Vascaíno apaixonado

Compartilhe

Severino Francisco

É hoje! O show vai tremer, às 18h, no Maracanã, com o jogo que define a Copa do Brasil entre o Corinthians e o Vasco. Como se sabe, sou corinthiano que fica tão tenso durante a partida que assume a postura de Ari Barroso ao narrar os jogos do Flamengo, quando o ataque adversário se aproxima da área rubronega: “Nem quero ver, nem quero ver!” Torço e me retorço pelo Coringão. Mas eu tenho simpatia pelo Vasco, pois foi o primeiro time brasileiro a incluir os negros no futebol. Por isso, homenagearei o clube cruzmaltino com a história de um dos seus torcedores mais apaixonados.

No início do ano, fui tomar um café com a minha amiga Mila Petrillo, fotógrafa com quem trabalhei durante mais de 20 anos. Nós acompanhamos o crescimento das nossas filhas, dos nossos filhos e, agora, dos netos. E, na conversa, conheci um personagem que não posso sonegar a vocês: o neto Martinho, ou melhor, Tintin, de 12 anos.

Quando eram pequenas, Nadia, Raissa e Janaína, as filhas da Mila, pareciam três fadinhas, extraídas das ilustrações de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol. Elas cresceram, se tornaram mulheres e mães de seres singulares. Tintin é filho de Nádia, no entanto, puxou pelo pai, tem porte e feições de indígena ou havaiano.

É do signo de leão, com ascendente em gêmeos. Para ele, não existe tempo ruim, é dinâmico, ativo e audacioso. Durante o carnaval, ele resolveu levantar uma grana, juntou 200 dindins e foi para a folia vestido com a fantasia de uma nota de dinheiro na qual estava estampada a própria foto em que era possível ler: Dindin do Tintim. Claro, tudo sob a supervisão implacável das tias. Pois ele vendeu os 200 dindins e conseguiu a grana que queria para comprar bermuda, camiseta e boné.

A descoberta do PIX foi uma revolução na vida do Tintin. Sempre pedia os presentes dos pais, tias e avós na forma da transferência virtual instantânea. Mila estava com uns amigos no Rio de Janeiro, contou a história e eles acharam tão interessante que resolveram depositar um PIX para o Tintin. Quando soube que pingaria um dinheirinho na conta, o garoto pulou de felicidade: “Yes, PIX é amor, PIX é vida!”

Tintin é vascaíno apaixonado, na vitória e na derrota. O Vascão veio jogar em Brasília e o garoto achou que o acontecimento não podia passar em branco e precisava ser ritualizado. Então, decidiu raspar a cabeça somente na parte central. As tias foram tomadas de indignação, tentaram convencê-lo de que ele ficaria horrível, mas tudo foi inútil. Tintin optou pelo corte de cabelo exótico e se dirigiu até a Arena Mané Garrincha.

O jogo começou, está valendo e, de repente, o estádio explode: gooooooooool do Vasco! Tintin ficou alucinado, pulou, deu soco no ar e berrou. E, claro, com aquele corte de cabelo estrambótico chamou a atenção dos câmeras das tevês, que focaram em nosso personagem e transmitiram para todo o Brasil. O site Vascomunista publicou uma foto do Tintin ao lado da imagem de Mao Tse Tung. A semelhança entre o corte do garoto e a careca do líder chinês é impressionante e recebeu a legenda do site: “Vejam, Mao Tse Tung torce para o Vasco!”

Certo dia, Tintin atravessava a rua interna de uma superquadra quando ocorreu um incidente. Talvez ele estivesse pensando em vender uma leva de dindin, como fez no carnaval, para levantar uma grana e comprar bermuda e boné. Ou em novo corte de cabelo ainda mais bizarro que usaria no próximo jogo do Vasco em Brasília no Mané Garrincha. Ou em dar umas dicas infalíveis para o pirata Veggeti, centro-avante do Vasco, botar o pé na forma e acertar o gol.

Enfim, por algum motivo insondável, Tintin cruzou uma rua interna da superquadra distraído e, em um átimo, caiu das nuvens, levou um tremendo susto, sentiu o baque e foi atirado na calçada por um carro. O motorista desceu do veículo com as mãos na cabeça desesperado ao ver que atropelara uma criança de 11 anos e perguntou aflito: “Como você está? Posso fazer alguma coisa por você?”. “Sim, deposita R$ 35 no PIX”, respondeu Tintin sem vacilar, enquanto se levantava, ileso, lépido e fagueiro, limpando a poeira da bermuda, pronto para a próxima aventura.

PS: Soube que o Tintin ficou felicíssimo ao ler a Crônica da Cidade e ver que ele era o personagem. Mas disse que, agora, quer sair no Fantástico. Repliquei a ele que sair na Crônica da Cidade confere muito mais credibilidade do que ser entrevistado pelo Fantástico.

Severino

Publicado por
Severino

Posts recentes

Odette Ernest Dias

Severino Francisco Tudo ficava mais  delicado, livre e leve quando Odette Ernest Dias (que nos…

2 semanas atrás

Vladimir na Paraíba

Severino Francisco A última vez em que vi Vladimir Carvalho foi no show de Fausto…

2 semanas atrás

História de Natal

Severino Francisco Eu pensava no sentido do Natal e procurava uma história que simbolizasse a…

3 semanas atrás

Reverência a uma mestra

Severino Francisco Em 2015, a mineira Bruna Evangelista começou do zero um empreendimento quixotesco: com…

3 semanas atrás

Flamenguistas doentes

Severino Francisco Em 2019, o repórter Fernando Jordão do site do Correio viveu uma aventura…

1 mês atrás

Guilherme Reis 2

Severino Francisco Carmem Moretzshon e Guilherme Reis formaram um dos casais mais incríveis da história…

1 mês atrás