Drummond enamorado

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Severino Francisco

“Que pode uma criatura senão,/entre criaturas, amar?/amar e esquecer,/amar e malamar,/amar, desamar, amar?/sempre, e até de olhos vidrados, amar?” Na véspera do Dia dos Namorados, meio desmoralizado em tempos tão áridos, folheio o livro magrinho Declaração de amor – Canção de namorados, de Carlos Drummond de Andrade.

Ao falar de amor, Drummond não deixa de ser torto, desajeitado e gauche, o que mais o humaniza: “O Dia dos Namorados/para mim é todo dia./Não tenho dias marcados/para te amar noite e dia./O dia 12 de junho,/como qualquer outro, diz/(e disso dou testemunho)/que contigo sou feliz).”

Parece que Drummond se renova a cada leitura, como que para confirmar o verso que ele mesmo escreveu: “De todos os prismas de uma joia/quantos há que não presumo”. A coletânea enfeixa poemas erráticos, ligeiros, escritos em circunstâncias diversas, mas, que, talvez por isso mesmo, compõem um caleidoscópio rico em matizes da relação do poema com o amor: “A gente sempre se amando/nem vê o tempo passar./O amor vai-nos ensinando/que é sempre tempo de amar”.

Na condição de poeta, ele se sente na obrigação de inventar mil maneiras de declarar ou de cantar o amor, com palavras e carinhos que não cabem nas palavras ou nos lábios. Ele reconhece, no entanto, o limite e o incorpora como falta no poema: “mas, por mais que invente, nunca inventarei/a forma ideal de dizer que a amo/tanto tanto tanto tanto tanto tanto tanto/que não cabe nas palavras nem nos lábios”.

Drummond não renega as intempéries da vida e extrai as iluminações do amor duramente, com sensibilidade mineira, permeada pelo silêncio: “Nossa história de amor, com algumas trovoadas/e muito espaço azul em vinte e sete anos,/pediria talvez rimances e baladas/ou suaves canções de timbres verlainianos./Mas prefiro contá-la ao jeito meu, mineiro,/no silêncio da voz, no êxtase do olhar,/pois afinal o amor, quando bem verdadeiro,/é música em si mesmo, e poesia sem par.”

Como sempre, o êxtase erótico não se separa do êxtase espiritual na experiência de Drummond. Parece que tudo existe para desembocar em um beijo: “O mundo é grande e cabe/nesta janela sobre o mar./O mar é grande e cabe/na cama e no colchão de amar./O amor é grande e cabe/no breve espaço de beijar.”

No início da juventude e da poesia, Drummond escreveu esses versos duríssimos no poema Segredo: “Tudo é possível/Só eu impossível”. É surpreendente que ela tenha guinado na direção de um olhar para o amor, sem pieguices, romantismos falsos ou sentimentalismos convencionais:”Se não disseres urgente repetido/Eu te amoamoamoamoamo,/verdade fulminante que acabas de desentranhar,/eu me precipito no caos,/essa coleção de objetos de não-amor”.

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