As cigarras são heavy metal

Compartilhe
Crédito: Cadu Gomes/CB/D.A Press.  Cigarra na Superquadra 205 Norte.

Severino Francisco

Nas últimas semanas, acordo e durmo com o som metálico, rascante e estridente das cigarras. De repente, me bateu a impressão de que era mesmo uma orquestra concreta do cerrado, ao ar livre, a palo seco, sob o sol devastador.

O canto das cigarras é puro João Cabral de Melo Neto: “Se diz a palo seco/o cante sem guitarra;/o cante sem; o cante;/o cante sem mais nada;/se diz a palo seco/a esse cante despido:/a esse cante despido:/ao cante que se canta/sob o silêncio a pino”.

As cigarras haviam sumido, mas resolveram voltar talvez em homenagem ao centenário de João Cabral, que se comemora neste 2020: “O cante a palo seco/é o cante mais só:/é cantar em um deserto/devassado pelo sol”.

As cigarras vivem muito tempo debaixo da terra e, nesta época do ano, saem para cumprir o ciclo da reprodução. Os músicos da orquestra a palo seco são os machos, que fazem uma barulheira infernal para atrair as fêmeas. O seu canto é, na verdade, um anticanto, um cante, pois o som não é emitido pela boca: é produzido pelas membranas do abdome.

Crédito: Gustavo Moreno/CB/D.A Press.  Temporada de cigarras na Superquadra 113 Sul.

O cante a palo seco das cigarras é torto, desgrenhado e crispado, parece uma tradução musical das árvores do cerrado. A música a céu aberto das cigarras é uma trilha sonora perfeita para uma cidade espacial, metafísica, moderna, mas plantada na natureza agreste. Ela produz um estranhamento, nos lança em um outro espaço, nos mantêm em estado de alerta com as suas sirenes sob o sol a pino.

Ouço muita gente reclamar das cigarras, mas, de minha parte, cada vez essa música me parece mais interessante como um traço de singularidade da capital moderna casada com os sertões bravos, como dizia Gilberto Freyre. Por isso, certa vez, resolvi conversar com o meu amigo músico Guilherme Vaz, que já nos deixou. Ele era um dos mais inventivos e premiados autores de trilhas sonoras para cinema no Brasil.

Guilherme concordava que as cigarras são músicos de vanguarda do sertão. Elas produzem a estranheza própria de toda obra de arte verdadeiramente de arte, levando a uma percepção incomum, extrassensorial, metafísica. Mas, nestes tempos de aquecimento global, o cante das cigarras é um sinal estético e de alerta sobre os desequilíbrios do meio ambiente. Está passando da hora de tomarmos alguma atitude, antes que seja tarde.

Nós, que consumimos tanto lixo sonoro comercial e industrial, afinemos os nossos ouvidos e afiemos os nossos sentidos para aprender a apreciar a beleza dessa orquestra heavy metal do cerrado. As cigarras poderiam tocar na Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro ou no Porão do Rock.

Severino

Publicado por
Severino

Posts recentes

Odette Ernest Dias

Severino Francisco Tudo ficava mais  delicado, livre e leve quando Odette Ernest Dias (que nos…

3 dias atrás

Vladimir na Paraíba

Severino Francisco A última vez em que vi Vladimir Carvalho foi no show de Fausto…

7 dias atrás

História de Natal

Severino Francisco Eu pensava no sentido do Natal e procurava uma história que simbolizasse a…

1 semana atrás

Vascaíno apaixonado

Severino Francisco É hoje! O show vai tremer, às 18h, no Maracanã, com o jogo…

1 semana atrás

Reverência a uma mestra

Severino Francisco Em 2015, a mineira Bruna Evangelista começou do zero um empreendimento quixotesco: com…

2 semanas atrás

Flamenguistas doentes

Severino Francisco Em 2019, o repórter Fernando Jordão do site do Correio viveu uma aventura…

4 semanas atrás