cabeças daqueles que poderiam permitir a implantação de um transporte de massa condizente com a importância da capital do país, os brasilienses continuam a sofrer dos mesmos males que o restante da população brasileira, quando o assunto é deslocamento.
Não fossem a construção do metrô e das canaletas exclusivas para algumas linhas de ônibus, o caos seria impensável. A cidade, literalmente, pararia nas horas de pico, aprisionando as pessoas comuns e as autoridades nacionais e estrangeiras em vários pontos da cidade. Cientes da falta de interesse e empenho para resolver, de uma vez, esse delicado problema, as empreiteiras, com a permissão do governo, vão avançando sobre as áreas verdes e outros espaços, abrindo pistas, alargando ruas, criando estacionamentos e outras facilidades para que apenas os carros particulares e outros modelos obsoletos de transporte possam circular com mais folga.
A cada remendo no sistema viário, um problema a mais que é lançado para o futuro resolver. Com os paliativos sem planejamento que vão sendo executados, a cidade corre o risco de virar um enorme labirinto, disforme e sem solução.
A frase que não foi pronunciada
“Doa a quem doar!”
Ditado na Lava-Jato
Cofres
» Cliente saiu cuspindo fogo da agência do Banco do Brasil na 316 Norte. Chegou lá às 17h e os caixas eletrônicos estavam inacessíveis. A explicação de uma funcionária que saía é que aquela região tem tido constantes assaltos. E arrematou. Não falta dinheiro para o Banco resolver o problema. O moço bravo arrematou. Falta é respeito pelos clientes.
Fundos
» Para amenizar a ira, falando em banco, Quintino Cunha, da nossa família, andava na praça quando um banco com três homens enormes arrebentou com o peso. Quintino, com seu humor de sempre, comentou: “É a primeira vez que vejo um banco quebrar por excesso de fundos”.
Anônimos
» Grupos de diversos interesses se unem para fazer o bem em diferentes pontos da cidade. Um deles é o Scalp 21. Amigos de Taguatinga, Ceilândia, Samambaia e outros que pedalando fazem ações sociais em creches, asilos e hospitais.
Educação
» Qualquer um acha incrível a grade curricular das escolas na Suécia. Tarefas domésticas, lavar, passar, costurar , bordar, cozinhar desde os 11 anos é natural naquele país. As aulas se estendem para a economia doméstica e direito do consumidor. Nas séries mais adiantadas, aprendem carpintaria. Fazem mesas, bancos, cadeiras e armários. Aos 17 anos, a rapaziada alça voo com a independência real almejada.
Fica a dica
» Se você é daqueles leitores assíduos que gostam de contribuir com os jornalistas, segue um conselho. Procure enviar as mensagens sem anexos. Por apresentar perigo geralmente o material fora do corpo do email não é aberto.
Amigos
» Nosso abraço afetuoso à família Lindberg Aziz Cury.
História de Brasília
O carioca tem criticado muito o sr. Jânio Quadros, depois da sua renúncia. E o espírito gaiato do guanabarino não faltou ao episódio que transformou a vida do país. Aqui vão algumas dessas opiniões: o sr. Jânio Quadros é como leão da Metro. Três urros, e o resto é fita… (Publicado em 19/9/1961)
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com Circe Cunha e MAMFIL
Em nome de um modelo de democracia que parece interessar apenas a grupos como a CUT, MST, UNE e outros grupelhos que orbitam os partidos de esquerda — os mesmos que cuidaram de arruinar o Brasil na última década —, a Esplanada dos Ministérios, incluindo o Museu da República, a Biblioteca Nacional e a Catedral foram, mais uma vez, depredados e pichados por bandos de arruaceiros convocados em várias partes do país para, segundo querem fazer crer, protestar contra a PEC dos gastos públicos e a reforma do ensino médio.
As manifestações violentas deixaram, além de um rastro de destruição material, com prejuízos de milhões de reais para o contribuinte, uma forte suspeita de que foram e estão sendo perpetrados ante as perspectivas desses mesmos grupos virem a perder o dinheiro farto, que, por muitos anos, inundou os cofres dessas entidades parasitas.
Além disso, esses e outros protestos do gênero escondem o fato de que, na verdade, buscam o caos , por meio da agitação das massas e da criação de um ambiente propício para uma convulsão social desenfreada.
(Abro aqui um parêntese para registrar o pulso do senador Renan Calheiros, que não permitiu que a baderna adentrasse pelas galerias da Casa. Viu que a professora Glaucia Morelli havia entrado com um senador da casa. Tentamos contato com o Sr. Weiller Diniz para confirmar que senador a havia acompanhado, mas não obtivemos sucesso sobre o parlamentar).
Dessa forma, por meio da desestabilização do Estado democrático de direito, o que esses agitadores pretendem de fato é enfraquecer o governo Temer e, na sequência, obrigar a convocação de novas eleições para, quem sabe, trazer de volta a mesma gente que infelicitou a grande maioria dos brasileiros e jogou o país nesse fosso instável.
Nessa nova investida dos vândalos contra o patrimônio que é de todos, foi usada uma nova estratégia que é a de atribuir a membros do próprio governo e a uma direita raivosa os atos de depredação e de enfrentamento com a polícia, de modo a lançar no colo alheio a insânia cometida contra a capital. A polícia, que, em casos como este, fica pisando em ovos, para não ser acusada de fabricar um mártir cadáver, deixou escapar a oportunidade de identificar cada um desses bárbaros e, entre outras providências legais, enviar para o endereço certo a conta total dos estragos, inclusive os danos morais sofridos por toda a população brasiliense.
A frase que não foi pronunciada
“É possível, sim, ser eleito sem dinheiro. É só fazer o que fala.”
Eleitor do Reguffe, que conquistou os votos pela ação.
Orgulho
» Entre os homenageados pela Câmara dos Deputados com o Mérito Legislativo está Silvio Avelino da Silva, servidor da Câmara desde os 15 anos de idade. Ele entrou para a Casa por um programa para menores. Iniciou a carreira brilhante como mensageiro. Passou a datilógrafo e daí galgou sua vida profissional até chegar a secretário-geral da Mesa, um dos cargos mais importantes do Legislativo. Nosso reconhecimento e agradecimento pelo exemplo dado às próximas gerações.
Na bucha
» Em um dos depoimentos na Polícia Federal, apareceu a seguinte história. Alguém queria nomear um diretor na época em que José Eduardo Dutra era presidente da estatal. Ao ser questionado pelo então presidente Lula sobre a razão do tal diretor não ter sido nomeado, segundo Dutra, não fazia parte da tradição da Petrobras ficar trocando diretores. Ao que Lula sem pestanejar respondeu: “Se fosse pela tradição nem você seria presidente da estatal nem eu seria presidente da República”.
Consome dor
» A operadora de celular Claro fez mais de 34 ligações para um único cliente, do número 3130482700 em dois dias. Uma pessoa pergunta se o cliente está ouvindo e passa para uma gravação que oferece novos produtos.
História de Brasília
Finalmente, uma advertência. O governo novo se inicia sob um novo regime político, e sua base, seu sucesso, depende, também, da maneira como é tratada a coisa pública. (Publicado em 19/9/1961)
DESDE 1960 »
ARI CUNHA
com Circe Cunha e MAMFIL
Em nome de um modelo de democracia que parece interessar apenas a grupos como a CUT, MST, UNE e outros grupelhos que orbitam os partidos de esquerda — os mesmos que cuidaram de arruinar o Brasil na última década —, a Esplanada dos Ministérios, incluindo o Museu da República, a Biblioteca Nacional e a Catedral foram, mais uma vez, depredados e pichados por bandos de arruaceiros convocados em várias partes do país para, segundo querem fazer crer, protestar contra a PEC dos gastos públicos e a reforma do ensino médio.
As manifestações violentas deixaram, além de um rastro de destruição material, com prejuízos de milhões de reais para o contribuinte, uma forte suspeita de que foram e estão sendo perpetrados ante as perspectivas desses mesmos grupos virem a perder o dinheiro farto, que, por muitos anos, inundou os cofres dessas entidades parasitas.
Além disso, esses e outros protestos do gênero escondem o fato de que, na verdade, buscam o caos , por meio da agitação das massas e da criação de um ambiente propício para uma convulsão social desenfreada.
(Abro aqui um parêntese para registrar o pulso do senador Renan Calheiros, que não permitiu que a baderna adentrasse pelas galerias da Casa. Viu que a professora Glaucia Morelli havia entrado com um senador da casa. Tentamos contato com o Sr. Weiller Diniz para confirmar que senador a havia acompanhado, mas não obtivemos sucesso sobre o parlamentar).
Dessa forma, por meio da desestabilização do Estado democrático de direito, o que esses agitadores pretendem de fato é enfraquecer o governo Temer e, na sequência, obrigar a convocação de novas eleições para, quem sabe, trazer de volta a mesma gente que infelicitou a grande maioria dos brasileiros e jogou o país nesse fosso instável.
Nessa nova investida dos vândalos contra o patrimônio que é de todos, foi usada uma nova estratégia que é a de atribuir a membros do próprio governo e a uma direita raivosa os atos de depredação e de enfrentamento com a polícia, de modo a lançar no colo alheio a insânia cometida contra a capital. A polícia, que, em casos como este, fica pisando em ovos, para não ser acusada de fabricar um mártir cadáver, deixou escapar a oportunidade de identificar cada um desses bárbaros e, entre outras providências legais, enviar para o endereço certo a conta total dos estragos, inclusive os danos morais sofridos por toda a população brasiliense.
A frase que não foi pronunciada
“É possível, sim, ser eleito sem dinheiro. É só fazer o que fala.”
Eleitor do Reguffe, que conquistou os votos pela ação.
Orgulho
» Entre os homenageados pela Câmara dos Deputados com o Mérito Legislativo está Silvio Avelino da Silva, servidor da Câmara desde os 15 anos de idade. Ele entrou para a Casa por um programa para menores. Iniciou a carreira brilhante como mensageiro. Passou a datilógrafo e daí galgou sua vida profissional até chegar a secretário-geral da Mesa, um dos cargos mais importantes do Legislativo. Nosso reconhecimento e agradecimento pelo exemplo dado às próximas gerações.
Na bucha
» Em um dos depoimentos na Polícia Federal, apareceu a seguinte história. Alguém queria nomear um diretor na época em que José Eduardo Dutra era presidente da estatal. Ao ser questionado pelo então presidente Lula sobre a razão do tal diretor não ter sido nomeado, segundo Dutra, não fazia parte da tradição da Petrobras ficar trocando diretores. Ao que Lula sem pestanejar respondeu: “Se fosse pela tradição nem você seria presidente da estatal nem eu seria presidente da República”.
Consome dor
» A operadora de celular Claro fez mais de 34 ligações para um único cliente, do número 3130482700 em dois dias. Uma pessoa pergunta se o cliente está ouvindo e passa para uma gravação que oferece novos produtos.
História de Brasília
Finalmente, uma advertência. O governo novo se inicia sob um novo regime político, e sua base, seu sucesso, depende, também, da maneira como é tratada a coisa pública. (Publicado em 19/9/1961)
DESDE 1960 »
jornalista_aricunha@outlook.com
com Circe Cunha com MAMFIL
Durante os anos que antecederam a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder e mesmo ao longo dos primeiros anos do governo Lula, a imprensa, de um modo geral, vivia uma espécie de lua de mel com a legenda e com a maioria dos movimentos sociais de esquerda. A coisa parecia natural, pois havia, por parte dos jornalistas mais jovens e mesmo pela geração dos anos de chumbo, uma relativa esperança de que, afinal, o Brasil resolveria, de vez, os graves e seculares problemas de desigualdade social.
A subida da rampa do Planalto pelos partidos de esquerda tinha sido aguardada e adiada desde os anos 1960. Durante o regime militar, esse sonho ficara guardado em segredo por muitos anos. Havia, portanto, uma grande expectativa com a vitória das esquerdas. Não se passaram nem cinco anos e as relações começaram a desandar. O ano de 2005 marca um ponto de viragem nesse romance.
Com a eclosão do escândalo do mensalão, começaram a aparecer as primeiras contradições dentro de um movimento que todos acreditavam e apostavam como moralizador e saneador do Estado. À medida que a imprensa livre investigava e passava a seguir as inúmeras pistas, aumentavam os sinais de fadiga, que levariam a uma espécie de rompimento forçado e definitivo.
A cada enxadada no solo, uma minhoca, a cada pena puxada, surgia uma galinha inteira. Contradições atrás de contradições, desmentidos constantes e, por fim, o divórcio litigioso opondo mídia livre de um lado e o PT e os movimentos sociais, de outro. Estabelecida a cizânia, restou ao partido no poder buscar na cartilha das táticas de guerrilha ou algo do gênero, a melhor estratégia para deter o avanço da imprensa sobre os fatos que não paravam de aparecer.
O ardil escolhido, aquele que parecia trazer melhores resultados para defender o partido das manchetes diárias escandalosas, foi, além da adoção de uma sistemática difusão de calúnias contra a imprensa, feita pelos chamados blogs sujos, custeados, obviamente, com dinheiro público, a colocação de boa parte dessa mesma imprensa como inimigo declarado do PT. Passou-se então a segunda fase desse estratagema, com a incitação aberta para que os simpatizantes que ainda permaneceram sob a órbita do partido atacassem e agredissem, sem tréguas, os profissionais de toda a imprensa hostil ao PT.
Alcunhada com o epônimo de mídia golpista, a ordem das lideranças do partido foi baixar o pau na imprensa, perseguir e espancar jornalistas, repórteres, cinegrafistas e fotógrafos e todos que ousassem criticar a legenda e seu líder máximo. No entanto, a tática de transformar a imprensa em alvo, como a maioria das decisões autocráticas desse partido, provocou um efeito contrário: quanto mais atacam a mídia, mais a população vai percebendo quanto risco todo o país correu, caso essa turma ficasse, como pretendia, décadas no poder.
A frase que não foi pronunciada
“Ao ouvir a opinião dos ministros do STF sobre o aborto, pensei logo. Imaginem se a mãe deles pensasse da mesma forma! Se as Excelências tiveram a chance de viver, não deveriam privar outros seres humanos da mesma oportunidade”.
Dona Dita, lendo sobre o caso do aborto em Xerém.
Malhete
Inacreditável que, com o aparato tecnológico que temos hoje, depois de 200 mil anos de vida humana na Terra, os ministros da Suprema Corte brasileira nunca tenham assistido no YouTube vídeos retratando o pavor de um aborto. O Brasil só faz questão de se igualar aos países desenvolvidos no que é negativo. Isso é fato.
Desenvolvido
Por que o Brasil não imita os países desenvolvidos para proteger a população dos agrotóxicos, do sal e do açúcar? Por que não imita a mobilidade nas cidades modernas? Por que não adota a legislação contra a corrupção adotada no Japão? Por que não revê o direito penal e os procedimentos processuais para imitar os Estados Unidos?
Máxima Vênia
Disse a ministra Cármen Lúcia que criminalizar juiz é tática da ditadura. Mas e quando ministros da mais alta corte do país autorizam o cometimento de um crime? O que pensar? Permitir o aborto no primeiro trimestre da gravidez, matando um ser humano indefeso com a anuência do STF, é mais absurdo que a ditadura. Pelo menos as vítimas que sobreviveram nos anos de chumbo tiveram a chance de descrever o horror que sofreram.
Laqueadura
“É dominante, no mundo democrático e desenvolvido, a percepção de que a criminalização da interrupção voluntária da gestação atinge gravemente diversos direitos fundamentais da mulher, com reflexos visíveis sobre a dignidade humana”, disse o ministro Barroso. Isso quer dizer que arrancar um filho do útero é postura digna? Então um conselho de notáveis toma a decisão de que interromper a gravidez é parte de um mundo democrático e fundamenta a defesa nos direitos da mulher e dignidade humana? Entende-se que o ventre da mãe está fora do espaço para a dignidade?
Inerente
“O tempo e as coisas não param. Os avanços alcançados pela sociedade são progressivos. Inconcebível, no campo do pensar, é a estagnação. Inconcebível é o misoneísmo.” Na fala do ministro Marco Aurélio de Mello, fica a certeza de que ele não aproveitou o aparato tecnológico para assistir no YouTube um aborto com um mês de vida, dois ou em qualquer idade da criança. Sim. Porque não adianta dizer que um ser humano ainda não nascido não é ser humano.
História de Brasília
O fato de o senhor ser alto funcionário, e ter sob sua guarda um carro do Estado, não implica em que sua mulher, suas irmãs, sua namorada ou suas parentas aprendam a dirigir no carro que não lhe pertence. (Publicado em 19/09/1961)

