VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960
hoje
Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade
Existe uma crença difundida segundo a qual a idade, por si só, conduz inevitavelmente à sabedoria. A história da filosofia, da religião e da literatura está repleta de referências ao ancião prudente, cuja longa experiência de vida lhe permitiria julgar melhor os homens e os acontecimentos. O tempo ensina apenas quem continua disposto a aprender. Aos demais, apenas envelhece. Há homens que chegam à velhice mais serenos, mais equilibrados e mais conscientes de suas limitações. Outros chegam apenas mais endurecidos, mais desconfiados e mais apegados ao poder que acumularam durante décadas. Essa diferença torna-se particularmente perigosa quando o envelhecimento alcança aqueles que controlam Estados.
Em regimes democráticos, a alternância de poder funciona justamente como mecanismo de renovação institucional. O voto periódico permite corrigir rumos, substituir lideranças e impedir que um único indivíduo confunda seu destino pessoal com o destino da nação. Nas ditaduras ocorre exatamente o contrário. O governante deixa de servir ao Estado para convencer-se de que o Estado existe para servi-lo. A oposição deixa de ser vista como parte natural da vida política para tornar-se inimiga da pátria. Aos poucos, todas as instituições passam a existir apenas para preservar o governante.
O caso da Nicarágua tornou-se um dos exemplos mais recentes desse processo. Daniel Ortega retornou ao poder em 2007, após já ter governado o país nos anos 1980. Desde então, promoveu sucessivas mudanças institucionais que ampliaram seu controle sobre o Estado. Nas eleições de 2021, praticamente todos os principais pré-candidatos oposicionistas foram presos ou impedidos de concorrer, em um processo amplamente criticado por organismos internacionais. Posteriormente, novas reformas concentraram ainda mais poder na Presidência e reduziram o espaço para oposição organizada e imprensa independente. A questão foi atualizada de modo surpreendente. Eleições não fariam mais sentido com a eternização do poder corrupto.
Fenômeno semelhante pode ser observado retrospectivamente em diversos regimes autoritários do século XX. Fidel Castro permaneceu décadas no comando de Cuba, inicialmente como primeiro-ministro e depois como presidente. Seu governo atravessou gerações inteiras sem permitir competição política multipartidária. Ao longo dos anos, a continuidade do regime passou a depender cada vez mais da preservação do próprio sistema de poder construído em torno da liderança revolucionária. Não se trata de um fenômeno exclusivo da América Latina. A União Soviética conheceu seus anos finais sob uma sucessão de dirigentes idosos, incapazes de promover reformas profundas enquanto preservavam estruturas burocráticas envelhecidas. Mao Tsé-Tung governou a China até idade avançada, conduzindo campanhas políticas que produziram consequências humanas devastadoras. Robert Mugabe permaneceu quase quatro décadas no comando do Zimbábue antes de ser afastado. Em diferentes continentes, a combinação entre poder prolongado e ausência de mecanismos de alternância revelou padrão semelhante. O problema central não está propriamente na idade. Winston Churchill retornou ao cargo de primeiro-ministro britânico já idoso. Konrad Adenauer liderou a reconstrução da Alemanha Ocidental em idade avançada. Nelson Mandela chegou à Presidência da África do Sul aos 75 anos e deixou voluntariamente o cargo ao término do mandato.
Nessas experiências, o fator decisivo não foi a data de nascimento dos governantes, mas a existência de instituições capazes de limitar o exercício do poder e garantir sua sucessão. Quando um governante passa décadas cercado apenas por pessoas que concordam com tudo o que diz, a realidade deixa gradualmente de chegar ao seu gabinete. O dirigente passa a enxergar apenas aquilo que seus auxiliares julgam conveniente mostrar. Forma-se uma bolha política onde toda crítica é interpretada como conspiração e toda derrota precisa ser atribuída a inimigos externos. É nesse ambiente que surgem algumas das decisões mais desastrosas da história contemporânea. A ausência de contraditório elimina o principal mecanismo de correção dos erros. Sem imprensa livre, oposição organizada ou eleições competitivas, desaparecem os instrumentos que normalmente obrigam um governo a rever seus equívocos. Há também um componente psicológico frequentemente observado pelos estudiosos do autoritarismo. O poder prolongado tende a produzir personalização do Estado. O governante passa a acreditar sinceramente que sua permanência é condição indispensável para a estabilidade nacional.
A democracia não parte da premissa de que existam governantes perfeitos, mas da convicção de que nenhum ser humano deve concentrar poder indefinidamente. A alternância protege não apenas os governados, mas também as próprias instituições. A história do século XX e das primeiras décadas do século XXI oferece exemplos suficientes para mostrar que não é a idade que ameaça as nações, mas a permanência ilimitada de qualquer indivíduo no comando delas. Não precisamos ir muito longe para aprender essa lição.
A frase que foi pronunciada:
“Não haverá mais eleições aqui para que eles [a oposição] tentem tomar o governo e o poder” Daniel Ortega
História de Brasília
Quem entende de lei espantou a lebre, e o assunto aqui vai tratado, de maneira como me foi relatado: Mazzola e Sormani, os dois jogadores brasileiros que estão — na qualidade de cidadãos italianos — integrando a seleção do simpático país peninsular, podem vir a perder a cidadania brasileira. (Publicada em 25.05.1962)
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