Severino Francisco
Eu contei a uma colega de redação a epifania que tive com o ipê-amarelo de uns sete a oito metros no condomínio onde moro, que parecia soltar uma chuva surreal de pétalas, lentamente e suavemente. Mas claro que todo brasiliense tem a sua. Então, ela me mostrou fotos da copa amarela de uma árvore frondosa, vistas do apartamento no quinto andar, da 115 Norte, que proporcionava um êxtase diário. Bastava ir à janela ter um enlevo. Entre outras funcionalidades, Lucio Costa desenhou a cidade, premeditadamente, para a contemplação.
No entanto, ao chegar à redação, ontem, deparei-me com uma imagem chocante: a árvore foi, sumariamente, cortada por uma equipe de empresa terceirizada pela Novacap, que não conseguiu dar a menor justificava para a ação. Não havia um responsável técnico no local, tampouco ordem de serviço, laudo, nota técnica, relatório de vistoria ou qualquer outro documento que demonstrasse a necessidade da supressão da árvore.
Um morador fez uma representação dirigida à Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural, solicitando apuração dos estranhos acontecimentos, apontando essas irregularidades. Além disso, ressaltou que os ipês integram as espécies tombadas como Patrimônio Ecológico-urbanístico do Distrito Federal. Não podem ser eliminadas sem obedecer aos procedimentos exigidos pela legislação distrital.
Todas as árvores da quadra têm placa de identificação e são monitoradas por um morador que é funcionário da Embrapa. É um detalhe revelador do cuidado e da relação afetiva da comunidade com as plantas. O técnico tirou fotos do tronco e elas mostram que não existiam quaisquer sinais externos de risco de queda, morte ou doença na árvore. Em uma rápida mirada, é possível perceber que ela estava completamente saudável.
Os moradores da 115 Norte aproveitam muito bem as qualidades do projeto urbanístico de Lucio Costa. Cultivam uma pequena horta comunitária e colhem verduras frescas embaixo. Todas as sextas-feiras, passa um food-truc, que atrai as famílias para baixo do bloco para saborear petiscos e para conversar. O conjunto denso de árvores atrai uma variedade de pássaros, inclusive araras azuis.
Meu sogro, o doutor Guarany Cabral de Lavor, engenheiro agrônomo, sertanejo bravo de Itapipoca, no Ceará, exerceu, durante décadas, a função de Chefe do Departamento de Podas e erradicação de árvores da Novacap. Em razão do cuidado e desvelo com o meio ambiente, ele ganhou um apelido contraditório com a sua função: Pai das árvores.
Porém, com o realismo bruto de cearense, ele não titubeava em recomendar a derrubada de uma árvore quando ela representava perigo para a vida dos moradores. Mas ele só chegava a essa decisão drástica depois de uma análise criteriosa segundo rezava a lei. E convencia os moradores com argumentos técnicos. Derrubar árvores não pode ser uma expedição aleatória determinada pelo capricho de alguém ou sem a menor fundamentação.
Um ipê-amarelo demora de três a cinco anos para se desenvolver e para dar flores. O da 115 Norte tinha 15 anos e cerca de 9 metros de altura. Em poucos minutos, o trabalho paciente da natureza é destruído pela motosserrra. A árvore abatida foi recebida como uma violência inexplicável pelos moradores da 115 Norte. Essas imagens causam a indignação.
Em matéria do Correio, a Terracap afirma que havia risco iminente de queda da árvore, avaliação contestada pela prefeita da 115 Norte, Vera Coradin, que é botânica. Para ela, a árvore estava saudável. Se existe essa controvérsia seria necessária uma avaliação mais rigorosa com outros pesquisadores. Isso não pode se repetir. Espero que esse episódio sirva ao menos para educar os administradores sobre as árvores e sobre a relação dos moradores com elas. No mínimo, houve um problema de comunicação e de falta de respeito com os cidadãos. Os moradores da 115 Norte sentiram que a beleza lhes foi roubada.

