Adeus ao doutor Fontes

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Severino Francisco

Ontem, levei um baque com a notícia de que o doutor Edeplande Fontes havia sofrido um infarto. Submeteu-se a uma cirurgia, mas não resistiu e morreu aos 76 anos. Era um dentista que se tornou amigo da família. Sempre que tinha algum problema nos dentes era salvo pelo doutor Fontes, profissional competente, rigoroso e sempre de prontidão para resolver qualquer parada.

Tinha um compromisso com a profissão. Se podia aliviar as dores do paciente, não deixava para amanhã o que podia fazer hoje. Ele era um bugre de Mato Grosso, baixinho, elétrico, matreiro e bem-humorado. Colegas de turma da odontologia o chamavam de Poconé, cidade onde nasceu.

O pai mandou Fontes para estudar odontologia no Rio de Janeiro porque o filho era bom de bola e isso não era uma profissão decente. Porém, no Rio, ele jogou no time juvenil do Botafogo na mesma geração de Afonsinho, teve uma lesão no joelho e foi obrigado a abandonar o futebol. O Botafogo pode ter perdido um craque, mas a odontologia ganhou um ótimo dentista.

Algo do menino que amarrava jacaré com cipó no Mato Grosso sobreviveu no adulto e cintilava nos olhos de Fontes. Certa vez, foi a uma partida de basquete do filho no ginásio de um tradicional colégio da cidade, com lotação total. A cada embate do jogo, Fontes atiçava o filho, com sotaque interiorano: “Dá n’ele, pegu’ele”.

Ao fim, toda a plateia urrava: “Dá n’ele, pegu’ele”. Depois do prélio, o filho chamou Fontes e sentenciou: “Você está proibido de assistir a qualquer jogo em que eu participe. Foi o maior mico que passei em minha vida”.

Fontes era bem sucedido na profissão, mas nunca deixou de amar as coisas simples. Mesmo sem precisar, manteve, durante muito tempo, um consultório em São Sebastião. Tomava ônibus todos os dias para trabalhar. Cobrava preços muito acessíveis para a comunidade. E, lá, ninguém marcava consulta, quando precisava, aparecia e recebia o tratamento.

Fontes era dentista da nossa família há mais de 30 anos. Quando meu filho João tinha seis anos prometeu presenteá-lo com mexericas cariocas, que apanharia no sítio do avô. Passados mais de três décadas, sempre que encontrava João no ônibus, Fontes cobrava: “Cadê as mexericas que você me prometeu?”.

Para acabar com a pendenga, resolvemos comprar mexericas no mercado e quitar a dívida afetiva, mas Fontes recusou a proposta com uma súplica: “Por favor, não façam isso, porque vocês vão me tirar o assunto da minha conversa com o João quando a gente se encontra no ônibus”.

Nos intervalos do tratamento, Fontes costumava espairecer cantarolando hits de Roberto Carlos: “As curvas se acabam/E na estrada de Santos/Eu não vou mais passar…Ou, yeah…” Ficou intrigado quando uma cliente o presenteou com um disco de Roberto Carlos, e perguntou a razão. “É porque você canta totalmente errado”, explicou a cliente. Fontes não se incomodou com o reparo à performance musical, continuou espantando os males com as canções do Roberto: “As curvas se acabam…”

Essas histórias amenizavam a dor na boca, na hora do tratamento, e a dor no bolso, na hora de acertar as contas. Sentirei muita a ausência do Fontes, não apenas pelo tratamento misericordioso, mas porque era um ser humano especial. A gente sempre saia melhor, mais bem humorado, mais humanizado e mais otimista do consultório dele. Pessoas com a qualidade humana do Fontes fazem muita falta em nossa vida e na vida do mundo.

Severino

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