Última derrota do Gama foi em 2018: 30 jogos sem perder. Foto: Gabriel L. Mesquita/Ascom S.E Gama
Prejuízo de R$ 980.609,71 divulgado no balanço financeiro de 2019. Cinco meses de salários atrasados. Perdas de jogadores. Ações judiciais. Imerso em uma das maiores crises econômicas na curta história de 45 anos, o Gama vive um momento inusitado e contraditório dentro das quatro linhas. O atual campeão candango acumula 30 jogos de invencibilidade acumulados nas temporadas de 2019 e 2020. A maior sequência do país. A série aumentará para 31 se o atual campeão do Distrito Federal e representante da capital na Série D do Brasileirão deste ano derrotar o Sobradinho neste sábado, às 17h, no Bezerrão, no duelo de volta das quartas de final do Candangão. Protagonista da melhor campanha da primeira fase, o recordista de títulos domésticos (12) pode até perder por 5 x 0 para avançar às semifinais e manter o sonho do bi. O desempenho na etapa anterior é um dos critérios de desempate.
O perrengue financeiro contrasta com a situação do clube na virada do século. Há 20 anos, o Gama peitava a Confederação Brasileira de Futebol na Justiça comum no episódio marcado como “Caso Sandro Hiroshi” e impedia a entidade máxima do futebol brasileiro de organizar o Campeonato Brasileiro. Para driblar o impedimento, surgiu um “frankenstein” batizado à época de Copa João Havelange com 116 clubes.
Duas décadas depois, o trabalho de reconstrução é árduo. O Alviverde deve cinco meses de salário. Quitou janeiro na última segunda-feira. Ainda assim, está na rota do bicampeonato doméstico. A última derrota do Gama foi em 21 de março de 2018 para o Luziânia, por 1 x 0, pelas quartas de final daquele Candangão. O time foi eliminado.
De lá para cá, entrou em campo 30 vezes: 25 vitórias e 5 empates. Aproveitamento de 88,8%. Com a vitória por 5 x 0 sobre o Sobradinho no jogo de ida das quartas de final na última quarta-feira, dois dias depois de receber um mês de pagamento, o Gama atingiu a marca de 30 jogos de invencibilidade – 29 partidas no Candangão e uma na Copa do Brasil ao ser eliminado pelo Brasil de Pelotas após empate por 2 x 2, no Bezerrão.
Os 30 jogos de invencibilidade são sob o comando do técnico Vilson Tadei. O ex-meia, campeão gaúcho (1980) e brasileiro (1981) pelo Grêmio; e paulista no São Paulo (1980), usa os quase 40 anos de experiência no futebol para manter o elenco alviverde sob controle na adversidade. Levou o time ao título no ano passado contra o arquirrival Brasiliense. Em entrevista ao blog, o técnico Vilson Tadei explica como administra o perrengue econômico dentro e fora das quatro linhas:
“O grupo tem se mostrado coeso, muito unido e bastante amadurecido, principalmente no quesito de decisões em todos os sentidos. Eu sempre busco harmonia entre eles e a diretoria. Creio que isso foi importante na condução do processo e na volta às atividades. Um pensamento único de treinar forte, porque o tempo era muito pequeno. Temos que continuar assim, atentos e focados no campeonato. A diretoria sempre esteve presente contornando situações dos mais necessitados e resolvendo os problemas”.
O capitão Emerson sabe exatamente o que é ficar tanto tempo sem perder. Ele jogava no Coritiba, em 2011, quando o time comandado pelo técnico Marcelo Oliveira ostentou 29 partidas sem perder no Campeonato Paranaense e na Copa do Brasil. Entre os 29 jogos sem derrotas, o Coxa registrou 24 triunfos consecutivos. O Guinness Book chegou a registrar essa série como recorde mundial em um ano — a sequência invicta do Gama começou no Candangão do ano passado e continua em 2020.
A SÉRIE INVICTA DO GAMA
2019
Gama 5 x 0 Bolamense
Paracatu 0 x 1 Gama
Gama 2 x 0 Capital
Santa Maria 0 x 3 Gama
Gama 2 x 2 Luziânia
Formosa 1 x 2 Gama
Ceilândia 0 x 1 Gama
Gama 4 x 1 Sobradinho
Gama 1 x 0 Brasiliense
Real 0 x 1 Gama
Gama 1 x 0 Taguatinga
Formosa 0 x 2 Gama
Gama 1 x 1 Formosa
Real 1 x 2 Gama
Gama 1 x 0 Real
Gama 3 x 1 Brasiliense
Brasiliense 2 x 2 Gama
2020
Gama 5 x 2 Taguatinga
Sobradinho 1 x 3 Gama
Gama 5 x 0 Ceilandense
Ceilândia 0 x 6 Gama
Gama 3 x 3 Brasil-RS (Copa do Brasil)
Brasiliense 1 x 2 Gama
Gama 3 x 0 Unaí
Paranoá 0 x 5 Gama
Gama 2 x 2 Capital
Luziânia 1 x 5 Gama
Gama 3 x 1 Formosa
Gama 2 x 0 Real
Sobradinho 0 x 5 Gama
Há quem rebatize o tradicional time no Distrito Federal de Cooperativa Esportiva do Gama em vez de Sociedade Esportiva do Gama devido ao empenho do atual elenco em manter o clube de pé. A dedicação é comprovada pelo prata da casa Emerson. “A equipe encaixou. Os resultados acontecem por isso. Perdemos alguns jogadores, mas conseguimos suprir as ausências. Quem chegou, entrou na onda. É um grupo com metas. O Vilson Tadei tem o grupo na mão. O elenco entende o que ele pede”, conta.
Parte do grupo compreende também a grave crise financeira. Alguns não suportaram as dificuldades e optaram por deixar o clube. São os casos de Luquinhas, Wagner Balotelli e Jefferson Maranhão. A perda mais recente é o lateral-direito Paulo Henrique, como revelou o colega Gabriel Caetano. Apesar da constante instabilidade, o zagueiro Emerson pondera:
“Mesmo na dificuldade financeira sempre conseguimos contornar. É a mentalidade do grupo. O elenco é bastante profissional. Colocamos na cabeça dos jogadores o objetivo de fazer o Gama grande. Nós, os mais velhos, temos uma força a mais na palavra. Estamos vendo o esforço da diretoria, até mesmo depois da pandemia. Acreditamos que vai melhorar, nada é para sempre”, diz a cria do Gama, com passagem por Guarani, Flamengo, Atlético-MG, Coritiba, Botafogo, Athletico-PR e Seleção Brasileira na era Mano Menezes.
Apesar de o balanço financeiro apontar prejuízo de R$ 980.609,71 e o clube dever cinco folhas de pagamento, o presidente Weber Magalhães promete dias melhores. “O segredo da invencibilidade é trabalho e confiança. Eu não me escondo. Estão acreditando em tudo o que a gente está tentando fazer. Tenho que valorizar os jogadores. São heróis”.
STF
O Gama é um entre tantos clubes do Distrito Federal e do país beneficiados pela polêmica decisão do Supremo Tribunal Federal. Em dezembro do ano passado, o STF derrubou trecho da lei aprovada em 2015 pelo Congresso Nacional que permita rebaixar times de futebol que não apresentassem comprovantes de regularidade fiscal e trabalhista.
A ação foi apresentada em 2016 pelo partido político PHS e o Sindicato Nacional das Associações de Futebol Profissional e suas Entidades Estaduais de Administração e Ligas contra a lei que criou o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (Profut). O STF suspendeu, porém, apenas o trecho que estabelecia requisitos para a participação de campeonatos. Para a Corte, a regra feria a autonomia das entidades desportivas, garantida pela Constituição.
Entre os pré-requisitos estavam a Certidão Negativa de Débitos relativos a Créditos Tributários Federais e à Dívida Ativa da União (CND), o certificado de regularidade do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), e a comprovação de pagamento dos vencimentos acertados em contratos de trabalho e dos contratos de imagem.
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