A dormência moral de um povo: da indignação à apatia

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Foto: veja.abril.com

Houve um tempo em que a corrupção, ao vir à tona, ainda provocava náusea. O escândalo, quando exposto, gerava, no brasileiro médio, um sentimento de traição – como se houvesse sido pessoalmente lesado por um pacto quebrado entre governantes e governados. Em 16 de agosto de 1992, bastou que a imprensa revelasse um esquema de propinas envolvendo o presidente Fernando Collor para que se assistisse a um espetáculo coletivo de rejeição moral: Collor conclamou que o povo brasileiro se manifestasse a favor de seu mandato e vestisse verde e amarelo. O povo, envergando preto, saiu às ruas em passeata fúnebre pela democracia. O símbolo máximo daquela indignação foi o esvaziamento simbólico do Palácio da Alvorada – móveis retirados e expostos no jardim como um inventário público da queda. Uma imagem poderosa o suficiente para gravar-se no imaginário nacional. A moral ainda era uma força política.

Há algo de profundamente revelador no modo como uma sociedade reage — ou não reage — ao seu próprio espólio. A história recente do Brasil oferece um contraste gritante entre duas épocas e dois escândalos: de um lado, a comoção nacional provocada por um carro popular — um Fiat Elba — e por uma reforma paisagística na Casa da Dinda; de outro, o silêncio espesso diante do furto sistemático de bilhões de reais do Instituto Nacional do Seguro Social, o último reduto da esperança para milhões de brasileiros que ainda acreditam envelhecer com dignidade.

Em 1992, Fernando Collor foi derrubado não apenas por seus atos, mas pela capacidade de indignação de um povo que, até então, ainda parecia reconhecer a gravidade simbólica do abuso. A apreensão do Fiat Elba, cuja compra fora vinculada ao tesoureiro de campanha Paulo César Farias, funcionou como um estopim moral. Comparemos esse episódio a outro, recente, cujas proporções financeiras fazem do escândalo Collor um delito pueril: a fraude desvendada pela Operação Sem Desconto, que expôs um rombo de R$ 6,3 bilhões nos cofres do INSS. Sim, bilhões — com “b”. O equivalente a dezenas de milhares de Fiat Elbas, saqueados com método e precisão ao longo de cinco anos.

O critério de comparação já não serve, pois perdeu sua escala. A régua moral com que se mediam os escândalos do passado tornou-se obsoleta diante da magnitude abissal dos saques recentes. É preciso substituir o referencial: já não estamos lidando com desvios pontuais, mas com uma pilhagem institucionalizada que se equipara — se somados os escândalos do mensalão, petrolão e INSS — à drenagem de ouro perpetrada pela Coroa Portuguesa ao longo de três séculos de colonização. A corrupção contemporânea não apenas rivaliza com o saque colonial — ela o atualiza, o automatiza e o blinda sob o verniz da legalidade republicana.

O povo brasileiro, submetido há décadas a uma repetição incessante de escândalos, tornou-se refratário ao espanto. A corrupção deixou de ser a exceção e passou a ser a regra – e como toda regra internalizada, deixou de provocar indignação. O cidadão comum já não acredita na eficácia da denúncia, nem na punição dos culpados. A desconfiança não gera revolta, mas apatia.

Esse fenômeno tem nome: dessensibilização moral. É o processo pelo qual a exposição contínua ao escândalo mina a capacidade de julgamento ético. Em contextos de guerra ou de catástrofes humanitárias, esse entorpecimento psíquico costuma ser estudado sob o nome de “fadiga de compaixão”. No Brasil, o que se observa é uma “fadiga de indignação”: o sujeito já não reage ao grotesco porque aprendeu a conviver com ele. E nisso, reside o triunfo dos maus: não na vitória ideológica, mas na exaustão emocional do adversário. O que se vê é uma espécie de coma cívico, uma erosão progressiva da sensibilidade coletiva. O que antes indignava, agora apenas arranca um muxoxo resignado. A corrupção, em sua escala industrial, já não assusta — ela embota. Torna-se paisagem. O brasileiro, educado pela repetição da tragédia, aprendeu a viver entre os escombros como quem mora ao lado de um lixão: com as janelas fechadas e o nariz acostumado.

É preciso reconhecer que o golpe não é apenas financeiro; é simbólico. Se o confisco das poupanças em 1990 subtraiu, da classe média, um pedaço de sua autonomia, o assalto ao INSS hoje é mais perverso: rouba dos pobres a promessa do futuro. A aposentadoria, que deveria ser o amparo final de uma vida inteira de trabalho, tornou-se mais um jogo de azar num Estado que já não protege, apenas cobra.

Mas o que se torna verdadeiramente insuportável é o silêncio. A ausência de qualquer consequência política, a continuidade da máquina como se nada houvesse ocorrido, a blindagem dos envolvidos, a indiferença midiática — tudo isso compõe um retrato preciso do Brasil de hoje. Um país onde o escândalo perdeu o escândalo. Onde até a raiva foi domesticada.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Depois de tanto tempo, podemos juntos, desabafar”

Fernando Collor de Mello

Fernando Collor de Mello. Foto: VEJA/Dedoc

 

História de Brasília

O mesmo poderá ser feito na W1, no bambolê da Igrejinha onde quem ajuda as crianças é um motorista de idade, de cabeça branca, que dirige um Impala. Quando êle está no ponto, é quem controla o trânsito para defender as crianças. (Publicada 04.05.1962)

Brasília e o sonho que persiste no concreto

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Centro de Brasília: Foto: reprodução da internet

 

Há cidades que apenas crescem, e há cidades que carregam consigo a vocação de pensar o mundo. Brasília, com todas as suas contradições, pertence ao segundo grupo. Desde o primeiro risco no papel de Lucio Costa até a última curva branca traçada por Niemeyer, a capital federal jamais foi apenas um conjunto de edifícios — foi ideia, gesto simbólico, tentativa. Agora, mais uma vez, ela se prepara para sediar uma conversa sobre o futuro. Nessa última terça-feira (27), o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-DF) foi palco do lançamento da 4ª edição do Fórum Mundial Niemeyer, um evento que convidou arquitetos, urbanistas, engenheiros, juristas e pensadores a discutirem os rumos da cidade contemporânea.

A proposta não poderia encontrar cenário mais sugestivo. Brasília é, ao mesmo tempo, modelo e advertência. Seu desenho monumental, pensado para projetar a racionalidade administrativa do país, convive com os desafios reais de uma metrópole desigual e fragmentada. Ela inspira tanto quanto desconcerta. Talvez por isso, a escolha da capital para dar início às reflexões do Fórum carrega mais do que valor simbólico — é um convite a revisitar as promessas do passado à luz das urgências do presente.

Nesta edição, o tema gira em torno das “cidades do futuro e da sociedade”. E se há algo que o Brasil precisa cultivar é a capacidade de imaginar futuros. Falar de urbanismo, hoje, não é apenas tratar de infraestrutura, mas de convivência, bem-estar, pertencimento. É discutir como o espaço molda relações e como as decisões técnicas podem — e devem — dialogar com as demandas humanas. A presença do ministro Gilmar Mendes, por exemplo, empossado como vice-presidente de honra do Instituto Niemeyer, reforça essa interseção entre o urbano e o jurídico, entre forma e norma, entre chão e instituição.

Mas não se trata de um fórum voltado apenas à elite técnica ou acadêmica. O gesto de tornar o evento gratuito e aberto ao público (ainda que com vagas limitadas) sinaliza o desejo de incluir a sociedade nessa conversa. Uma cidade justa começa por uma cidade que escuta. E o Fórum, com seu espírito de encontro e troca, oferece uma rara oportunidade de pensar a cidade como bem comum, como construção coletiva e não apenas obra finalizada.

É fácil esquecer, diante dos impasses da política ou da pressa cotidiana, que a cidade em que vivemos é também uma narrativa. Cada praça, cada viaduto, cada eixo ou sombra projetada conta uma história sobre quem fomos e quem gostaríamos de ser. E Brasília, com sua monumentalidade quase onírica, ainda provoca a imaginação coletiva. Nela, o urbanismo flerta com a utopia, a engenharia conversa com o direito e a arquitetura tenta, às vezes com sucesso, às vezes com descompasso, desenhar uma ideia de país.

Eventos da magnitude e da relevância do Fórum Mundial Niemeyer talvez não possam solucionar magicamente todos os intrincados dilemas que afligem as cidades contemporâneas — as persistentes desigualdades socioespaciais, os desafios ambientais que clamam por soluções urgentes, as complexas questões de mobilidade e acessibilidade, entre tantos outros. Contudo, sua importância reside precisamente em nos recordar, de maneira contundente, da necessidade inadiável de manter acesa a chama da indagação, de continuar formulando as perguntas essenciais que nos impelem a refletir criticamente sobre o espaço que habitamos e que molda nossas vidas. Como conciliar a imperiosa necessidade de preservar a identidade singular de nossos centros urbanos com as inevitáveis dinâmicas da mudança e da inovação? Como promover um crescimento urbano que seja simultaneamente sustentável e inclusivo sem obliterar as marcas significativas do que já existe, da história inscrita em cada rua e em cada edifício?

Em tempos particularmente suscetíveis à prevalência do pragmatismo e à atração pela tecnocracia como solução universal, a capacidade de formular essas perguntas e de manter vivo o debate sobre os rumos do urbanismo representa, em si mesma, uma demonstração de resistência intelectual, uma afirmação da importância da reflexão crítica e da visão de longo prazo na construção de um futuro urbano mais promissor e equitativo.

Talvez seja esse o legado mais importante de Niemeyer: a recusa em ver o espaço como mera função, e o insistente convite a enxergar beleza, simbolismo e política no desenho das coisas. Brasília ainda carrega essa centelha. Que o Fórum a reacenda — com ideias, não apenas homenagens.

 

A frase que foi pronunciada:
“Um cientista que também é um ser humano não deve descansar enquanto o conhecimento que pode reduzir o sofrimento repousa em uma estante”.
Albert Sabin

Albert Einsten. Foto: Arthur Sasse/Nate D Sanders Auctions/Reprodução

 

História de Brasília
Os pais dos alunos residentes nas casas da Caixa Econômica estão apavorados com a série de desastres ocorridos na W3 e pedem um guarda para ajudar as crianças na travessia daquela avenida. (Publicado em 04/05/1962)

Direito ao sono

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Foto: reprodução da internet

 

O projeto modernista de traços leves e horizontes abertos foi, pouco a pouco, coberto por uma sinfonia dissonante de latidos que não cessam — nem de dia, nem de noite. As casas, muitas delas antes silenciosas e integradas à paisagem verde do Cerrado, converteram-se em pequenas fortalezas sonoras, onde os verdadeiros senhores do território não são os moradores, mas seus cães. Os animais ocupam varandas, quintais, lajes e, com frequência, também a rua, numa espécie de domínio acústico irrestrito.

Não se trata, é evidente, de uma crítica à existência canina. Trata-se de uma crítica à irresponsabilidade. O problema não é o animal, mas o humano por trás da coleira. O cachorro late, uiva, reclama, sofre, pede atenção, denuncia abandono. E o dono, indiferente, silencia. Ou melhor, silencia para si, porque os vizinhos que lutem com o ruído incessante, nas madrugadas interrompidas, nos dias de trabalho invadidos por uma barulheira contínua que mina a paz, a paciência e, em casos extremos, a sanidade. Não tratamos aqui dos simpáticos cães que latem porque passa uma pessoa ou porque o caminhão de lixo atravessa a rua. Falamos dos neuróticos abandonados em casa.

O mais impressionante é que o fenômeno não distingue classe social. Dos bairros populares às regiões nobres — como o Lago Sul e o Lago Norte, autointitulados bastiões do bom viver —, o problema se repete. Cachorros isolados em quintais extensos, latindo por horas, ignorados por famílias inteiras que parecem ter desenvolvido uma forma avançada de audição seletiva. Tal como certos pais que não mais ouvem os gritos dos próprios filhos mimados em restaurantes ou aviões, os donos de cães perderam a sensibilidade auditiva — ou simplesmente deixaram de se importar com o desconforto alheio.

Em muitos casos, o cão, que era apenas um educado animal de guarda ou de fazenda, agora é promovido a filho substituto, herdeiro emocional de adultos solitários ou casais tardios. Em bairros de classe média e alta, esse fenômeno se manifesta com ainda mais intensidade: casas enormes, quintais ociosos e vínculos familiares rarefeitos demandam presença, e os cães — muitos, barulhentos, mimados — preenchem esse vazio com latidos que, se por um lado, quebram o silêncio da solidão; por outro, os impõem aos vizinhos. Trata-se, em última instância, de um sintoma moderno: o animal torna-se companhia afetiva, mas a coletividade paga o preço da ausência de limites, como numa metáfora viva da sociedade que prefere substituir o conflito pela acomodação ruidosa.

Essa normalização do incômodo é um sintoma. Um sintoma de uma cidade que foi sendo ocupada por uma cultura de permissividade egoísta, onde a liberdade de um termina não quando começa a do outro, mas quando o outro se cansa de reclamar. Reclamar, aliás, é inútil. Quem ousa fazê-lo, invariavelmente, recebe de volta um olhar de surpresa e desdém, como se apontar o óbvio — que o cachorro do vizinho está latindo sem parar desde às três da manhã — fosse um ato de agressão. “Mas ele é tão bonzinho…”, dizem, como se a doçura do animal anulasse o dano acústico causado por sua solidão vocalizada. Tão simples contratar alguém para educar o cão. Mas esse é um caso raro.

O problema central, como em tantos outros aspectos da vida pública brasileira, é a ausência de responsabilização. Há leis, há regulamentos, há códigos de postura municipal, todos solenemente ignorados. A fiscalização é rara, a denúncia é burocrática, a punição é improvável. A cidade acostumou-se a conviver com o barulho como se fosse parte do clima, como a seca ou o calor de setembro. E o pior: há quem considere normal. Como tudo que se repete sem freio, o anormal vira hábito.

O sujeito que se incomoda com o latido não pode reclamar: será visto como autoritário, insensível, ou pior, como “antipet friendly”. Já o dono do cão se arroga o direito de ser intocável, ainda que seu animal transforme a madrugada em suplício coletivo. No fundo, trata-se da mesma lógica que permite ao político furar fila no hospital, ao juiz exigir tratamento privilegiado no aeroporto ou ao empresário fechar a rua para a festa do filho: uma convicção enraizada de que o espaço público existe apenas para servir à vontade do indivíduo mais assertivo — ou mais barulhento. O latido, nesse contexto, é apenas o som ambiente de uma cultura em que o privilégio fala alto, e a responsabilidade, quase sempre, cala.

O que se observa, portanto, é um tipo de degradação do convívio urbano que escapa à análise imediata. É uma desorganização moral antes de ser uma desordem prática. Porque o que está em jogo não é apenas o direito ao silêncio, mas a capacidade de reconhecer que viver em sociedade impõe limites — inclusive aos afetos. Amar um animal não justifica submetê-lo ao isolamento nem permite ignorar os efeitos colaterais de sua presença ruidosa. O problema não são os cachorros: é a negligência travestida de afeto, é a falta de empatia travestida de liberdade.

Brasília se transforma não por excesso de cães, mas por escassez de civilidade. A cidade que nasceu para ser vitrine de um país moderno tornou-se, nesse aspecto, a caricatura do que há de mais arcaico: um espaço onde cada um faz o que quer dentro de seu lote, sem prestar contas ao entorno. Como se o muro bastasse para conter o som, a lei, o incômodo. E como sempre, o que falta não é norma — é aplicação. A paz urbana, como a democracia, exige vigilância constante. E, no caso dos cães, talvez um pouco de bom senso e consideração faria um grande efeito. Porque ninguém deveria precisar lutar pelo direito de dormir em silêncio na própria casa.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“O maior medo que os cães têm é o medo de que você não volte quando sair de casa sem eles.”
Stanley Coren , psicólogo canino

 

História de Brasília
Afora isto, deve-se procurar saber quem fez o pichamento, porque serão, certamente, pessoas que não desejam a permanência do sr. Sette Câmara na Prefeitura por motivos que ninguém sabe. (Publicada em 4/5/1962)

Não é a mamãe

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Imagem: TikTok/Reprodução

 

          Passado o Dia das Mães, fica o pensamento de que deveria ser celebrado aquilo que a modernidade pós niilista mais tenta negar: a vocação natural da mulher à maternidade, não como destino imposto, mas como potência sagrada. No entanto, os símbolos que antes sustentavam essa figura — a mãe como fundamento da civilização, transmissora de cultura e guardiã da infância — estão sendo sistematicamente desmontados um a um.

         A maternidade, outrora arquétipo de abnegação e continuidade, cede lugar a formas pálidas de vínculo: mães de pet, mães de planta, afeições projetadas sobre objetos inanimados ou domesticáveis. O fenômeno das mães de bonecas reborn é só o degrau mais grotesco dessa escada descendente.

         Essa substituição não é apenas caricata, mas reveladora. O cuidado real, antes voltado ao outro — imprevisível, demandante, transformador —, é, agora, investido no simulacro, no inofensivo, no que jamais nos confronta. A boneca, o cão vestido de bebê, o vaso tratado como filho não desafiam, não crescem, não possuem vontades. São o reflexo perfeito de uma era que rejeita a alteridade e sacraliza o conforto emocional.

         No coração dessa transfiguração está o aborto elevado a direito identitário — não apenas a interrupção de uma gestação, mas a negação simbólica da própria maternidade como valor. O corpo que gera passou a ser visto como cárcere. O filho, como ameaça à autonomia. O ventre, como espaço político que deve ser descolonizado. E assim, progressivamente, a mulher é exilada de si mesma, da sua potência geradora, em nome de uma emancipação que a torna, ironicamente, estéril.

         As consequências não são apenas privadas. A civilização que desacredita a maternidade implode por dentro. O Estado cresce para ocupar o vácuo deixado pelos lares esvaziados. A educação contemporânea reflete a mudança estrutural na família, com a ausência física das mães, que, ao buscarem independência e sustentar seus filhos, são impulsionadas a trabalhar fora de casa.

         Essa conquista social, embora positiva, resultou na terceirização do cuidado e da educação, fragmentando os laços familiares. A presença materna, essencial na construção de valores e vínculos afetivos, está sendo progressivamente substituída por instituições e profissionais, sem o mesmo calor humano. O preço dessa transformação é um processo de socialização cada vez mais impessoal, que desvia da profundidade dos laços familiares, impactando a formação emocional e afetiva das crianças.

         Já não se educa, não se sacrifica, não se transmite: apenas se consome experiências afetivas. A mãe reborn, nesse contexto, é o retrato kitsch de uma sociedade que substituiu o sangue pelo silicone, a biologia pela ideologia, o vínculo pela vaidade. E nos próximos Dia das Mães, nessa nova ordem simbólica, será convertido em data publicitária, em afeto performático — e, sobretudo, em silêncio: um silêncio que nos impede de nomear a tragédia cultural que se desenrola diante dos nossos olhos. Queira Deus que eu estejamos errados.

 

A frase que foi pronunciada:

“O fato de bebê reborn ter se tornado um assunto tão premente fala mais de nós do que das pessoas que têm esses bebês.”

Daniel Barros

Agência Senado

Caberá à União, estados, DF e municípios a tarefa de “zelar pela segurança cibernética de serviços públicos”, inclusive competência concorrente para legislar sobre normas de segurança cibernética aplicáveis à prestação de serviços públicos. O texto sobre o assunto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça.

 

Recado

Qualquer festividade na Praça dos Três Poderes terá que respeitar o piso de pedra portuguesa. As pessoas parecem não dar valor ao que é patrimônio da humanidade, coisa que se começa pela base.

Praça dos 3 Poderes. Foto: Tony Winston/Agência Brasília/Divulgação

 

Belo passeio

No portal turismomalunga.com.br, o brasiliense pode se inscrever para fazer visita turística no local. Sem complicações.

Foto publicada no site oficial da Fazenda Malunga

 

História de Brasília

Uma caravana de jornalistas de Brasília irá a Goiânia, nestes próximos dias, buscar a Carta Sindical da Associação Profissional, e o Delegado do Trabalho para que a carta seja assinada pelo Ministro Franco Montoro. (Publicada em 04.05.1962)

Uma única lei

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Charge do Ivan Cabral

Talvez bastasse, nesse cenário de barafunda nacional em que vamos penetrando, uma única lei direta que determinasse que: todo o funcionário do Estado ou do governo que vier a receber acima do teto constitucional fica obrigado a devolver essa diferença diretamente aos cofres públicos, sob pena de prisão. O que parece óbvio e está sempre debaixo do nariz de todos, quase sempre não é visto.

Ora, ora, o teto constitucional e a ética no serviço público é lei e está previsto no Artigo 37 da Constituição Federal.  Por outro lado, o respeito ao teto constitucional deveria ser um princípio inegociável do Estado Republicano. Não se trata apenas de uma medida de contenção de gastos, ainda que isso, por si só, já fosse justificável em um país com profundas carências sociais. O serviço público é um exercício de dever, e não uma arena de privilégios. Permitir que servidores recebam acima do teto, por meio de manobras legais ou benefícios acessórios acumulativos, desfigura esse ideal e ajuda a solapar um pilar do Estado que deve ser o da ética. Mais do que isso: rompe com o pacto federativo de igualdade e proporcionalidade entre os entes do Estado. Cria castas dentro da administração pública e alimenta uma cultura de impunidade e distorção institucional.

A criação de uma lei que determine a devolução obrigatória e imediata de qualquer quantia recebida acima do teto, com previsão de sanção penal em caso de descumprimento, seria, para nosso caso especial, um marco civilizatório. Enviaria um sinal claro de que a Constituição não é uma sugestão — é norma suprema. Reforçaria, também, o princípio da moralidade administrativa, previsto no próprio Artigo 37 da Carta Magna.

Não basta o controle externo de tribunais de contas ou os relatórios de órgãos de fiscalização. É preciso uma legislação simples, objetiva e exemplar, que funcione como um freio automático para a deterioração ética da máquina pública. Essa medida não é contra o servidor público, mas em favor do serviço público. É a favor de uma administração que volte a ser respeitada, que atue com eficiência, que honre seus compromissos com a sociedade e que coloque o interesse coletivo acima de arranjos corporativos.

Em tempos de desconfiança generalizada, corrigir distorções salariais no topo da estrutura estatal seria mais do que uma política pública: seria um gesto de reaproximação do Estado com sua base moral. Seria um recomeço. E, talvez, como sugerido, bastasse mesmo uma única lei, simples e direta, para apontar esse novo caminho.

A legitimidade das instituições públicas não se sustenta apenas em sua origem legal ou constitucional, mas na percepção social de que elas operam com justiça e equidade. Impedir de forma concreta os abusos salariais e privilegie a devolução imediata dos recursos aos cofres públicos devolveria às instituições o que mais têm perdido nas últimas décadas: o respeito da população em forma de bilhões de reais em mordomias e outros penduricalhos imorais. A repetição sistemática de escândalos envolvendo salários exorbitantes e “penduricalhos” serve para minar a relação sadia entre o cidadão e o Estado. A mensagem que se transmite é que o Estado existe para proteger uma elite burocrática, e não para garantir direitos e bem-estar à coletividade.

Ao cortar esse ciclo vicioso, a lei proposta atuaria como um gesto de reabilitação institucional. O Estado não é apenas um conjunto de normas, prédios e funcionários. É, sobretudo, uma entidade moral. Sua força reside na capacidade de ser percebido como justo, equilibrado e necessário. Um Estado que permite, ou até incentiva, a perpetuação de privilégios ilegítimos, desfigura-se. Torna-se disfuncional e desmoralizado.

Nesse contexto, a devolução obrigatória de salários acima do teto seria como aparar uma estrutura que cresceu torta por dentro,  restaurando a proporção entre o que se recebe e o que se entrega ao público. Restituiria o valor do serviço público como missão, e não como carreira de autopromoção. Existe um caminho para o Estado e seus operadores, em sua forma política. Nesse ponto é preciso também blindar o Estado da sanha política e do enxame de partidos a parasitá-lo. Chegamos então ao que interessa de fato: a reforma administrativa do Estado, talvez imposta por ato plebiscitário e popular, mais ao gosto do eleitor do que dos eleitos.

Essa proposta poderia funcionar como o estopim de um debate mais amplo sobre a reforma administrativa que o Brasil precisa — não apenas com foco em redução de gastos, mas em reconstrução do sentido ético da função pública. Trata-se de alterar a lógica da ocupação de cargos públicos: da estabilidade mal utilizada à responsabilidade com desempenho; do privilégio ao mérito real; do clientelismo à eficiência e à transparência. Se bem conduzida, poderia ser a primeira peça de um novo pacto entre Estado e sociedade.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“A visão do governo sobre economia pode ser resumida em frases curtas: se a coisa se move, taxe-a; se continuar em movimento, regule-a; se ela parar de se mover, subsidie-a.”

Ronald Reagan

Ronald Reagan. Retrato Oficial

 

História de Brasília

Não repercutiu bem a campanha de pichamento da cidade pedindo Sette Câmara para Primeiro Ministro. Aliás, estas campanhas à base do piche não dão certo. Exemplo: Vital é Vital ; Queremos votar; JK-65; e Edmilson para o Gama. Foram campanhas à base do piche que ficaram no esquecimento. (Publicada em 04.05.1962)

Democracia, sigilos e segredos

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Charge do Baggl

 

Tomando como base o fato de que uma democracia verdadeira só pode ser aquela em que a transparência é o principal pilar desse regime, vemos que há mais de um ano o governo vem impedindo que mais de 16 milhões de documentos cheguem ao conhecimento do público. Entre esses documentos sigilosos, estão aqueles referentes a obras públicas, aos gastos com ONGs e aos repasses do orçamento para as bases eleitorais dentro do que ficou conhecido por emendas secretas.

A transparência é o pilar de uma democracia saudável. No entanto, hoje há críticas por práticas que comprometem esse princípio. Em 2023, o Governo Lula impôs sigilo de 100 anos a 1.339 pedidos de acesso à informação, número superior ao registrado no último ano do Governo Bolsonaro. Esses sigilos foram justificados com base na proteção de “dados pessoais”, abrangendo informações como a agenda da primeira-dama, Rosângela da Silva (Janja), e comunicações diplomáticas sobre o ex-jogador Robinho. Apesar de prometer maior transparência durante a campanha eleitoral, a gestão atual manteve o nível de recusa nos pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) semelhante ao da administração anterior.

O chamado orçamento secreto, prática iniciada em 2020, continuou a ser uma fonte de preocupação. Em 2021, estima-se que cerca de R$ 16 bilhões foram destinados a projetos definidos por parlamentares sem a devida identificação. Essa falta de transparência na destinação de verbas públicas dificulta o controle social e pode favorecer práticas clientelistas. Em 2024, o governo Lula pagou R$ 23 bilhões em emendas parlamentares, com algumas cidades de pequeno porte recebendo valores desproporcionais à sua população. Por exemplo, a cidade de Mar Vermelho, em Alagoas, com apenas 3 mil habitantes, recebeu R$ 6,4 milhões em emendas.

A falta de transparência e o uso excessivo de sigilos comprometem a capacidade da sociedade de fiscalizar o poder público, essencial para o funcionamento de uma democracia. A imposição de sigilos de 100 anos a informações de interesse público impede o escrutínio necessário para coibir abusos e promover a accountability. Além disso, a continuidade de práticas como o orçamento secreto e a destinação de emendas parlamentares sem critérios claros reforçam a opacidade na gestão dos recursos públicos, dificultando a identificação de possíveis irregularidades e o combate à corrupção.

As ações do governo Lula em relação à transparência têm gerado preocupações legítimas sobre o comprometimento com os princípios democráticos e a necessidade de fortalecer os mecanismos de controle e acesso à informação no Brasil. O problema ao esconder esses documentos da população é que aumentam as dúvidas e as apreensões sobre a possível utilização do dinheiro público em atividades cuja finalidade não é de conhecimento da sociedade, que é, afinal, quem banca essa gastança.

Primordialmente, o que se deseja saber é para onde estão indo os recursos da nação. O próprio sentido de República, como “coisa pública”, é afrontado com medidas impondo silêncio sobre o que é feito no presente. Passado alguns anos, esses sigilos podem ser quebrados, já que, à essa altura, não haverá ninguém para ser responsabilizado. Pois como repetia o filósofo de Mondubim: “Justiça tardia, não é justiça”.

A imposição de sigilos prolongados impede que a sociedade tenha acesso a informações essenciais para o controle das ações governamentais. Como destacado, “Justiça tardia não é justiça”, e a postergação do acesso a dados públicos pode resultar na impunidade de eventuais irregularidades. Além disso, a manutenção de práticas odiosas, como é o caso do orçamento secreto e a destinação de emendas parlamentares sem critérios claros, reforça ainda mais a opacidade na gestão dos recursos públicos, dificultando a identificação de possíveis irregularidades e o combate à corrupção.

A imposição de mais sigilos, nesse que é o terceiro governo de Lula, em mais de 20 anos de petismo, acende a luz vermelha, que indica que mais uma leva de escândalos está a caminho.

 

A frase que foi pronunciada:
“Sem transparência, não há democracia.”
Presidente Lula

Foto: Reprodução

 

Marco Zero
Obras sempre dão alegria no dia em que começam e no dia em que terminam. Mas o que faz a população da cidade perder a paciência é o tempo demasiado de transtorno gerando filas de carros em mais de seis quadras. O horário de trabalho também é um mistério.

Obras na Epig. Foto: Divulgação/SODF

História de Brasília
Uma caravana de jornalistas de Brasília irá a Goiânia, nestes próximos dias, buscar a Carta Sindical da Associação Profissional e o delegado do Trabalho para que a carta seja assinada pelo ministro Franco Montoro. (Publicada em 04/05/1962)

A dança macabra

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Charge: “Lawrence Journal-Word”, de 13 de outubro

A possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial tem sido objeto de crescente preocupação em 2025, impulsionada por uma combinação de fatores geopolíticos, tecnológicos e sociais. Pelo panorama global, as tensões crescentes já são uma realidade que vai sendo construída peça por peça. O cenário internacional atual é marcado por múltiplos conflitos simultâneos e uma crescente fragmentação da ordem mundial.

Exemplos podem ser conferidos agora no Conflito Rússia-Ucrânia, uma guerra contínua intensa, com a Rússia utilizando mísseis hipersônicos e drones, enquanto a Ucrânia realiza ataques com drones em território russo, incluindo Moscou. Também já anda tenso o conflito Índia-Paquistão. Lembrando que, em maio de 2025, a Índia lançou a “Operação Sindoor” contra alvos no Paquistão, resultando em retaliações e dezenas de mortos. Este conflito marcou a primeira guerra de drones entre duas nações com armas nucleares. No Oriente Médio, a escalada entre Israel e Irã, com envolvimento de grupos como o Hezbollah, aumenta o risco de um conflito regional mais amplo. Existem ainda tensões entre os EUA e a China, com disputas comerciais e militares no Indo-Pacífico, especialmente em torno de Taiwan e do Mar do Sul da China, criando assim uma extensa e complicada região que tem se mantido em alerta máximo nesses últimos anos. Observa-se, ainda, o chamado “Eixo da Revolta”, que vem a ser uma Nova Aliança crescente entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte. Essa aliança, mesmo informal, busca desafiar a ordem global liderada pelo Ocidente, coordenando esforços militares, econômicos e diplomáticos.

Todos esses acontecimentos simultâneos fazem andar o Relógio do Juízo Final, que já indica um Alerta Máximo. O Relógio do Juízo Final, que simboliza a proximidade de uma catástrofe global, foi ajustado em 2025 para 23h58min31s, o mais próximo da meia-noite desde sua criação.

Fatores como a guerra na Ucrânia, tensões nucleares e o uso de inteligência artificial em armamentos contribuíram para esse ajuste. Segundo prevê a própria ferramenta tecnológica, denominada Inteligência artificial e com base numa série de dados dispostos em sua memória, há um Risco de Escalada de uma guerra generalizada. Estudos indicam que modelos de linguagem avançados podem adotar comportamentos em escalas crescentes e em simulações de conflitos, incluindo decisões de primeiro ataque nuclear. Isso levanta preocupações sobre o uso de IA em decisões militares e diplomáticas de alto risco.

A percepção pública também indica a existência de um medo generalizado, nos quatro cantos do mundo, de um conflito de grande envergadura. Pesquisas revelam que entre 41% e 55% dos cidadãos em países europeus e 45% nos EUA consideram provável uma Terceira Guerra Mundial nos próximos 5 a 10 anos. Além disso, a maioria acredita que tal conflito envolveria armas nucleares e causaria mais mortes que a Segunda Guerra Mundial. Embora não haja uma previsão definitiva de uma Terceira Guerra Mundial, o acúmulo de conflitos regionais, alianças estratégicas desafiadoras e avanços tecnológicos em armamentos aumentam, significativamente, os riscos de uma escalada global. A vigilância internacional, a diplomacia eficaz e o controle sobre tecnologias emergentes são, aparentemente, essenciais para evitar um conflito de proporções mundiais.

Aliás, em termos de diplomacia, o nosso século parece ser ainda mais carente do que no passado. A distância e o tempo que separa essa nova geração dos conflitos ocorridos durante a Segunda Grande Guerra tem feito com que as pessoas percam a real dimensão do horror representado por um conflito de grande porte, onde o inimigo passa a estar em toda a parte. A Segunda Guerra Mundial terminou há quase 80 anos. A maioria das pessoas que vivenciaram diretamente seus horrores não está mais viva. O que restam são memórias institucionalizadas – em museus, livros didáticos e discursos oficiais – mas cada vez mais distantes da experiência emocional coletiva.

Gerações pós-Guerra cresceram em relativa estabilidade, especialmente no Ocidente, sem vivenciar bombardeios, racionamentos ou genocídios em larga escala. A guerra passou de um trauma vivido a um tema de filmes e séries, muitas vezes romantizado ou transformado em espetáculo.

Essa desconexão com o passado faz com que o horror de um conflito total seja subestimado ou visto como uma abstração, o que torna a sociedade mais vulnerável à aceitação passiva de discursos belicistas. O que se vê é uma diplomacia enfraquecida, multipolarizada e caótica, pois, comparando com o pós-guerra, observa-se que as instituições multilaterais (como a ONU) estão, nesse momento dramático de nossa história, enfraquecidas, sem autoridade real para prevenir ou punir agressões. A diplomacia multilateral – antes valorizada durante a Guerra Fria como meio de contenção – hoje dá lugar a ações unilaterais, guerras híbridas e alianças de ocasião. O mundo está cada vez mais multipolar, com potências regionais (Rússia, China, Turquia, Irã) desafiando normas internacionais.

Há uma crise de confiança generalizada: líderes populistas tendem a demonizar a diplomacia, tratando-a como fraqueza, e a valorizar a força como instrumento de afirmação nacional. Enfim temos um cenário que vai se armando ao fundo, pronto para que o drama da guerra possa atuar, mostrando a dança macabra das foices.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“A guerra assume tantos disfarces que às vezes é chamada de paz.”

Drummond

Carlos Drummond de Andrade. Foto: Arquivo Nacional

 

História de Brasília

É preciso que a Associação Profissional se transforme logo em sindicato para extinguir a picaretagem que está se espalhando demais em Brasília. Agora, fundaram uma tal de Associação dos Profissionais de Imprensa Periódica de Brasília, que está vendendo “carteirinha” a dez mil cruzeiros. (Publicada em 04.05.1962)

Putin empurra a Rússia a uma posição marginal

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          Do ponto de vista internacional, a Rússia comprou também uma guerra econômica ao decidir invadir a Ucrânia. As sanções contra aquele país não param de crescer, embora tenha quem afirme que Moscou não está nem aí para essas restrições e segue a vida. Do ponto de vista teatral, o governo russo faz o que pode para induzir o Ocidente a acreditar que sanções não irão parar a máquina de guerra de Putin. Na realidade, o que acontece, e pouca gente sabe, é que essa invasão a um país soberano levou as tropas russas e o próprio governo de encontro a um imenso atoleiro, nas traiçoeiras areias movediças da Ucrânia.

         A credibilidade do país foi reduzida à metade. Rússia, hoje, vale-se da ajuda e da intermediação de países periféricos, formado, na sua grande maioria, por Estados não democráticos. Até agora, a saída buscada pelos russos é feita à moda pirata. Na contramão dos tratados, burlando a vigilância do Ocidente, numa posição até certo ponto vexatória para um país com a riqueza histórica e cultural que a Rússia sempre foi. Putin levou seu país para a marginalidade internacional. De quebra, conseguiu para si um mandato internacional onde o acusam de crimes de guerra.

         Mas, longe do que se pode crê, a Rússia ou seu governo está longe da figura apresentada no filme: “O rato que ruge”, de 1959, com Peter Seller no papel do comandante do pequeno Grão-Ducado que declara guerra aos Estados Unidos, na esperança de receber ajuda financeira, após a derrota certa. Putin ruge à frente do arsenal atômico assustador. Por outro lado, o sistema financeiro russo, que poderia servir de ponte entre Moscou e o resto do Ocidente, há muito não goza de boa reputação das mais transparentes.

         O sistema bancário russo, comandado também por Putin e exilado do sistema internacional de bancos, teria servido, segundo diversas investigações, para guardar dinheiro vindo da corrupção praticada por ditadores em várias partes do mundo, além do dinheiro vindo do tráfico de armas, drogas e pessoas. A afirmação de que o sistema bancário russo, sob influência direta de Vladimir Putin, foi utilizado para ocultar dinheiro oriundo de corrupção, tráfico de armas, drogas e pessoas por ditadores de vários países é coerente com dados concretos, investigações internacionais e relatórios financeiros.

         Embora parte dessas operações ocorra no nível de oligarquias e bancos específicos, há fortes evidências de conivência, proteção estatal e utilização do sistema financeiro russo como canal de lavagem de dinheiro em escala global.

         Um panorama factual, dividido em tópicos e com base em fontes diversas garante que documentos como Panama Papers, FinCEN Files, União Europeia, OCCRP (Organized Crime and Corruption Reporting Project) necessitam ainda, além das investigações jornalísticas, esclarecimentos mais profundos. Desde o início dos anos 2000, Putin construiu um sistema bancário centralizado, onde os bancos estatais e aliados passaram a controlar o grosso das transações financeiras. Entre os bancos mais usados para movimentações de origem duvidos estão: VTB Bank, Sberbank, Gazprombank e Rossiya Bank (conhecido como o “banco dos amigos de Putin”). Oligarcas ligados ao Kremlin têm papel-chave no controle indireto de fluxos financeiros e redes de lavagem de dinheiro. Diversos foram os escândalos nesse sistema bancário a começar pelo The Russian Laundromat (OCCRP, 2014); o sistema financeiro russo foi usado para lavar mais de US$ 20 bilhões entre 2010 e 2014. Fundos de origem criminosa eram enviados para bancos moldavos e letões, e, posteriormente, para bancos ocidentais (Deutsche Bank, HSBC, etc.). Nesse caso, o dinheiro vinha de subornos, tráfico de armas e evasão fiscal — com envolvimento de funcionários estatais russos e juízes coniventes.

         Foram descobertos ainda os casos da Troika Laundromat (2019), com o sistema de lavagem de dinheiro operado por Troika Dialog, um banco de investimentos russo ligado a figuras do círculo de Putin. Cerca de US$ 4,8 bilhões foram movimentados por mais de 75.000 transferências ilegais. Esse caso envolvia políticos corruptos da África, Ásia Central e Europa Oriental, além de empresas de fachada registradas em paraísos fiscais.

         Por fim, o caso rumoroso dos Panama Papers / Pandora Papers (ICIJ, 2016–2021), que revelou como aliados de Putin e ditadores estrangeiros usaram bancos russos para criar empresas offshore, movimentar propinas e esconder fortunas. Putin não foi nomeado diretamente, mas associado, como o violoncelista Sergei Roldugin, estavam ligados a contas com centenas de milhões de dólares. Ditadores de todo o mundo correram para depositar fartas somas de dinheiro da corrupção, no sistema bancário russo. A relação é grande. Não por outra o sistema financeiro russo foi isolado do restante do mundo.

         Após a invasão da Ucrânia em 2022, o Ocidente impôs sanções sem precedentes: Desconexão do SWIFT para vários bancos russos; Congelamento de ativos internacionais de oligarcas; Proibição de transações em dólares/euros em grande escala entre outros procedimentos.

 

A frase que foi pronunciada:

“Enviar cabeças vazias para negociações apenas destrói o significado da diplomacia.”

Zelensky à Putin sobre as negociações em Istambul.

Volodymyr Zelensky. Foto: Getty Images

 

História de Brasília

Uma caravana de jornalistas de Brasília irá a Goiânia, nestes próximos dias, buscar a Carta Sindical da Associação Profissional, e o Delegado do Trabalho para que a carta seja assinada pelo Ministro Franco Montoro. (Publicada em 04.05.1962)

A batina de São Pedro

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Torre Nicolau V, sede do IOR. Foto: vaticannews.va

 

Um ladrão de banco, ao fugir da perseguição policial, teve que escolher, de imediato, entre se esconder dentro de um bar cheio de fregueses ou se abrigar debaixo da batina de um padre parado na esquina. Escolheu se esconder debaixo da batina. O padre, surpreendido com a coragem do fugitivo, transformou-se numa estátua pálida, de tanto medo. A polícia vasculhou o bar e nada encontrou. Viu o padre e seguiu adiante sem suspeitar de nada. Essa pequena fábula — do ladrão que, fugindo da polícia, escolhe se esconder debaixo da batina de um padre ao invés de se misturar à multidão em um bar — serve como metáfora poderosa e crítica ao papel que o Instituto para as Obras de Religião (IOR), o chamado banco do Vaticano, desempenhou, historicamente, no sistema financeiro global.

A batina, como metáfora do refúgio perfeito, revela a astúcia do ladrão, pois ele não escolhe o óbvio (um bar cheio de gente), mas o lugar onde ninguém ousaria procurar — o símbolo da moralidade, da fé, da retidão.

Assim, também, durante décadas, corruptos, ditadores e mafiosos enxergaram o banco do Vaticano como o esconderijo ideal para seu dinheiro ilícito. Três seriam os motivos dessa preferência: primeiro, a imunidade jurídica e a soberania do Vaticano, como Estado independente, seu banco não está sujeito às mesmas exigências de transparência impostas a instituições financeiras internacionais. Não há obrigação de divulgar beneficiários de contas ou de cooperar prontamente com investigações estrangeiras. Tem ainda a reputação de santidade e da imagem pública da Igreja, historicamente, associada à caridade, moralidade e neutralidade.

Graças a esse prestígio, pode oferecer uma “capa de invisibilidade”. Assim, como a polícia passou pelo padre sem desconfiar, autoridades fiscais e investigadores, dificilmente, olhavam para o Vaticano como cúmplice financeiro perfeito para o crime. Há ainda o uso de ordens religiosas e fundações como fachada. Assim, como o ladrão esconde-se sob o símbolo da fé, dinheiro sujo foi camuflado sob o disfarce de obras religiosas, ONGs missionárias e fundações de caridade. Muitas dessas eram, na prática, estruturas de fachada para lavar recursos provenientes de corrupção, tráfico ou desvios estatais.

O Banco do Vaticano possuía assim uma espécie de cofre intocado. Durante o século XX — sobretudo nos anos 1970 a 1990 —, o IOR acolheu contas secretas, blindadas por nomes de congregações ou intermediários que movimentavam, além de dinheiro vindo de regimes militares na América Latina, os fundos desviados por políticos corruptos na Itália e Europa Oriental, bem como riquezas acumuladas por mafias sicilianas e bancos privados falidos (casos Roberto Calvi e Michele Sindona). Com isso, a fábula do ladrão mostra que a batina protege. Até recentemente, essa proteção era real e eficaz — nenhuma polícia internacional ousava levantar a batina de São Pedro.

O padre, ao se transformar numa estátua de tanto medo, mostra um retrato do desconforto institucional, ante uma situação que mais cedo ou mais tarde prejudicaria o Estado do Vaticano e a própria Igreja Católica. Quando, nos últimos anos, vieram, à tona, escândalos financeiros e pressões externas por transparência, setores do Vaticano se paralisaram: chantageados por arquivos internos, expostos por vazamentos (como VatiLeaks), e divididos entre reformas e autoproteção. Mas eis que o Papa resolve levantar a batina. Com a eleição do Papa Francisco, houve um esforço concreto e inédito de limpar esse esconderijo. Para tanto, ele empreendeu o fechamento de centenas de contas fantasmas no IOR; fez reformas estruturais no sistema financeiro do vaticano, com a criação da Autoridade de Informação Financeira (AIF); também pediu ajuda e cooperação com o Moneyval (FMI europeu de combate à lavagem). Por fim, levou, ao cabo, uma perseguição judicial interna, como no caso do Cardeal Becciu. Francisco fez o que a polícia da fábula não fez: olhou sob a batina.

A reforma iniciada por Francisco foi, e ainda é, uma tentativa corajosa de transformar uma estátua de pedra em um corpo vivo e transparente — mas enfrenta resistência, inércia e a herança de décadas de silêncio. Ao levantar a batina de São Pedro, a Igreja pode, enfim, olhar para dentro de si.

 

A frase que foi pronunciada:

“Mister ressaltar que o crime de branqueamento de capitais é de tipo misto ou conteúdo variado, de modo que a prática de qualquer das condutas (ocultação, dissimulação ou integração) configura o crime.”

Badaró e Bottini

Ilustração: jusbrasil.com

 

Bem feito

Um sinal mais inteligente na L2 Norte, altura da 16, sentido norte/sul. Agora, se o caminho estiver livre para a L2, basta pegar a pista da direita. Quem for seguir para a Avenida das Nações aguarda o sinal.

 

Manutenção

Depois de tantos transtornos para recuperar o asfalto na ponte do Bragueto, é possível ver caminhões enormes passando por ali. Falta fiscalização!

 

História de Brasília

Esta nota vem a propósito de telefonemas que temos recebido sobre a greve dos professôres. A invasão foi uma lição ao BNDE mas a greve foi uma lástima. A cidade tôda comoveu-se com a situação dos professôres, mas recebeu com muita reserva o movimento grevista. (Publicada em 04.05.1962)

O Estado profundo

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Imagem: reprodução da internet

 

No século 21, apresenta-se a nós a figura do deep state (estado profundo), como sendo a formação de setores dentro do Estado e do governo que atuam para influenciar a adoção de políticas públicas por meio do uso do dinheiro público sem que, para isso, tenha jurisdição ou qualquer outro mecanismo transparente que informe a nação sobre sua existência e o que vem realizando à sombra da Constituição e das leis.

Como um governo paralelo, o deep state age longe do noticiário e, normalmente, usa de seu poderio para influir politicamente dentro e fora de suas fronteiras, provocando queda e ascensão de presidentes. O deep state prejudica a democracia interna e externa ao agir sem controle, colocando a questão da liberdade individual, cada vez mais, como uma utopia distante.

Não restam dúvidas de que esse novo fenômeno possa mudar totalmente nosso conceito atual do que seja democracia ou cidadania, uma vez que o Estado passa a sofrer influência de setores internos que, muitas vezes, contrariam frontalmente o desejo da maioria da população, que nada sabe sobre sua existência.

Conceitualmente, deep state é utilizado com frequência para descrever uma suposta estrutura paralela, dentro do aparato estatal, que atua à margem da legalidade e da transparência institucional, influenciando decisões de governo sem controle democrático ou supervisão pública. Embora a ideia carregue um peso conspiratório em muitos discursos, há elementos concretos que merecem análise séria, sobretudo no contexto da erosão da confiança pública nas instituições democráticas.

Esse termo ganhou força nos estudos políticos e nas discussões públicas após eventos, como o escândalo Irã-Contras nos EUA, e é amplamente associado ao funcionamento de burocracias permanentes, agências de inteligência, forças armadas e setores da elite econômica e midiática que manteriam poder mesmo com mudanças de governo. Em alguns países, como Turquia e Egito, a ideia de um deep state se mostrou menos alegórica e mais concreta, com militares e serviços secretos operando de forma autônoma, inclusive contra o governo eleito.

Nos Estados Unidos, por exemplo, agências como a CIA, a NSA ou o FBI foram acusadas de operar com alto grau de independência e, em determinados momentos históricos, de interferir na política externa e interna sem supervisão efetiva do Congresso ou do Judiciário.

No contexto global, há evidências de operações de desestabilização de governos estrangeiros, como no Irã (1953), Chile (1973) e, mais recentemente, em países do Oriente Médio. Tais ações são justificadas como estratégias de segurança nacional, mas levantam sérias questões éticas e democráticas. Um dos pontos centrais da crítica ao deep state é a ausência de accountability, ou seja, de mecanismos de prestação de contas. Em democracias consolidadas, é esperado que os órgãos do Estado estejam sujeitos a controles institucionais — do Legislativo, do Judiciário e da sociedade civil. Quando estruturas passam a operar fora dessas balizas, há um claro desvirtuamento do pacto democrático. Contudo, é preciso cuidado ao usar o termo indiscriminadamente. Em muitos casos, o rótulo de deep state serve para desacreditar instituições legítimas ou justificar perseguições políticas.

Governos autoritários, por exemplo, costumam usar essa narrativa para enfraquecer Judiciários independentes, imprensa livre ou órgãos de investigação. A crítica final do seu texto aponta para um ponto sensível: a liberdade individual. O uso de tecnologias de vigilância, repressão de dissidências internas e manipulação da opinião pública é mecanismo que, se empregado por entidades fora do controle democrático, realmente coloca em risco direitos fundamentais.

A vigilância em massa, como revelada por Edward Snowden, mostra que, mesmo em democracias ocidentais, os limites entre segurança e liberdade têm sido tensionados. A questão que nos interessa é saber qual a extensão e a atuação do Estado profundo no governo e na máquina pública brasileira. Quem são seus protagonistas? Quanto custa esse governo paralelo aos cofres públicos? Perguntas e respostas suspensas no ar.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“No fundo, só há duas políticas: a política de governo e a política de oposição.”
Joaquim Nabuco

Foto: camara.leg

 

História de Brasília
Não tenho interesse em agradar a classes ou a pessoas. Temos procurado informar os leitores sobre o que ocorre na cidade, e sempre procuramos reproduzir nesta coluna a repressão dos acontecimentos de Brasília. (Publicada em 3/5/1962)