O Brasil mostra seu machofascismo

Publicado em Criança e Adolescente, Direitos Humanos, Direitos LGBT, Estudos de Mídia, Estupro Infanto-Juvenil, Exploração Infantil, Fascismo, Feminismos, Filosofia e Política, Gênero nas Artes, Igualdade de Direitos, Liberdade de Expressão, Machismo, Mapa da Fome, Questões Geracionais, Raça Etnia, Religião, Saúde Mental e Gênero, Violência de Gênero

Está aberta a Caixa de Pandora*

 

Quadrinhos do cartunista Laerte: um resumo fiel do Brasil de 2017.
Quadrinhos do cartunista Laerte: representação imagética do Brasil de 2017

A sociedade brasileira anda tão surreal, tão persistentemente desigual, violenta em suas fobias e “ismos” (principalmente, o machismo), e afundada em repressão e corrupção, que já ultrapassa todas as tentativas de filmes e séries feitas para a TV ou para as plataformas da internet de produzir “ficção”. A realidade aflorada à pele da nação é um tapa na cara de quem ainda tenta manter o bom senso, no mínimo. Melhor, é uma surra mesmo. Diária.

Em menos de dois anos, todos os índices de direitos humanos, civis e sociais despencaram de forma tão abrupta que hoje as previsões de “futuro”, principalmente, para as novas gerações, estão bem nebulosas. Incertas. Ao ponto de uma  pesquisa mundial sobre estresse e saúde mental mostrar que o povo brasileiro é o que mais sofre de ansiedade no planeta e está no quinto lugar mundial em casos de depressão.

As estatísticas da violência social só pioram. Há ameaças concretas de se perder emprego – ou não conseguir vislumbrar novas chances, no caso de quem já está desempregado há mais de um ano -, ou de toda uma nação andar em marcha a ré, com um macabro retorno ao Mapa da Fome, como já verificado em recentes estatísticas entregues em um documento à Organização das Nações Unidas (ONU).

Assim, o que já estava ruim tende a piorar. Muito. O jornal britânico The Guardian publicou, em julho passado, uma longa matéria sobre o aumento acelerado da pobreza, do desemprego e da situação de rua e mendicância de brasileiros e brasileiras. (Leia aqui)

Também é o caso (do aumento) da violência machista, misógina, pedófila, geracional, racista e (LGBTI)fóbica, que atinge níveis epidêmicos nos últimos meses. Obviamente, esses índices de múltiplas violências devem-se aos neo-nazifascistas, e machistas, tupiniquins, que estavam vociferando no armário até há bem pouco tempo.

Como jamais poderíamos ter imaginado, em nossos piores pesadelos, a censura e a selvageria tomam a sociedade de assalto. Multiplicam-se casos de estupros (de mulheres e crianças – a pedofilia), de feminicídios (interseccionais com o racismo e a lesbo ou bi fobia), de homo ou transfobia em geral, de crimes contra as religiões diversas, e mesmo de abusos, espancamentos e homicídios contra crianças e pessoas idosas.

Uma barbárie o que estamos a presenciar no Brasil de 2017. Parecia até previsível que o país desceria a ladeira. Entretanto, não queríamos acreditar que as coisas poderiam atingir absurdos, como casos de prisões e invasões de privacidade desnecessárias e sem prévia intimação para esclarecimentos – como ocorreu com (e levou ao suicídio) o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier. Ou os diversos registros, em várias cidades do país, da destruição de templos e locais de cultos religiosos de outras matizes que não as das religiões cristãs evangélicas.

Esta semana, durante a sessão solene em homenagem ao falecido reitor da UFSC, o desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Lédio Rosa de Andrade, fez um discurso emocionado, no qual afirmou que “só a tragédia pode chamar a atenção de uma população que vive histeria coletiva”. Para ele, os fascistas estão de volta (após 30 anos desde o fim da ditadura militar). “Porcos e homens se confundem. Fascistas e democratas usam as mesmas togas. Eles estão de volta. Temos que pará-los”, conclamou o magistrado, que era amigo pessoal do reitor Cancellier.

Quando as leis, que forjam a Constituição e o Estado Democrático de Direito, sofrem tantas formas de violações e más interpretações, a nação fica à deriva. O Brasil é hoje uma grande nau sem rumo, espoliada pela pirataria mais vil, de corrupção, desmantelamento de seus ativos, e arbitrariedades a céu aberto.

Só para ilustrar, há dois dias, viralizou nas redes sociais um vídeo de ladrões que, no ato de contarem as notas que retiravam de um cofre, mandaram recados explícitos aos membros do atual governo federal. Uma das mensagens: “Aê, Temer, seu fdp! Pensa que é só você que rouba, né, seu fdp. Nóis também rouba (sic). Pega a visão”, desafia um dos assaltantes. Eles filmaram o saque aos maços de dinheiro, enquanto debochavam da situação de presos da Lava Jato, como o ex-ministro e ex-deputado do PMDB, Geddel Vieira Lima, e o empresário Eike Batista. “Chora não Geddel”, ironizam.

A cena é mesmo fruto de uma tragédia. Muito mais do que uma suposta comédia, que seria o mote para viralizar nas mídias sociais. Nem dá para rir. Assaltos, invasões, roubos, assassinatos, e todas as violências já relacionadas neste artigo multiplicam-se país afora como grama em tempos de chuva.

Não são apenas resultado do empobrecimento e do desemprego massivos. São também fruto da abertura de uma caixa de Pandora. Aquela onde os piores males e valores morais, vindos dos que atuam em nome de uma falsa, pseudo, ética, são encarcerados e, uma vez libertados, ninguém sabe onde vão parar. Nem como controlar. Só mesmo um enorme esforço contrário e imediato, como defende o desembargador Andrade. Há que se parar, logo, tais massas fascistóides.

Feministas juntam forças para continuar a luta contra as fogueiras da intolerância e da cegueira machofascista.
Feministas juntam forças para a luta contra as fogueiras da intolerância e da cegueira machofascista.

Um exemplo do fascismo (machista) irracional foi o ataque sofrido por uma mãe, Solange Afonso, de 47 anos, ao sair abraçada a sua filha de 20, de uma sessão de cinema em um shopping da área central de Brasília, o Liberty Mall. Um homem de 55 anos as atacou física e moralmente, por achar que elas eram um casal de mulheres lésbicas. A mãe não se intimidou com as agressões, reagiu e chamou os seguranças do shopping para ajudá-la a levar o machofascista para a delegacia. Solange foi agredida no rosto. Ela pediu aos seguranças que não deixassem o homem ir embora porque registraria a ocorrência.

“Eu reagi e xinguei também. Chamei os seguranças e pedi para deterem ele, que nós iríamos para a delegacia. Na confusão, ele bateu, não sei se foi um relógio, alguma coisa no meu rosto. Eu gravei esse vídeo não foi nem para falar sobre a agressão. Gravei esse vídeo para dizer que isso tem que acabar. Eu não sou gay, mas me botei no lugar de todas as pessoas que eu conheço que são e que só querem ser felizes e viver a vida delas”, disse, emocionada.

É arrasador e triste o depoimento dela, que gravou um vídeo e postou nas redes sociais, indignada com a selvageria e com o preconceito contra as pessoas LGBTI. “Mesmo se fossemos um casal de mulheres apaixonadas, esse homem não teria nada a ver conosco!”. Pois é.

Outro registro policial, este um caso emblemático da violência machista, predadora, que assola o Brasil há séculos, mas que agora atinge níveis esdrúxulos, ocorreu também na capital federal. A menina Ana Íris, de 11 anos, foi brutalmente estuprada, assassinada (por estrangulamento) e seu corpo jogado no mato, pelo próprio primo, um adolescente de 16 anos. O menor S. morava sozinho nas proximidades do Morro do Sabão – uma invasão a poucos metros de distância da casa da prima.

Ana Íris era uma menina sonhadora, que estudava para ter uma vida melhor, e ajudava a mãe a cuidar dos 4 irmãos menores.
Ana Íris, de 11 anos, era uma menina sonhadora, que estudava para ter uma vida melhor, e ajudava a mãe a cuidar dos 4 irmãos menores. Foto: Arquivo Familiar

A mãe dele desapareceu há 11 anos e o pai está preso também por violência doméstica e tentativa de feminicídio contra uma ex-companheira. O relato é que o rapaz é calado, não tem namorada, e nunca se envolveu em “episódios de violência ou com drogas”. Na verdade, isso não interessa.

O machismo não tem nada a ver com o consumo de drogas, de bebidas alcoólicas, ou com outros fatores exógenos ao fato de ser, per se, uma doença psicossocial que deve ser tratada como tal. O que deveria ser levado em consideração é o exemplo e o histórico de violência contra as mulheres que esse rapaz tem em sua vida. A mãe dele “desapareceu” por quê? O pai sempre foi violento. Espancou e tentou matar uma de suas amantes. Será que também espancou e matou (ou “desapareceu”) a mãe do adolescente?

A mãe da menina Ana Íris, Maria das Graças dos Santos, contou que abrigou o jovem parente até quando foi possível. Deu casa e comida. Entretanto, a família padecia com a falta de alimentos, e de todo o resto, para o sustento de uma casa com cinco crianças – Ana Íris e mais quatro irmãos.

O diretor e crítico teatral Sérgio Maggio escreveu um artigo no qual afirma:

“No pescoço da menina Ana Íris, além das digitais do primo ensandecido pelo sexo, há as marcas do machismo de um Brasil que reluta em ensinar as suas crias que não podemos mais coexistir numa sociedade educada a violentar a mulher, em qualquer idade. Feminismo? Dirão os odiosos de plantão. Não. É conhecimento, que salva, ilumina e transforma pessoas preconceituosas em humanos.”

No Brasil de 2017, as estimativas mais conservadoras do IPEA são de que ocorre um estupro a cada 11 minutos. Isso nas estatísticas oficiais, pois é sabido que a imensa maioria dos casos é subnotificada, ou não é notificada de forma nenhuma. O próprio IPEA divulgou, entre 2013 e 2014, que os números de estupros e outras violações sexuais podiam chegar a mais de 527 mil casos por ano, no país. Então, a média real é de um estupro a cada 15 segundos. O pior de tudo: 70% das vítimas são crianças e adolescentes. Ou seja, é uma nação de pedófilos, para além do machismo.

Ainda de acordo com o Ipea, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa. Com base nos dados do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), fica evidente que em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores.

Além disso, a proporção de ocorrências com mais de um agressor é maior quando a vítima é adolescente e menor quando ela é criança. As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos, aponta a pesquisa.

Na verdade, apesar de também atingir os meninos, os dados são esmagadoramente contra as meninas: elas são 89% das vítimas de estupros e abusos sexuais. E são as mais suscetíveis a sequestros, raptos e ao tráfico de humanos para fins de exploração laboral e sexual. Assim como é o caso das mulheres adultas. Em termos de políticas públicas para coibir tais estatísticas da catástrofe, o Brasil também retrocedeu décadas neste último um ano e meio. Foram extintos institutos, organismos governamentais, secretarias ou ministérios de políticas para as mulheres, para a igualdade racial, e para a proteção delas e/ou das pessoas das diversidades étnicas e de orientação sexual e de gênero.

A hipocrisia reina nas bancadas parlamentares BBB.
A hipocrisia reina nas bancadas parlamentares BBB. Censuram exposições com nus humanos, mas frequentam chats e sites de pornografia – inclusive, a infantojuvenil

No mesmo período, as chamadas bancadas BBB – Bíblia, Bala e Boi (parlamentares extremistas e fundamentalistas “religiosos”, do setor de segurança policialesca e do agronegócio) no Congresso Nacional – vêm tentando derrubar leis e garantias constitucionais. Lutam para aprovar outras legislações draconianas, que mais parecem saídas de algum infernal submundo vitoriano, do século 19.

Retiram direitos dos povos tradicionais, que formam a base do povo brasileiro, como indígenas, quilombolas (negros), ou os ciganos. Querem retalhar e explorar ainda mais a Amazônia e demais terras protegidas pelas leis ambientais. Querem acabar com o direito das mulheres em diversas áreas, mas principalmente em seus poderes sobre seus próprios corpos. Chegam ao absurdo de criar projeto de lei, já em debate na Câmara Federal, para proibir o aborto até mesmo nos casos de estupro ou nos de riscos à saúde e à integridade física das gestantes – algo pacificado há décadas, no Brasil e mundo afora. Os objetivos são claros, sendo o principal a continuidade da dominação masculina, do machismo patriarcal, sobre as mulheres.

Há deputados e empresários já pregando abertamente até mesmo a revisão da Lei Maria da Penha, que acaba de completar 11 anos e é uma conquista social, civil e penal das mulheres brasileiras. Já foi copiada e segue sendo admirada em vários países. São muitas ondas de conservadorismo retrógrado, de estupidez, nesse Congresso Nacional. O pior conjunto legislativo em termos de ignorância e intolerância, além de ser o mais corrupto, de toda a História do Brasil.

Um parlamento vergonhoso, assim como os movimentos sociais financiados por partidos de (centro e extrema) direita, que forçam o retorno às trevas da censura às artes e à liberdade de expressão. Que se preocupam em atacar e boicotar museus e exposições (com claros avisos de nu artístico), mas que reforçam o machismo predatório, e seus atos extremos de violência, estupros, abusos, assassinatos, e de discriminação contra as mulheres, contra as populações mais vulneráveis na escala social, contra os LGBTI, contra as crianças e as pessoas idosas, negras, indígenas, ciganas.

São políticos e movimentos despudorados e desprovidos de qualquer senso comum de humanidade e de desenvolvimento econômico e social. São os que favorecem, inclusive, o trabalho escravo ou semiescravo, e o da servidão sexual, especialmente, de crianças e jovens mulheres.

O Brasil de 2017 (retro) caminha a largos passos para o Brasil de 1817.

Este é o novo Mapa da Violência contra as Mulheres Brasileiras: As cidades mais feminicidas do país.
O novo Mapa da Violência contra as Mulheres Brasileiras mostra as cidades mais feminicidas do país, em 2016. O Brasil ocupa hoje o 5º lugar mundial em assassinatos de mulheres por questões de gênero – por serem mulheres. É uma média diária de 13 até 15 feminicídios – uma morte a cada 1h15min.

* Caixa de Pandora é um artefato da mitologia grega, sobre a fábula de Pandora, que foi a primeira mulher criada por Zeus. A caixa era na verdade um grande jarro dado a Pandora, e que continha todos os males do mundo. Ela sabia que não deveria, mas em dado momento Pandora abre o Jarro, deixando escapar todos os males do mundo, menos a “esperança”.

 

16 thoughts on “O Brasil mostra seu machofascismo

  1. A Jornalista e Historiadora Sandra Machado apresenta este artigo lúcido da realidade social e política do Brasil. Uma voz que replica milhões de vozes sufocadas e de outras tantas que sequer tentam ecoar.

  2. Texto bem escrito e bem informado que retrata a indignação contra nossa situação moral e comportamental. Também estou indignado, mas devo ressaltar que é necessário incluir na lista dos problemas a falta de respeito por conceitos fundamentais e a grande confusão que acontece na cabeça das pessoas quando ocorre a flexibilização desses conceitos “na marra”. A luta contra o machismo não deve ser a luta contra o macho. O redpeito e igualdade de oportunidade entre homens e mulheres não deveria ser uma luta reduzida ao aspecto sexual, abrindo espaço para a simpatia de grupos parasitas que oferecem falsa simpatia. Nesse momento nos falta alicerce, fundação, e essa base precisa de conceitos fisicamente, quimicamente, biologicamente e sociologicamente sólidos.

  3. Tudo isso infelizmente é verdade, mas a culpa é de todos, principalmente daqueles que querem apenas liberdade sem controle, sem limites. Hoje, vivemos em uma verdadeira anarquia onde as pessoas usam uma Constituição liberal para praticar crimes. Temos um Direitos Humanos que só defende bandidos. Enquanto que nos Estados Unidos, onde existe a verdadeira democracia, existe também o Estado de Direito, existem controles e limites.

  4. É muito triste, mas devemos lembrar que todos nós temos culpa, pois falamos muito em liberdade e esquecemos dos limites e das responsabilidades, temos uma constituição liberal e democrática onde à sua luz muitos crimes são cometidos e um Direitos Humanos que só defende bandidos e criminosos. Para quem viveu nos Estados Unidos, sabe muito bem o que é um Estado de Direito, existe liberdade, mas existe responsabilidades e até pena de morte. Aqui, vivemos na verdade, uma “Anarquia”. Precisamos refletir a causa de tudo isso.

    1. Prezado, concordo que a sociedade tem sua (grande) parcela de culpa no atual quadro desesperador de corrupção, autoritarismo e desrespeito ao Estado Democrático de Direito. E isso se deve principalmente ao fato de apoiar (uma parcela da população) golpes de Estado e arbitrariedades judiciais e midiáticas, que ferem a Democracia, ao longo de toda a História do Brasil. Eu morei muitos anos nos Estados Unidos, onde estudei e fiz Mestrado na área de Comunicação. Lá também há flagrante desrespeito aos direitos humanos e às liberdades individuais. Especialmente, quando seus principais líderes no poder assemelham-se a alguém como o trump. As organizações que defendem os Direitos Humanos, aqui ou nos EUA e em outros países, preocupam-se e são ativas contra tais arbitrariedades e selvageria. Não defendem bandidos. Esse é um discurso da (extrema) direita para justificar, e reiterar, suas ações bárbaras, tais como as que eu escrevi nesse artigo.

  5. Tudo está mesmo perdido, quando, a despeito também, de liberdade artística, achamos “normal”, uma garota de 04 anos é levada pela mãe a tocar um homem nu. Nessas horas, as mesmas vozes indignadas contra o machofascismo, simplesmente se calam. E os pedófilos fazem a festa.

    1. Acredito que o senhor precise ler a respeito do que de fato ocorreu naquele museu e como a mãe autorizou e explicou a exposição à filha, que era mais velha, aliás. Veja nota pública do MAM e entidades relacionadas: “É importante ressaltar que o Museu tem a prática de sinalizar aos visitantes qualquer tema sensível à restrição de público. Neste sentido, a sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística. O trabalho não tem conteúdo erótico e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, artista historicamente reconhecida pelas suas proposições artísticas interativas. É importante ressaltar que o material apresentado nas plataformas digitais omite a informação de que a criança que aparece no vídeo estava acompanhada de sua mãe durante a abertura da exposição. Portanto, os esclarecimentos acima denotam que as referências à inadequação da situação são fora de contexto.”

      1. Li, assisti e vi todo tipo de posicionamento de leigos e de profissionais a respeito dessa aberrante exposição de uma menina de 04 anos, e, grande parte dos profissionais de psicologia, não alinhados ideologicamente, são unânimes em afirmar o grave erro de expor uma menina de 04 anos a esse tipo de constrangimento. Repetindo: UMA MENINA DE 04 ANOS!
        A presença da mãe, anuindo com esse absurdo, torna a situação de claro constrangimento e vexame a que a MENINA de 04 anos foi submetida, muito pior. Homens costumeiramente são os protagonistas nesse tipo de ato irresponsável, na proteção psicológica de seus filhos. Mas, está claro que, a última barreira de proteção familiar às crianças, que sempre foi a mãe, está também seguindo o mesmo passo.
        Não importa de quem é a obra, o fato é que esse tipo de obra pode ser tranquilamente visitada e estimulada a adultos. Mas, para uma MENINA de 04 anos, é de extremo mau gosto e violento! Ou, será que temos INDIGNAÇÃO SELETIVA contra machofascismo? Acreditar que um homem nu diante de uma MENINA de 04 anos, não seja algo reprovável, me faz realmente questionar que tipo de indignação é essa, que não acha a exposição assim de uma menina, algo repugnante!
        A anuência ou IMPOSIÇÃO da mãe de obrigar a MENINA de 04 anos, a submeter-se a esse vexame, não torna o fato menos grave, apenas porque a mãe foi a condutora do disparate, travestido de “instrução artística”.

        1. O senhor continua fora do contexto. Não há seletividade aqui. E minha indignação, assim como a das mulheres feministas, que lutam por um país mais igualitário e livre de violências de gênero, é infinitamente maior quanto ao fato de ser esta uma nação de pedófilos – como demonstram as estatísticas dos estupros e abusos sexuais contra meninas e adolescentes, em sua imensa maioria. Também nos indigna muito mais os 13 feminicídos diários que ocorrem no país. Ou os espancamentos e as violências psicológicas e morais sofridos pelas mulheres e meninas neste país. Este não é um espaço para machofascistas, nem para quem acredita que a preocupação com uma exposição em museu – com o devido aviso – com nu artístico deva ser maior do que com o que ocorre, de fato, na violência diária da maioria dos homens brasileiros (ou da sociedade machista) em relação às crianças, adolescentes e às mulheres. Sem mencionar as violências interseccionais contra as demais diversidades – pessoas negras, indígenas, refugiadas, LGBTs, idosas… Essa é a razão deste artigo, aliás.

          1. As pessoas tem o direito de achar que uma obra de arte é uma porcaria e que a exposição de crianças à porcaria é errado. Não acredito que a presença de um cartaz ou de uma mãe santifique o processo. No fim das contas é apenas arte de gosto duvidoso voltada a um público muito específico e que ganhou mas repercussão que merecia. De qualquer forma, quem defende a diversidade de opinião deve ter abertura e respeito às ideias antagônicas. Concordo que o foco deve ser outro, em particular a violência contra crianças, mulheres e homens, bem como a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, mas como o leque de debates está muito aberto, abre-se o espaço para o extremo e o oportunismo, com as armas clássicas da retórica.

          2. O foco do artigo são as violências e a desigualdade extremas que hoje grassam no Brasil, com mais virulência do que historicamente já se espera desta sociedade, contra as mulheres, crianças, pessoas das diversidades – inclusive, contra a juventude que está na base da pirâmide social, majoritariamente jovens pretos ou pardos. É incrível como toda vez que essas questões gravíssimas são colocadas abertamente, nas mídias, há essa saraivada de críticas que visivelmente visam tirar o foco principal, com uma retórica discursiva retrógrada e superficial sobre algum tema lateral. Isso se repete em vários movimentos reacionários e ultraconservadores, ao longo da História do Brasil. Aqui, debato as violências contra as diversidades. As que eventualmente são cometidas contra homens brancos, das classes mais abastadas, são estatisticamente mínimas em relação às que ocorrem contra as pessoas negras, indígenas, LGBTI e, especialmente, as mulheres e meninas. Este espaço busca essa igualdade de direitos. Os homens (em especial, os “brancos”, se é que os há no Brasil) já têm tais direitos e privilégios, desde o berço, em uma sociedade patriarcal, retrógrada, machista, misógina, racista, homofóbica, classista, preconceituosa contra as diversidades religiosas e geracionais, e sexista. Debater se uma exposição de arte é válida, é outra forma de censura, aliás. Achar que é lixo, de fato é direito. Não entender também é direito. O que não é admissível é condenar e censurar a liberdade de expressão e, principalmente, no caso, ser profundamente hipócrita e machista em relação a condenar a mãe – que deve, isso sim, ensinar sua filha ou filho a diferenciar o que é um toque afetuoso e o que é um toque “errado”, pedófilo, de abusos sexuais. Isso deve ser ensinado por todos e todas responsáveis pela educação das crianças. Inclusive, é por isso que a educação sexual/de gênero deve estar nos currículos escolares. Está, aliás, na maioria dos países realmente desenvolvidos. No Brasil, como abertamente mencionado no artigo, as hipocrisias das bancadas BBB, no Congresso Nacional, e de movimentos financiados por interesses da direita, como a aberração do MBL, causam ainda mais estragos, de longa duração, às já árduas batalhas pelos direitos à cidadania e o combate às violências e às desigualdades. De resto, de fato, acredito que debates retóricos de (extrema) direita deveriam ser postos nos sites e blogs do MBL ou do Bolsonaro, os representantes maiores do machofascismo nacional, neste 2017.

  6. Curiosamente, é sintomático do problema diagnosticado que toda discordância seja tratada como conservadora e reacionária. Vê-se que a intolerância é o que há de mais bem distribuído no Brasil. É um dos males que escapou da nossa Caixa de Pandora. É comum, mesmo para pessoas inteligentes e articuladas, situar o interlocutor em alguma faixa vil, e assim negar a legitimidade de sua discordância, não dando chance à outra visão. Mas se tem uma coisa que o Brasil provou para o mundo na última década é que ninguém detém o monopólio da virtude aqui. O acirramento da nossa podridão não é instantâneo, e tem a ver, também, com a desilusão, com a frustração, e com o alto nível de hipocrisia em que se igualou o espectro social e político brasileiro, da direita à esquerda.

    1. Querer colocar tudo no mesmo pacote é de um simplismo típico de quem sabe muito bem quem são os hipócritas. E os defende. Até para manter seu próprio status quo. Um exemplo: os que massivamente atacaram a exposição de arte do Museu de São Paulo, com a indicação do nu artístico, mas ignoraram solenemente a notícia – divulgada em todas as mídias (sociais e da imprensa) – sobre o menino que foi deixado para “dormir” na mesma cela de prisão de um estuprador. As respostas a essa notícia foram quase zero. Isso está em uma pesquisa divulgada hoje. Quem é contra a pedofilia no Brasil? É hipocrisia e machofascismo. E é isso que escrevo no artigo.

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