Pedro fez um gol, desperdiçou outros e perdeu pênalti contra o Boavista. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo
As vaias de parte dos rubro-negros a Pedro, no Maracanã, quando o centroavante autor de um gol e vilão em uma cobrança de pênalti foi substituído por Gabriel Barbosa na vitória do Flamengo por 4 x 0 contra o Boavista pela nona rodada Campeonato Carioca expõem a imaturidade de alguns torcedores para lidar com o que tanto reivindicam: amplitude de elenco. Uns clubes com tanto e outros com tão pouco.
A era dos pontos corridos, a partir de 2003, inaugurou um novo tempo no Brasil. O discurso passou a ser que era preciso ter banco de reservas para suportar o rali de jogos da temporada. Alguns plantéis vitoriosos do país tiveram sucesso com dois centroavantes de alto nível. Nem sempre ambos escalados como titulares. Foi assim, por exemplo, com o próprio Flamengo na conquista de 2020. Rogério Ceni optou por Gabigol e Pedro ficou no banco de suplentes. O Botafogo do ano passado pagava Tiquinho Soares e Diego Costa e ficou pelo caminho. Também havia o debate sobre quem merecia vaga no time e no banco.
Em 2010, o Fluminense desfrutava no elenco de dois dos maiores goleadores da história do Brasileirão: Fred e Washington. Mesmo com status de maior artilheiro de uma edição da Série A em 2004 (34 gols), o Coração Valente topou numa boa o papel de estepe na campanha do título. Muricy Ramalho fez a torcida tricolor entender a relevância dos dois jogadores para o sucesso coletivo. Washington viveu o inverso na campanha da Libertadores de 2008. O debate à época era se Renato Gaúcho deveria usá-lo ao lado de Dodô. No ano passado, Fernando Diniz lançou Cano e John Kennedy juntos e separados. Ambos indispensáveis nas conquistas do bicampeonato carioca e da inédita Libertadores.
Grandes times têm dois centroavantes. Batido pelo Flamengo na final do Carioca de 2001, o Vasco desfrutava de Romário titular e Viola na reserva. Ambos com o título da Copa do Mundo de 1994 no currículo e uma coleção de gols decisivos. O Corinthians campeão da Copa do Brasil em 2009 ostentava o indiscutível Ronaldo Fenômeno e Souza, artilheiro do Campeonato Brasileiro de 2006 com a camisa do Goiás. Havia espaço para os dois.
Torcedores brasileiros invejam elencos de times europeus, mas quando o clube brasileiro do coração trabalha para fazer igual, a tolerância é zero. A Internazionale foi vice-campeã da Champions League na temporada passada com o bósnio Dzeko titular e o fora de série belga Lukaku no banco. Gabriel Jesus entendeu o papel dele no elenco do Manchester City como alternativa ao ídolo do time, Sergio “Kun” Agüero. Ambos úteis ao exigente técnico Guardiola de acordo com as respectivas características e as necessidades de cada partida.
Alguns técnicos usam um centroavante. Outros encontram solução para acomodar dois ao mesmo tempo. Dorival Júnior fez isso com Gabigol e Pedro nas conquistas da Copa do Brasil e da Libertadores em 2022. Massimiliano Allegri uniu o útil croata Mandzukic ao agradável argentino Higuaín na campanha do vice na Champions League de 2017. Quatro anos antes, Mandzukic e Mário Gomez disputavam espaço no Bayern de Munique. O time alemão conquistou o título da Champions League com Mandzukic titular. Gomez entrou no lugar dele praticamente no fim da decisão contra o Borussia Dortmund.
Hoje, Pep Guardiola tem dois centroavantes no Manchester City. O fora de série Haaland é titular. O argentino Julián Álvarez, suplente. Em alguns jogos, o espanhol usa os dois juntos. Foi assim na dificílima vitória dessa terça-feira contra o Brentford pelo Campeonato Inglês. Álvarez iniciou a partida na linha de três armadores, ao lado de Phil Foden e Oscar Bobb. Atuou posicionado atrás de Haaland, com a missão de abastecer o norueguês. Pois bem. De quem foi a assistência para o gol da vitória? Álvarez deu o passe para o coleguinha.
Tite tem uma alternativa parecida com a de Guardiola para acomodar Gabigol e Pedro juntos quando julgar necessário. Não é lado a lado, mas com Gabi atrás de Pedro, assim como Álvarez e Haaland. Basta lembrar a explicação dele na vitória contra o Audax, em Manaus: “Como nós fizemos hoje. Ele (Gabigol) atrás do Pedro, fazendo uma pressão lado a lado, para que corte o passe do adversário, sim. Não dá para usar Gabriel do lado ou Pedro do lado, fica inviável. E um modelo de tripé no meio-campo, para ter o Arrascaeta com dois na frente, não temos jogadores com essa característica”, disse Na Arena da Amazônia.
É quase impossível exigir razão dos torcedores em um esporte tão passional como o futebol, mas entender a importância de ter Pedro e Gabriel Barbosa no elenco e a compreensão de que eles são muito úteis juntos ou separados é o primeiro passo para a evolução do que é o futebol pós-moderno. Em terra de cego, quem tem dois centroavantes desse nível é candidatíssimo a rei. Simples assim.
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