Ganho de peso acelerado em bebês aumenta risco de obesidade e diabetes

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Estudo brasileiro mostra que o ritmo de ganho de peso nos primeiros anos de vida pode influenciar o desenvolvimento de doenças metabólicas no futuro

A velocidade com que um bebê ganha peso nos primeiros dois anos de vida pode influenciar diretamente o risco de desenvolver sobrepeso e obesidade na infância. É o que aponta um estudo brasileiro publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, que analisou a trajetória de crescimento de aproximadamente 1,7 milhão de crianças.

A pesquisa identificou que crianças que apresentaram ganho de peso acelerado até os 2 anos tiveram trajetórias médias de Índice de Massa Corporal (IMC) mais altas entre os 3 e os 9 anos. Nesse grupo, a prevalência de sobrepeso chegou a 18,62% e a de obesidade a 6,77%, índices superiores aos observados em crianças sem esse padrão de crescimento.

Já se sabe que os chamados primeiros mil dias de vida (período que vai da gestação até os 2 anos) são considerado decisivo para a saúde metabólica. É nessa fase que ocorre a chamada programação metabólica, quando o organismo define parte dos mecanismos que regulam o metabolismo, o apetite e o armazenamento de gordura.

“Durante essa fase, o organismo é extremamente sensível a influências ambientais que podem ‘programar’ trajetórias metabólicas para toda a vida, estabelecendo o número e tamanho das células adiposas que persistirão na idade adulta”, explica a endocrinopediatra Jéssica França, do Hospital Municipal Iris Rezende Machado (HMAP), em Aparecida de Goiânia, unidade pública em Goiás gerida pelo Einstein Hospital Israelita.

Segundo a especialista, quando o ganho de peso ocorre de forma acelerada, o organismo pode sofrer alterações metabólicas precoces. “A longo prazo, essas crianças apresentam maior risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e obesidade persistente na adolescência e vida adulta”, alerta.

Além disso, o crescimento acelerado pode afetar o funcionamento do tecido adiposo. “O tecido adiposo formado rapidamente tende a ser menos eficiente, contribuindo para um estado de inflamação crônica de baixo grau”, afirma França.

O estudo também observou que a relação entre ganho rápido de peso e IMC elevado no futuro ocorre independentemente do peso ao nascer. Ainda assim, o risco é maior em bebês que nascem com macrossomia — peso superior a 4 quilos.

“Bebês macrossômicos já nascem com maior número de células adiposas e possível resistência à insulina herdada do ambiente intrauterino. Quando esse perfil se combina com ganho rápido pós-natal, ocorre uma sobrecarga do sistema metabólico ainda imaturo”, detalha a endocrinopediatra.

Por outro lado, bebês que nascem com baixo peso também exigem acompanhamento cuidadoso. Segundo os pesquisadores, a recuperação de peso deve acontecer de forma gradual, ao longo de seis a 24 meses, respeitando o potencial genético da criança e priorizando a qualidade nutricional.

O alerta ocorre em um cenário de crescimento da obesidade infantil no país. Dados do Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes, com base no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), indicam que 32 em cada 100 crianças brasileiras entre 0 e 9 anos já apresentam excesso de peso, incluindo sobrepeso, obesidade ou obesidade grave.

Mantida a tendência atual, metade das crianças e adolescentes do país poderá estar acima do peso até 2035, segundo projeção da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Especialistas destacam que a prevenção começa cedo. Entre as medidas recomendadas estão o incentivo ao aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, após esse período, a introdução alimentar baseada em alimentos in natura, evitando açúcar, excesso de sódio e produtos ultraprocessados.

Rotinas adequadas de sono, estímulo à atividade física e o respeito aos sinais de fome e saciedade do bebê também fazem parte das estratégias de prevenção. “Para famílias em vulnerabilidade social, programas de acompanhamento nutricional e educação alimentar, seja na escola ou na Unidade Básica de Saúde, podem ser fundamentais para quebrar ciclos que levam tanto à desnutrição quanto ao sobrepeso”, afirma Jéssica.

Para a médica, o acompanhamento contínuo durante a primeira infância é essencial para identificar sinais de risco. “Por meio do monitoramento sistemático das curvas de crescimento, educação alimentar continuada e detecção precoce de desvios, é possível prevenir padrões metabólicos adversos que só se manifestariam décadas depois”, conclui.

Com informações da Agência Einstein*

Crianças estão falando mais tarde? Veja os sinais de alerta

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Estudos científicos apontam associação entre excesso de telas e atrasos na linguagem; especialistas explicam sinais de alerta e como estimular a comunicação na primeira infância

Nos primeiros anos de vida, cada som emitido por um bebê é parte de um processo complexo de descoberta do mundo. Balbucios, risadas e as primeiras palavras são marcos importantes do desenvolvimento infantil. Mas muitos pais têm se perguntado se as crianças estão demorando mais para falar  e o que pode estar por trás disso.

Pesquisas recentes têm buscado compreender os fatores que influenciam o desenvolvimento da linguagem na infância. Um estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics encontrou associação entre maior tempo de exposição a telas aos 12 meses e atrasos na comunicação aos 2 e 4 anos. Outros trabalhos científicos também apontam relações entre o uso frequente de dispositivos digitais e dificuldades na linguagem expressiva em crianças pequenas.

Por esse motivo, a Academia Americana de Pediatria recomenda evitar o uso de telas antes dos 18 meses de idade  (com exceção de videochamadas com familiares).

Apesar da preocupação crescente entre famílias, especialistas alertam que ainda não há evidências científicas suficientes para afirmar que houve um aumento real de casos de atraso de fala.

“Ainda não temos dados científicos consistentes para dizer que houve um aumento nos casos. O que sabemos é que hoje os pais têm mais acesso à informação e procuram avaliação mais cedo quando percebem algo diferente no desenvolvimento da criança”, explica a fonoaudióloga Fernanda Lobo, da Afeto Desenvolvimento Infantil.

Segundo ela, esse movimento de maior conscientização tem levado mais famílias aos consultórios, especialmente nos primeiros anos de vida.

Como a linguagem se desenvolve

O desenvolvimento da linguagem começa muito antes das primeiras palavras. Já nos primeiros meses de vida, o bebê se comunica por meio de sons, choro e expressões.

Entre 4 e 6 meses, surgem vocalizações repetitivas, como “aaaa” e “oooo”.
Entre 7 e 11 meses, aparecem os balbucios com sílabas — “bada”, “dadá”, “mamã” — e gestos comunicativos, como apontar ou dar tchau.

Por volta de 1 ano, a criança costuma falar as primeiras palavras e compreender ordens simples.
Aos 2 anos, o vocabulário pode chegar a cerca de 50 a 200 palavras, com frases curtas.
Aos 3 anos, a fala já é compreendida pela maioria das pessoas ao redor.

Segundo Isabela Alberto, da Afeto Desenvolvimento Infantil, observar esses marcos é fundamental. “Os marcos do desenvolvimento são bem definidos pela pediatria. Quando há atraso nas aquisições esperadas para determinada fase, é importante investigar”, afirma.

O papel das telas no desenvolvimento da fala

Nos últimos anos, a presença de celulares, tablets e televisão se tornou constante na rotina de muitas famílias. Diversos estudos investigam como essa exposição pode impactar o desenvolvimento infantil.

Pesquisas científicas indicam que o problema não está apenas no conteúdo das telas, mas também no fato de que elas podem substituir momentos essenciais de interação.

“O desenvolvimento da linguagem acontece principalmente por meio da interação social. A criança precisa ouvir a fala dirigida a ela, observar expressões faciais, participar de trocas de comunicação e brincar”, explica a especialista.

Quando o tempo de interação é substituído por dispositivos digitais, essas oportunidades de aprendizado podem diminuir. “Brincadeiras simbólicas, contato visual e conversas estimulam habilidades fundamentais para a comunicação. Quando esse tempo é reduzido, o desenvolvimento da linguagem pode ser prejudicado”.

Atraso de fala nem sempre indica transtorno

Apesar da preocupação comum entre pais, especialistas reforçam que atraso de fala nem sempre está relacionado a um transtorno do desenvolvimento.

É importante diferenciar fala e linguagem. A fala está ligada à pronúncia correta dos sons. Já a linguagem envolve compreensão e expressão — ou seja, a capacidade de entender e se comunicar.

“Atrasos na fala podem ter diferentes causas, como ambiente com pouca interação verbal, dificuldades auditivas, questões musculares ou outros fatores do desenvolvimento”, explica Fernanda. Por isso, a avaliação profissional é essencial quando surgem sinais de alerta.

Interação é o principal estímulo para a linguagem

Embora não exista fórmula mágica para estimular a fala, práticas simples do cotidiano fazem grande diferença no desenvolvimento infantil. Conversar com a criança durante as atividades diárias, narrar acontecimentos, ler livros e brincar são estratégias importantes para ampliar o vocabulário e incentivar a comunicação.

“A imitação é uma das principais formas de aprendizagem na infância. Quando os adultos conversam, leem histórias e brincam com a criança, estão oferecendo modelos de linguagem que ela aprende a reproduzir”, explica Isabela.

Ela destaca que o mais importante não é o brinquedo em si, mas a interação de qualidade entre adulto e criança. “Não precisa ser o brinquedo mais caro. O fundamental é a troca, o diálogo, o olhar compartilhado e o tempo de atenção dedicado à criança”.

Brasília recebe mobilização nacional por políticas para autismo

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Encontro reunirá especialistas e parlamentares para discutir diagnóstico precoce, inclusão escolar e acesso a terapias no Brasil

Brasília será palco, nos dias 14 e 15 de abril, de um encontro voltado à discussão de políticas públicas para pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Advocacy Day, iniciativa promovida pelo Lions International, deve reunir especialistas, representantes da sociedade civil e parlamentares para debater estratégias de diagnóstico precoce, inclusão e ampliação do acesso a terapias no país.

O evento ocorre em um momento em que o autismo ganha maior visibilidade no debate público brasileiro, impulsionado pelo aumento de diagnósticos e pela mobilização de famílias em torno de direitos como acesso à saúde, educação inclusiva e políticas de apoio ao desenvolvimento infantil.

Segundo estudos, cerca de 1 em cada 36 crianças no mundo está dentro do espectro autista. Especialistas destacam que o diagnóstico precoce e o acompanhamento multidisciplinar são fatores decisivos para favorecer o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e comunicativas.

Durante os dois dias de encontro, a programação prevê debates técnicos, articulações institucionais e audiências com parlamentares no Senado Federal. Entre os temas previstos estão a ampliação da triagem precoce na infância, a capacitação de profissionais de saúde e educação e a necessidade de consolidar dados oficiais sobre o autismo no Brasil.

Outro eixo das discussões será o combate ao estigma social associado ao TEA e o fortalecimento de estratégias de inclusão em escolas e espaços públicos. Organizações que atuam na área defendem que políticas estruturadas podem ampliar a autonomia e a qualidade de vida das pessoas autistas e de suas famílias.

Além dos debates técnicos, o encontro busca aproximar pesquisadores, gestores públicos e entidades da sociedade civil para transformar evidências científicas em propostas concretas de políticas públicas.

As atividades ocorrerão no hotel Windsor Brasília, na Asa Norte, com audiências institucionais previstas no auditório do Senado Federal.

A programação completa do evento deve ser divulgada nos próximos dias.

 

Comissão aprova oferta de abafadores de ruídos a estudantes autistas

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Proposta prevê que escolas públicas e privadas ofereçam abafadores de ruídos a estudantes autistas para reduzir a sobrecarga auditiva, que podem compromete o aprendizado e a participação escolar

A Comissão de Educação da Câmara dos Deputados aprovou, em dezembro, um projeto de lei que torna obrigatória a oferta de abafadores de ruídos a estudantes dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em escolas públicas e privadas. A proposta busca garantir acessibilidade sensorial no ambiente escolar e reduzir a sobrecarga provocada por estímulos sonoros excessivos, especialmente em crianças com hipersensibilidade auditiva.

O texto altera a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e prevê que as instituições de ensino disponibilizem recursos de tecnologia assistiva capazes de minimizar o impacto do ruído sobre o aprendizado e a participação escolar desses estudantes.

Segundo a terapeuta ocupacional Pabline Cavalcante, da Clínica Toca do Tamanduá, a discussão sobre o uso de protetores auriculares está diretamente relacionada à forma como o sistema nervoso processa estímulos sensoriais. “Quando falamos em sensibilidade sensorial, estamos nos referindo à forma como o sistema nervoso percebe, organiza e responde aos estímulos internos e externos que chegam por meio dos sistemas sensoriais, como tato, audição, visão, olfato e gustação. É a partir dessa organização que o cérebro consegue gerar respostas, inclusive o aprendizado”, explica.

Na prática clínica, Pabline afirma que a ausência de adaptações sensoriais no ambiente escolar pode comprometer de forma significativa o desenvolvimento da criança autista. “Quando a hipersensibilidade é ignorada, o cérebro entra em estado de alerta constante, de hipervigilância. Isso reduz drasticamente a capacidade de aprender, porque o cérebro não prioriza a aprendizagem quando está ocupado tentando organizar sensações incômodas”, afirma.

A terapeuta ressalta que o uso de abafadores, por si só, não resolve o problema. “O protetor auricular é uma estratégia compensatória. Ele ajuda a reduzir a intensidade do estímulo auditivo que chega ao sistema nervoso, mas não modifica o processamento sensorial. A criança continua tendo hipersensibilidade, e por isso outras adaptações precisam ser feitas, além da intervenção terapêutica com foco na integração sensorial”, diz.

Entre medidas simples que podem ser adotadas pelas escolas, Pabline cita adaptações no próprio espaço físico e na rotina. “Protetores nos pés de cadeiras e mesas, redução do uso de sinos ou sons intensos, previsibilidade com rotinas visuais bem definidas e evitar gritarias em sala já reduzem significativamente a sobrecarga sensorial”, afirma.

Do ponto de vista da Terapia Ocupacional, a acessibilidade sensorial não deve ser tratada como concessão. “Acessibilidade é um direito e uma condição básica para que o sistema nervoso funcione em um estado compatível com a aprendizagem. O cérebro só aprende de forma eficiente quando está regulado”, explica. Segundo ela, o desempenho da criança depende da interação entre pessoa, ambiente e tarefa. “Se o ambiente impõe uma carga sensorial maior do que a capacidade de modulação da criança, o desempenho cai. O objetivo da Terapia Ocupacional é garantir participação funcional, e isso exige facilitar, adaptar e incluir.”

Originalmente, os projetos previam a oferta de protetores auriculares do tipo concha, para redução de ruídos, mas o substitutivo passa a assegurar “dispositivos de tecnologias assistivas”, o que inclui também outros dispositivos para o controle de ruído.

“A medida aprovada busca promover a acessibilidade sensorial e garantir adaptações razoáveis no ambiente escolar para esses alunos”, disse o relator do projeto, deputado Duarte Jr. (PSB-MA)

O substitutivo também define um prazo de 180 dias para que a nova regra passe a valer, após a publicação da futura lei. Segundo o relator, o prazo é necessário para que as instituições de ensino se adaptem às novas regras.

A proposta será ainda analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, o texto deve ser aprovado pela Câmara e pelo Senado. 

Falta de afeto está entre violências mais comuns contra crianças

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Maioria das violências contra crianças acontecem no ambiente familiar e envolvem omissões de cuidado, afeto e proteção, com impactos diretos no desenvolvimento infantil

A negligência emocional, a falta de cuidados básicos e a privação de afeto figuram entre as formas mais recorrentes — e menos visíveis — de violência contra crianças. Dados da UNICEF indicam que, no mundo, cerca de 400 milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem regularmente algum tipo de violência psicológica ou negligência no ambiente doméstico.

No Brasil, levantamentos oficiais apontam que mais de 80% dos casos de violência contra crianças e adolescentes acontecem dentro de casa, o que dificulta a identificação e a denúncia dessas práticas.

Ao contrário da violência física ou sexual, as violências silenciosas costumam se manifestar por omissão. A negligência física inclui a falta de alimentação adequada, higiene, acompanhamento médico, vacinação, descanso e condições seguras de moradia. Já a negligência emocional está associada à ausência de escuta, acolhimento, afeto e vínculo, enquanto a negligência educacional envolve o abandono escolar ou a falta de acompanhamento da vida acadêmica da criança.

Também fazem parte desse conjunto as violências psicológicas, como humilhações, ameaças, rejeições, silêncios punitivos e invalidação constante dos sentimentos.

Embora pouco registradas nos sistemas oficiais, pesquisas internacionais também mostram que mais de 16% das crianças relatem negligência física e cerca de 18% negligência emocional, o que coloca essas práticas entre as formas mais frequentes de violação de direitos na infância.

Especialistas alertam que a subnotificação é elevada, já que muitas situações são naturalizadas no cotidiano familiar ou não deixam marcas visíveis.

Para a psicopedagoga e escritora infantil Paula Furtado, a violência observada na vida adulta costuma ter raízes na infância. “A violência que marca tantas histórias na vida adulta raramente começa ali. Ela é construída nos vínculos afetivos, nos modelos de cuidado e nos silêncios que cercam a infância”, afirma.

Segundo Furtado, a negligência emocional está frequentemente associada à sobrecarga dos cuidadores, à pobreza afetiva e à dificuldade de acesso à informação e à saúde mental. “Esse tipo de negligência não se restringe a contextos de vulnerabilidade socioeconômica. Também aparece em famílias com maior estabilidade material, quando o cuidado afetivo é substituído por rotinas rígidas, exigências excessivas ou ausência de escuta”.

Os impactos dessas violências sobre o desenvolvimento infantil são amplos. A literatura científica aponta que a ausência de cuidado, previsibilidade e afeto interfere na formação de funções emocionais e cognitivas, aumentando o risco de ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem e problemas de relacionamento ao longo da vida. Na infância, esses efeitos costumam aparecer de forma indireta, por meio de alterações de comportamento, retraimento, agressividade ou baixo rendimento escolar.

No ambiente escolar, os sinais também são perceptíveis. “Quando há agressões, exclusões ou negligência afetiva, o sofrimento ocupa o lugar da atenção e da criatividade, interrompendo o processo de aprendizagem”, observa Paula Furtado.

Para ela, a escola precisa ser um espaço seguro não apenas para o ensino de conteúdos, mas também para a construção de vínculos, respeito e autoestima, o que exige investimento na formação emocional dos profissionais da educação.

A psicopedagoga destaca que crianças nem sempre conseguem verbalizar situações de violência ou negligência. “Sinais de sofrimento emocional podem aparecer de forma simbólica nos desenhos, nas brincadeiras e na fala”, explica.

Desenhos com temas recorrentes de agressividade, figuras incompletas ou conteúdos sexualizados inadequados à idade podem indicar a necessidade de avaliação especializada. Brincadeiras marcadas por dor, castigo ou submissão, assim como frases como “se eu sumisse, ninguém ia notar”, funcionam, segundo ela, como pedidos de socorro simbólicos.

A especialista alerta ainda que crianças expostas a ambientes violentos tendem a naturalizar essas experiências e podem reproduzi-las em relações futuras. “Somente o afeto e a intervenção consciente quebram esse ciclo”, afirma Paula Furtado.

Em casos de suspeita de abuso ou negligência, a orientação é agir com cautela, sem acusações ou confrontos diretos, priorizando a escuta e o acolhimento. Estratégias como perguntas abertas, histórias mediadoras e frases que transmitam proteção ajudam a criar um ambiente de confiança.

A recomendação é buscar ajuda profissional e acionar os canais oficiais de denúncia, como o Disque 100, o Conselho Tutelar e o Ministério Público. Escolas, unidades de saúde, instituições religiosas e organizações comunitárias também integram a rede de proteção e podem atuar no acolhimento e no encaminhamento dos casos.

Quase 60 mil escolas não desenvolvem ações de educação ambiental

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Curso gratuito orienta professores no retorno às aulas e enfrenta a desinformação climática

Quase 60 mil escolas públicas e privadas no Brasil passaram o último ano letivo sem qualquer ação voltada à educação ambiental ou às mudanças climáticas. O dado, do Censo Escolar 2024, ajuda a explicar por que o debate climático ainda chega de forma fragmentada às salas de aula, justamente quando o tema ganha centralidade no país após a COP30 e diante do avanço da desinformação nas redes sociais.

É nesse contexto que o Redes Cordiais, em parceria com a Embaixada do Reino Unido, mantém disponível na volta às aulas o curso “No Clima Certo”: combatendo a desinformação climática nas escolas. A formação é gratuita, voltada a professores das redes pública e privada, e pode ser acessada pela plataforma Avamec. Como complemento, os educadores também têm acesso ao Guia “No Clima Certo” (acesse aqui), com propostas práticas para aplicação em sala.

Os números do Censo revelam desigualdades regionais. O Sudeste concentra o pior desempenho: cerca de 42% das escolas não realizaram nenhuma iniciativa ambiental em 2024. No Norte, o percentual chega a 39%. Estados como Tocantins, Santa Catarina e Espírito Santo aparecem entre os que mais implementam ações, mas ainda aquém do necessário diante da emergência climática.

O curso aposta em uma abordagem que combina ciência, comunicação e educação, com 20 horas de conteúdo online, distribuídas em videoaulas, materiais de apoio e referências bibliográficas. Participam especialistas reconhecidos, como integrantes do Observatório do Clima, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, além de profissionais ligados à checagem de informações, à divulgação científica e à educação midiática.

O material pedagógico que acompanha a formação organiza o debate em quatro frentes: fundamentos das mudanças climáticas; o que caracteriza a desinformação; como atuam o negacionismo e as narrativas distorcidas sobre o clima; e a circulação desses conteúdos no ambiente digital. A proposta é oferecer ao professor base conceitual e ferramentas práticas, sem transformar o tema em algo distante da realidade dos estudantes.

Para Clara Becker, diretora executiva do Redes Cordiais, a escola ocupa um papel decisivo nesse processo. “É nela que se forma o olhar crítico, a confiança na ciência e a capacidade de distinguir fatos de manipulações. A desinformação climática hoje é uma das maiores ameaças à ação ambiental, porque confunde, gera medo e protege interesses econômicos”, afirma.

Os dados científicos indicam que o desafio é concreto. Desde o fim do século 19, medições mostram um aquecimento global contínuo, acelerado nas últimas décadas. No Brasil, o Relatório Bienal de Transparência aponta 14 ameaças climáticas distribuídas pelas cinco regiões, com aumento de chuvas intensas no Sul, Norte e Sudeste, secas mais severas no Nordeste e Centro-Oeste e maior frequência de eventos extremos, como ventos fortes e ciclones extratropicais.

Apesar disso, a percepção da população ainda é limitada. Pesquisa do ITS Rio indica que apenas 22% dos brasileiros consideram saber muito sobre aquecimento global e mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, 74% afirmam que proteger o meio ambiente é mais importante, mesmo que isso implique menos crescimento econômico, um contraste que reforça a importância da escola como espaço de formação.

O cenário educacional confirma essa lacuna. Levantamento da Nova Escola, em parceria com o Office for Climate Education, mostra que 38% dos professores não se sentem preparados para trabalhar conceitos científicos ligados às mudanças climáticas, e mais de 40% das escolas ainda não incluíram um plano de ação climática em seus projetos pedagógicos. Ainda assim, o interesse por formação é alto: 86% dos docentes dizem querer participar de processos de qualificação continuada.

Criado em 2018, o Redes Cordiais atua justamente nesse cruzamento entre educação, informação e cidadania digital. A iniciativa já formou jornalistas, produziu guias sobre desinformação e segurança online e ganhou reconhecimento internacional, com destaque no mapeamento da Unesco sobre educação midiática. Agora, ao levar a educação climática para o centro do debate escolar, o projeto tenta enfrentar um dos principais desafios da agenda ambiental: transformar informação qualificada em conhecimento acessível, crítico e aplicável no cotidiano das salas de aula.

Confira o corpo docente do curso “No Clima Certo”

  • Claudio Angelo e Roberto Kaz (Observatório do Clima);
  • Jean Ometto (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE)
  • Cinthia Leone (Climainfo)
  • Matheus Soares (Desinformante)
  • Thaís Lazzeri (Instituto Fala)
  • Laila Zaid (Cuíca)
  • Kizzy Terra (Programação Dinâmica)
  • Rafaela Lima (Mais Ciência)
  • Cecília Alves Amorim (Carta Amazônica)
  • Liz Nóbrega (Aláfia Lab)
  • Karina Santos
  • Clara Becker (ITS Rio)
  • Januária Alves, Bibiana Maia da Silva e Ana D’Angelo (Redes Cordiais)
  •  Graham Knight (Embaixada do Reino Unido).

Crianças exaustas: rotina cheia e pouco sono elevam fadiga infantil

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Especialistas alertam que longas jornadas na escola, excesso de atividades dirigidas e falta de tempo livre estão deixando crianças emocional e fisicamente esgotadas

Crianças brasileiras estão mais cansadas, irritadas, chorosas e com dificuldade de lidar com o cotidiano. O comportamento, que antes era entendido como “fase”, agora aparece com consistência na fala de especialistas em desenvolvimento infantil e saúde neurológica. A rotina acelerada, marcada por longas jornadas escolares, deslocamentos extensos, estímulos constantes e pouco tempo livre, tem produzido um fenômeno silencioso: a exaustão infantil. 

Para além do cansaço pontual, o desgaste aparece na forma de irritabilidade frequente, regressões comportamentais, dificuldade de autorregulação e sinais físicos de tensão. Na primeira infância, quando o cérebro está em intensa maturação, a sobrecarga diária pode alterar comportamentos, afetar o humor, prejudicar o aprendizado e reduzir a capacidade de adaptação das crianças às demandas do dia a dia.

A psicóloga infantil Júlia Silva explica que o esgotamento emocional é uma das primeiras manifestações do cansaço infantil. “Observa-se maior irritabilidade diante de frustrações cotidianas, além de episódios de choro mais frequentes, mesmo durante situações de baixa complexidade emocional. A capacidade de autorregulação diminui, fazendo com que a criança demonstre impaciência, dificuldade em tolerar pequenas esperas e menor flexibilidade frente a mudanças na rotina”, afirma. 

Júlia reforça que algumas crianças parecem mais dispersas e desinteressadas em atividades que geralmente despertariam engajamento, um sinal de que o sistema emocional está sobrecarregado. “Esses comportamentos não devem ser interpretados como desobediência, mas sim como sinais de sobrecarga e necessidade de descanso e previsibilidade”.

A neuropediatra Angélica Ávila confirma que o fenômeno já aparece com frequência nos consultórios. “Crianças pequenas estão chegando mais cansadas, irritadas e com menor tolerância às demandas do dia a dia. Nos primeiros anos de vida, o cérebro está em constante maturação, aprendendo a se organizar, a lidar com emoções e a manter atenção. Quando há sobrecarga com excesso de estímulos, pouco descanso e rotinas muito cheias, o cérebro precisa trabalhar demais e o corpo começa a mostrar sinais de fadiga”. 

A rotina urbana contribui para agravar o quadro. Crianças passam, em média, até 10h por dia na escola, especialmente nas famílias que dependem do período integral para trabalhar. Após isso, enfrentam deslocamentos, chegam em casa no horário mais sensível da fadiga e ainda precisam cumprir tarefas escolares. A dra. Angélica descreve esse ciclo como uma fonte de desgaste constante. “Quando a carga diária é excessiva, isso se manifesta como irritabilidade frequente, choro fácil, dificuldade de concentração, alterações no sono e até sintomas físicos, como dores de cabeça, dor na barriga ou tensão muscular. O corpo sinaliza que o cérebro está sobrecarregado”.

Ávila destaca que, muitas vezes, essas crianças são incompreendidas e rotuladas como “mimadas” ou “mal-educadas”, quando, na verdade, estão apenas exaustas. “Isso é ainda mais relevante para crianças neuroatípicas, que têm maior sensibilidade a estímulos, dificuldade com transições e necessidade de pausas estruturadas. Para elas, a exaustão chega ainda mais rápido”.

O descanso insuficiente é um dos principais fatores de risco. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda entre 10 e 13 horas de sono para crianças de 3 a 5 anos, mas a rotina real muitas vezes impede a consolidação do descanso. Segundo a neuropediatra, o impacto é profundo.

“Durante o sono, ocorrem processos críticos, como consolidação da memória, organização das redes neurais e regulação de neurotransmissores ligados à atenção e ao humor. A privação de sono causa irritabilidade, dificuldade de aprendizado, menor controle emocional, fadiga cognitiva e até alterações no crescimento físico”, diz Ávila. Ela lembra que a rotina da família influencia diretamente o padrão de sono dos pequenos. “Dificilmente uma casa em que os pais vão dormir à meia-noite vai conseguir que a criança durma às 20h”.

Contágio emocional

A psicóloga Júlia Silva observa que o estresse dos adultos está intimamente ligado ao cansaço infantil. “Crianças têm alta sensibilidade ao ambiente emocional e tendem a captar alterações no tom de voz, no ritmo da rotina, na expressão corporal e no nível de tensão familiar. Quando o adulto está sobrecarregado, a comunicação se torna mais impaciente e apressada, gerando na criança a sensação de instabilidade”. 

Júlia define o processo como um “contágio emocional”, em que a criança internaliza o estado afetivo predominante do cuidador. “Comportamentos como agitação, insegurança, apego excessivo, alterações no sono e maior dificuldade de autorregulação são respostas diretas ao ambiente emocional do adulto”.

Ambientes barulhentos e imprevisíveis também colaboram para a fadiga. A dra. Angélica explica que o cérebro infantil tem dificuldade em filtrar estímulos constantes. “Ambientes com excesso de estímulos exigem esforço extra das redes neurais de atenção e regulação emocional, aumentando a fadiga cognitiva. As consequências incluem distração, irritabilidade, dificuldade de seguir regras, alterações na comunicação e menor tolerância a frustrações”. 

A exaustão acumulada pode, inclusive, provocar regressões. “Quando o sistema nervoso está sobrecarregado, o cérebro responsável pelo controle emocional e comportamental fica menos eficiente. Isso pode levar a distúrbios do sono, enurese, dificuldade de separação e impulsividade”. Ela alerta que o cansaço se torna sinal de alerta quando é persistente, não melhora com descanso adequado, afeta o comportamento, provoca regressões ou vem acompanhado de sintomas físicos frequentes.

Enquanto famílias tentam preencher todas as lacunas de tempo com atividades, especialistas defendem justamente o contrário. A pediatra Ana Escobar reforça que a agenda infantil está excessivamente preenchida. “Hoje em dia, as crianças têm uma vida muito cheia de compromissos. Existe a escola, outras aulas, natação, inglês, judô, uma série de atividades. Isso acaba sobrecarregando a agenda e reduzindo o tempo livre. As crianças precisam de tempo para brincar, para pensar e até para ter tédio”. 

Para Escobar, reservar períodos diários de ócio é essencial. “Na agenda das crianças deveria existir, obrigatoriamente, um tempo livre de pelo menos duas horas em que elas não farão nada. Vão brincar, ler uma revista, inventar algo. O tédio obriga a soluções criativas.” Escobar explica que a imaginação, exercitada nas brincadeiras espontâneas, é uma das funções mais importantes para a vida adulta. “A criança que imagina hoje é o adulto que encontrará soluções criativas no futuro”.

A exaustão infantil não é um detalhe da rotina, mas um sinal de que a infância está sendo vivida em ritmo incompatível com o desenvolvimento humano. Ao reconhecer e ajustar o que cansa as crianças, famílias e escolas podem devolver o que elas mais precisam: tempo, presença, descanso e a liberdade de ser o que são: crianças.

Crise climática agrava insegurança alimentar na primeira infância, alerta relatório

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Ondas de calor, eventos extremos e perda de safras elevam riscos de desnutrição, doenças e atraso no desenvolvimento infantil; Brasil tem uma em cada três crianças pequenas em insegurança alimentar

A crise climática já ultrapassou o campo da previsão científica e passou a interferir diretamente na nutrição, saúde e no desenvolvimento das crianças brasileiras, especialmente na primeira infância. É o que mostra o relatório A Primeira Infância no Centro do Enfrentamento da Crise Climática, publicado pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) com evidências atualizadas sobre como o ambiente extremo se torna um fator adicional de risco para bebês e crianças de 0 a 6 anos.

Hoje, uma em cada três crianças brasileiras de até 4 anos vive algum grau de insegurança alimentar, segundo o documento. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, enchentes e perda de biodiversidade têm afetado diretamente a produção de alimentos, ampliando custos e reduzindo a qualidade nutricional disponível para famílias vulneráveis. Esse cenário se agrava entre crianças pequenas, mais suscetíveis à desnutrição e às doenças associadas a ela.

O relatório evidencia uma cadeia de efeitos que começa no ambiente e chega à mesa: perda de safras e encarecimento de alimentos básicos, como arroz, milho, leite e hortaliças, reduzindo a diversidade e a qualidade das refeições familiares.

Secas históricas e rompimento de ciclos agrícolas, agravam a insegurança alimentar em regiões já vulneráveis, diz o relatório. Calor extremo e poluição afetam a saúde de gestantes e lactantes, reduzindo a oferta e a qualidade do cuidado. O documento aponta ainda que enchentes e desastres naturais interrompem rotinas de alimentação, amamentação e acesso a serviços de saúde.

O resultado aparece nas estatísticas: maior risco de anemia, diarreia, infecções respiratórias, atraso no crescimento, dificuldades de aprendizagem e aumento da mortalidade infantil.

Divulgação/NCPI

Primeiros anos: os mais afetados

A primeira infância é a fase da vida mais sensível à desnutrição e ao estresse ambiental. O documento destaca que bebês e crianças pequenas têm metabolismo mais acelerado, exigindo alimentação frequente e variada. Além disso, o corpo infantil perde água com mais facilidade, tornando ondas de calor perigosas.

O cérebro em desenvolvimento depende de nutrientes específicos, que podem faltar quando a alimentação se torna repetitiva ou insuficiente.

Além disso, crianças nascidas em 2020 enfrentarão 6,8 vezes mais ondas de calor, 2,8 vezes mais enchentes e 2 vezes mais incêndios florestais ao longo da vida do que aquelas nascidas em 1960.

Divulgação/NCPI

Desigualdade agrava o quadro

O relatório destaca um ponto crítico: a crise climática não atinge todas as crianças igualmente.

Entre os 18,1 milhões de brasileiros de 0 a 6 anos, mais da metade vive em famílias com renda baixa, moradias precárias, saneamento insuficiente e pouca proteção social, fatores que aumentam a vulnerabilidade aos efeitos climáticos.

Crianças negras, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e periféricas são as mais impactadas. Em áreas urbanas densas, a formação de “ilhas de calor” eleva os riscos de desidratação, desmaios e doenças respiratórias.

Educação infantil também sofre os efeitos

A escola, muitas vezes o único espaço de alimentação adequado para crianças pequenas, também é afetada. O relatório aponta que creches e pré-escolas com pouca ventilação e sem áreas verdes tornam-se ambientes inseguros em dias de calor extremo.

Falta de água, interrupções de energia e problemas estruturais comprometem a merenda, higiene e cuidados básicos. Educadores não têm formação para lidar com eventos climáticos durante o período escolar.

O que precisa ser feito agora

O relatório lista ações prioritárias para que o país proteja bebês e crianças pequenas diante da crise climática. Entre elas:

Na alimentação e saúde:

  • ampliar programas de segurança alimentar infantil;
  • fortalecer o SUS com foco em gestantes, bebês e vulnerabilidades climáticas;
  • garantir acesso à água potável em creches e comunidades.

Na educação:

  • climatização adequada, ventilação e áreas verdes nas escolas;
  • cozinhas com estrutura para operar em eventos extremos;
  • merenda escolar baseada em alimentos frescos e locais.

Na proteção social:

  • priorização da primeira infância em políticas de adaptação climática;
  • mapeamento de áreas de risco e reassentamento digno de famílias com crianças pequenas.

Ainda segundo o relatório, o Brasil registra prejuízos anuais de cerca de R$ 13 bilhões provocados por desastres climáticos. Perdas que recaem sobre famílias pobres e comprometem o desenvolvimento de toda uma geração.

O documento reforça que as crianças não causaram a crise climática, mas estão entre as que mais sofrem seus efeitos. E, se o país não agir agora, as desigualdades que já marcam a infância brasileira se aprofundarão nas próximas décadas.

Prematuridade: o que é idade corrigida, como calcular e até quando aplicá-la

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No mês dedicado à prematuridade, a campanha Novembro Roxo alerta para cuidados que evitam comparações injustas e ajudam a avaliar o desenvolvimento de forma adequada; Ministério da Saúde alerta que cerca de 340 mil bebês nascem prematuros por ano no Brasil

 

O Dia Mundial da Prematuridade, celebrado nesta segunda-feira (17/11), reforça um alerta urgente na saúde pública: a necessidade de reconhecer, compreender e acompanhar as especificidades dos bebês prematuros. A campanha Novembro Roxo mobiliza instituições públicas e privadas a debaterem sobre cuidados fundamentais que promovam o desenvolvimento saudável dos bebês que nascem antes do tempo.

O Ministério da Saúde estima que cerca de 340 mil bebês nascem prematuros por ano no Brasil, o que corresponde a aproximadamente 10% de todos os nascimentos. No Distrito Federal, esse dado chega a 12% dos nascimentos. A terapeuta ocupacional Pabline Cavalcante, especialista em prematuridade, explica que prematuros são aqueles que nascem com menos de 37 semanas de gestação.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prematuridade é dividida em três categorias: prematuro extremo (menos de 28 semanas), prematuro moderado (28 a 32 semanas) e prematuro tardio (32 a 37 semanas). Quanto menor o tempo de gestação, maior a chance de complicações respiratórias, neurológicas e metabólicas. Com isso, aumenta também a necessidade de um acompanhamento multiprofissional cuidadoso nos primeiros anos de vida.

Esse início precoce impacta diretamente o desenvolvimento. “Por causa das semanas a menos no útero, eles (prematuros) podem demorar um pouco mais para alcançar marcos como sentar, engatinhar ou falar. Isso não significa atraso: significa que o desenvolvimento está respeitando o tempo que ainda seria de gestação”, afirma Pabline.

É nesse contexto que surge um conceito essencial para interpretar o desenvolvimento dessas crianças: a idade corrigida. Pabline esclarece que a idade corrigida é a idade que a criança teria se tivesse nascido na data provável do parto (a termo). Ou seja, com 40 semanas de gestação. Já a idade em que o bebê nasce é chamada de idade cronológica.

Corrigir a idade do bebê prematuro é uma estratégia dos especialistas para acompanhar os marcos do desenvolvimento, pois bebês nascidos antes da hora se desenvolvem em um ritmo diferente dos bebês nascidos a termo. É como se eles nascessem “em desvantagem” em relação a quem chegou ao mundo na hora prevista.

Um exemplo utilizado para facilitar a importância da idade corrigida é o de uma corrida. É como se os bebês nascidos com 37 semanas ou mais estão todos posicionados na linha de largada, enquanto os prematuros já começam a disputa alguns passos para trás. Sendo assim, é inesperado, e até injusto, esperar que eles alcancem a linha de chegada ao mesmo tempo que os que estão à frente.

Essa diferença faz sentido prático no dia a dia das famílias e na avaliação dos profissionais de saúde, educação e desenvolvimento infantil. A introdução alimentar, a linguagem, a aquisição dos marcos motores e a observação clínica só podem ser interpretadas adequadamente quando o bebê prematuro é avaliado a partir da idade corrigida, e não da idade cronológica.

Como calcular a idade corrigida?

Para saber qual a idade corrigida da criança, são necessárias duas informações: a idade gestacional em que a criança nasceu e a idade gestacional em que ela deveria ter nascido.

A idade corrigida será o resultado da idade cronológica menos as semanas que faltariam para completar as 40 semanas de gravidez. Em outras palavras, a idade corrigida do prematuro é aquela contada a partir do momento em que ele completaria 40 semanas de gestação, e não do dia em que ele realmente nasceu. o cálculo é o seguinte:

idade cronológica – 40 = idade corrigida.

Ou seja, hipoteticamente, se a criança nasceu com 36 semanas de gestação há 2 meses, ela tem 44 semanas de vida e a idade corrigida dela é 4 semanas (um mês).

Se o parto ocorreu com 32 semanas de gestação, o bebê foi considerado prematuro de 8 semanas. Então, se ele tem agora 5 meses de idade cronológica (20 semanas desde o nascimento). Porém, a idade corrigida é 3 meses. Nesse exemplo, é necessário acompanhar o crescimento e o desenvolvimento do seu bebê levando em conta que ele tem 3 meses, e não 5 meses.

A ferramenta, no entanto, não se aplica a todos os aspectos da vida da criança. Vacinas, por exemplo, seguem sempre a idade cronológica, conforme o calendário oficial. Registros, cadastros e aniversários também seguem a idade real de nascimento.

Embora seja fundamental nos primeiros meses, o cálculo não acompanha a criança por toda a infância. “A idade corrigida é útil até os dois primeiros anos de vida, quando a maior parte dos marcos do desenvolvimento neuropsicomotor já foi alcançada”, orienta Pabline. Depois desse período, a comparação entre crianças prematuras e aquelas nascidas a termo tende a se estabilizar, e as avaliações se tornam mais lineares.

Novembro Roxo

O Novembro Roxo é uma das maiores campanhas de saúde pública promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por entidades de diversos países. Em 2025, o tema “Garanta aos prematuros começos saudáveis para futuros brilhantes” reforça a importância de oferecer aos prematuros um início de vida com cuidado especializado e contínuo, desde os primeiros momentos após o nascimento, passando pela internação, até o seguimento dos primeiros anos de vida.

A cor roxa, símbolo da campanha, representa a sensibilidade e a individualidade características dos bebês prematuros. Também simboliza transformação e renovação, refletindo o caminho de superação dessas crianças que chegam ao mundo antes do tempo.

A campanha reforça, ano após ano, que nascer antes da hora não determina o futuro, mas exige cuidado informado, apoio contínuo e acompanhamento atento. Compreender a diferença entre idade cronológica e idade corrigida é um passo fundamental para acolher o desenvolvimento da criança com mais leveza, precisão e segurança.

 

 

Senado aprova programa de cuidado voltado a mães e pais atípicos

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O projeto apresentado pelo senador Romário era destinado apenas às mães atípicas. Porém, o substitutivo apresentado na Comissão de Direitos Humanos (CDH) ampliou o direcionamento do programa, incluindo também pais e responsáveis legais

A Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado aprovou, nesta quarta-feira (12/11), o projeto que cria o programa Cuidando de Quem Cuida, destinado a oferecer suporte integral a mães, pais e responsáveis atípicos – aqueles que cuidam de crianças ou dependentes com deficiência, doenças raras, dislexia, TDAH ou outros transtornos de aprendizagem. A proposta, de autoria do senador Romário (PL-RJ), segue agora para a Câmara dos Deputados, caso não haja recurso para votação no Plenário.

A relatora, senadora Dra. Eudócia (PL-AL), deu parecer favorável ao texto. Ela destacou que o objetivo é fortalecer a saúde física e emocional desses cuidadores, ampliar políticas de acolhimento na atenção primária, garantir apoio psicológico, orientação familiar e promover ações de bem-estar e participação social. O programa também prevê rodas de conversa, atividades formativas e campanhas de sensibilização sobre maternidades e paternidades atípicas.

Em entrevista ao blog da Primeira Infância, o senador Romário afirmou que criar um programa como esse não é favor. É dever. Precisamos criar políticas públicas para cuidar de quem cuida. “Quando nasce o bebê, nasce também a mãe atípica, o pai atípico ou o responsável atípico. E eles precisam de suporte adequado justamente na fase mais frágil da vida”, disse.

Segundo dados do DataSenado citados na análise, 9% dos brasileiros se declaram cuidadores, sendo 81% mulheres. Em 88% dos casos, o cuidado é prestado a um familiar. A pesquisa mostra ainda que 55% das cuidadoras e cuidadores se sentem sobrecarregados e 83% nunca receberam qualquer tipo de treinamento. “Essa é uma atividade pouco valorizada e, muitas vezes, invisível. Há dificuldade de inserção no mercado formal e pouco tempo para o autocuidado”, afirmou a relatora.

“Essa pesquisa escancara uma realidade dura: a maioria esmagadora das cuidadoras são mulheres, e muitas estão exaustas, sem apoio emocional, financeiro ou social. O programa nasce justamente para enfrentar isso”, afirmou o senador, ao blog. 

O texto aprovado incorpora mudanças feitas na Comissão de Direitos Humanos (CDH), onde a senadora Mara Gabrilli (PSD-SP) estendeu o escopo do programa para abranger não apenas mães, mas também pais e outros responsáveis legais. A versão atualizada inclui ainda acolhimento no pós-parto imediato, reconhecendo o impacto emocional e físico do início da jornada atípica.

O projeto apresentado pelo senador Romário era destinado apenas às mães atípicas. Porém, o substitutivo apresentado na Comissão de Direitos Humanos (CDH) ampliou o direcionamento do programa, incluindo também pais e responsáveis legais. Além disso, foi acrescentado no programa o apoio pós-parto, que deve incluir acolhimento, inclusão, esclarecimentos e orientações necessárias sobre a condição da criança e suas especificidades imediatamente após o nascimento.

“Política pública boa é aquela que chega na ponta. Cada estado e município vai organizar o programa conforme sua realidade. O importante é que funcione”, explicou Romário.

Romário afirmou que o substitutivo “torna a iniciativa mais justa e mais humana”. O senador Alan Rick (União-AC) também elogiou a proposta e ressaltou a sobrecarga enfrentada por famílias atípicas no país.

 “Cuidar de quem cuida não é pauta de um partido; é pauta de humanidade. Tenho confiança de que a Câmara vai avançar com rapidez”, disse Romário. “Quando quem cuida está bem, a criança recebe um cuidado muito melhor. O programa existe para apoiar quem carrega a maior carga física e emocional, e, no fim, quem também ganha é o filho”, conclui o autor da proposta.