Sopros de amor

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Severino Francisco

Valter Hugo Mãe é talvez o maior escritor vivo de língua portuguesa. Ele pronuncia sempre as palavras essenciais. Estabeleceu uma conexão inesperada com Brasília ao declarar-se fã de carteirinha da Legião Urbana, desde adolescente. Confessa que chora sempre que ouve Tempo perdido.

É uma voz de uma atualidade dramática nesses tempos em que impera uma agenda do ódio. Em O paraíso são os outros, ele polemiza contra o pessimismo da célebre frase do filósofo Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros”. Em princípio, o livro é dirigido ao público infantojuvenil, mas, como acontece com toda literatura de qualidade, transcende as faixas etárias e pode ser lido por gente de qualquer idade.

Hugo narra as impressões de uma garota inominada e de idade indeterminada que observa e comenta sobre múltiplos casais: “Estou cada vez mais certa de que o paraíso são os outros”, comenta a menina: “Vi num livro para adultos. Li só isso: o paraíso são os outros. A nossa felicidade depende de alguém”.

Na ficção para adultos Desumanização, Hugo já havia confrontado Sartre. Lá, a personagem de outra menina diz: “O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, não exatamente em ti”.

Não se trata de um embate seco de ideias; é um embate afetuoso, que parte do princípio de que só podemos ser felizes na relação com o outro: “O amor constrói”, reflete a menina inominada de O paraíso são os outros: “Gostamos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares. Mas amar é um trabalho bom”.

As impressões e os comentários da menina são perpassados de dúvidas e de toques sobre o namoro e sobre o amor: “Os gatos são casais misturados. Eu acho. Não são fiéis. Os cachorros também não. São fiéis aos donos mas, entre sim, não namoram com muito cuidado. A minha mãe explica que o amor também é namorar com cuidado”.

Os sopros da mãe estão impregnados de uma visão afirmadora da vida e de uma sabedoria que nasce diretamente da experiência: “Quase sempre estou errada. Mas gosto de ter certeza do erro. A minha mãe diz que só crescemos quando reconhecemos os nossos erros. Enquanto não o fizermos, seremos menores. Crescer é diferente de aumentar de tamanho ou ganhar idade. A minha mãe diz que grandes são os que se corrigem”.

Valter Hugo Mãe escreve ficções que celebram o amor e o humanismo, de uma maneira extrema, com palavras que tocam o coração: “O amor precisa de ser uma solução, não um problema. Toda gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema mas a pessoa amada precisa ser uma solução”.

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