Severino Francisco
No início da semana, assistimos a mais uma cena revoltante de racismo explicito contra o nosso craque Vini Jr., atacante do Real Madrid, durante o jogo entre o time merengue e o Benfica, no Estádio da Luz, em Lisboa. Depois de marcar um golaço, Vini comemorou em frente à bandeira de córner e o jogador argentino Gianluca Prestianni tampou a boca com as mãos, para evitar a leitura labial das palavras, e, covardemente, proferiu insultos racistas contra o jogador brasileiro.
Com a denúncia, o juiz da partida acionou o protocolo antirracista e o jogo foi interrompido durante 10 minutos. O caso será analisado pelos tribunais esportivos da Uefa. Logo após a derrota do Flamengo para o Lanús, em Buenos Aires, durante entrevista coletiva, o técnico do Flamengo, Filipe Luís, foi indagado por um repórter sobre o episódio e declarou que foi um fato isolado.
Em seguida, teve de retificar a versão e emitiu nota, afirmando que o racismo é um crime grave. Filipe Luís morou muito tempo na Europa e sabe que o racismo mais cínico reina naquelas paragens. Talvez tenha dado a declaração infeliz porque sonhe em ser um técnico na Europa e não queira comprar a briga.
O fato é que os números desmentem o negacionismo da discriminação racial. Em oito anos de Vini Jr. no Real Madrid, foram registrados mais de 20 denúncias de racismo. Tanto não é um fato isolado que obrigou a reticente Uefa a elaborar um protocolo contra o racismo, que paralisou a partida no Estádio da Luz.
Em episódio anterior semelhante, Vini Jr. publicou um vídeo em que dizia: “Enquanto a cor da pele for mais importante do que o brilho dos olhos, haverá guerra”. E continuava: “Tenho essa frase tatuada permanentemente no meu corpo. Tenho esse pensamento permanentemente em minha cabeça. Dizem que a felicidade incomoda. A felicidade de um negro brasileiro vitorioso na Europa incomoda muito mais. Mas minha vontade de ganhar, meu sorriso e o brilho dos meus olhos são muito maiores do que isso”.
Além disso, lembrou que as danças não são dele. São de Ronaldinho, Neymar, Paquetá, Griezmann, João Félix e Matheus Cunha. São dos artistas do funk, os sambistas brasileiros, os cantores do reggaeton e os negros norte-americanos. São danças para celebrar a diversidade cultural do mundo: “Aceite, respeite, eu não vou parar”.
Os europeus querem descriminalizar o racismo e criminalizar a dança. Eu só faria o reparo a Vini Jr. para que não dançasse em frente à bandeirinha para não parecer desrespeito ao adversário.
Por mais absurdo que pareça, não seria tão impossível inibir manifestações de racismo no Brasil e na Europa. Bastava que as ligas organizadoras dos torneios aplicassem duras sanções aos clubes de jogadores e torcedores racistas.
Não custa lembrar que racismo é crime e deve ser tratado, efetivamente, como crime. Mas Vini Jr. recebeu uma inesperada solidariedade. As crianças do grupo Ghetto Kids, de Uganda, enviaram ao nosso craque uma dança sensacional, que recria os passos de Vini nas comemorações. É isso mesmo, o racismo deve ser combatido com leis e com danças de alegria. Baila, Vini, baila, Vini!