O parquinho da 105 Norte 2

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Severino Francisco

O parquinho da 105 Norte existe há quase 10 anos. Ele foi construído pelos moradores do bloco D e atendia a bebês e crianças menores da 105 e de outras quadras, pois está instalado em espaço público. Os pais, mães e as crianças têm uma memória afetiva de instantes alegres vivenciados naquele espaço.

Pois bem, em assembleia de 26 de fevereiro, a maioria dos moradores votou pela desinstalação do parque. No entanto, a votação foi apertada e os moradores insatisfeitos com a decisão cerceadora se mobilizaram e apresentaram uma denúncia ao Ministério Público pela manutenção do parquinho. O objetivo era estabelecer o diálogo e chegar a uma solução que atendesse aos interesses de todas as partes.

No entanto, nesse ínterim, sem dar tempo para uma resposta dos órgãos oficiais, em menos de 48h, o condomínio resolveu desmontar e desativar o equipamento de lazer. A alegação é de que as crianças provocam bagunça, barulho e circulação entre os pilotis dos prédios.

Eu não desconsidero a reivindicação de sossego dos moradores. Mas me parece que, em Brasília, esse desejo de silêncio absoluto alcança um nível desrazoado. As brincadeiras das crianças invadem a madrugada? Elas utilizam caixas de som para tocar música e ultrapassam os 50 decibéis (período diurno) ou 45 (período norturno) permitidos para área residencial? O condomínio de um bloco pode desconstituir ou vedar o uso de uma área pública como se fosse um espaço privado?

De minha parte, não conheço som mais agradável do que o de brincadeiras de crianças no parquinho ou no pátio das escolas. É um sinal de alegria, de felicidade e de vida. E Brasília foi concebida deliberadamente para ser uma cidade-parque, com muito espaço livre embaixo dos blocos sob pilotis e muitos parquinhos para brincar.

Quando morei na 406 Norte, eu acompanhava meu filho brincando na areia com outros garotos da quadra. Essas são singularidades do projeto urbanístico de Brasília que marcaram várias gerações de brasilienses. Como disse Ziraldo, uma criança feliz será um adulto legal. Eu também acredito nessa máxima do nosso filósofo de Caratinga, que pensava com o traço.

Na curta história de seis décadas da cidade, várias gerações de brasilienses cresceram embaixo dos blocos, brincaram, correram, namoraram, conversaram, tocaram violão, compuseram canções e entabularam conversas intermináveis.

Inconformados com a decisão do condomínio, parte dos moradores se mobilizou e resolveu construir um novo parquinho para que as crianças não fiquem sem espaço para brincar. Com o apoio da Prefeitura da 105 Norte, conseguiram o espaço e organizaram uma vaquinha para bancar a compra de novos equipamentos e a instalação. Parte dos brinquedos foi doada do parquinho anterior, mas a outra parte terá de ser adquirida.

Tenho a impressão de que o melhor em casos como esse é a solução dialogada, pois, afinal, os moradores são vizinhos, os filhos ou netos brincam juntos. O Ministério Público poderia desenvolver uma ação educativa para conciliar os interesses e tudo terminar em festa.

Em 2017, ocorreu um incidente parecido em um bloco da 312 Sul. As crianças foram proibidas de brincar embaixo do bloco, sob os pilotis. No entanto, depois de manifestações do Conselho Tutelar e do Iphan e de intensa mobilização, moradores promoveram o “brincalhaço”, uma festa com algodão-doce, pipoca, bolo, patinete e jogo de xadrez. Na época, alegaram que o lugar adequado para as crianças se divertirem era o parquinho. E, agora, qual é o espaço para as crianças brincarem?

PS: Quem quiser colaborar com a vaquinha para a construção do novo parquinho da 105 Norte, pode entrar em contato pelo endereço: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/vamos-reconstruir-o-parquinho-das-crianças-da-105-norte.

Severino

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