O feitiço virou contra o feiticeiro: como os EUA minaram o ouro do Brasil

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Há quem tire leite de pedra. Arthur Elias extraiu prata em menos de um ano depois de flertar com o ouro na derrota do Brasil por 1 x 0 para os Estados Unidos, no Parque dos Príncipes, na campanha no torneio de futebol feminino dos Jogos Olímpicos de Paris-2024. O terceiro vice em 20 anos depois de Atenas-2004 e de Pequim-2008 é simbólico. Um marco entre o fim da era Marta e o começo de um ciclo promissor sem a jogadora eleita seis vezes número 1 do planeta rumo à Copa do Mundo de 2027, no Brasil, e a Los Angeles-2028.

A Seleção deixa a França sem Marta, mas com ideias na cabeça, conceitos de jogo, variações táticas, repertório, time e um estilo de jogo a evoluir. A média de idade das 11 titulares no início da decisão contra os EUA era de 25,6 anos. Se for bem trabalhado, o elenco chegará mais forte e maduro à Copa do Mundo daqui a dois anos e meio.

O terceiro revés diante dos EUA em uma final olímpica chama a atenção para alguns detalhes. Escrevi no meu artigo deste sábado no Correio Braziliense que o técnico Arthur Elias deveria ter iniciado a partida com Marta. Colocá-la em campo logo depois de os EUA abrirem o placar, para mim, não foi a decisão correta. Mesmo assim, a entrada da camisa 10 preocupou as norte-americanas. Mais do que isso: abriu espaço para outras jogadoras aproveitarem alguns clarões. Em um deles, Marta colocou a bola na cabeça de Adriana nos acréscimos e a goleira Alyssa Naeher impediu a partida de avançar à prorrogação.

Arthur Elias foi vítima do próprio feitiço no segundo tempo. Apostou na marcação por encaixe no campo inteiro nas vitórias contra França e Espanha nas oitavas e nas quartas de final. Aplicou muito bem a fórmula no primeiro tempo contra os EUA e poderia ter aberto o placar até mesmo no pênalti ignorado pela equipe de arbitragem da sueca Tess Olofsson.

Na etapa inicial, a Seleção foi agressiva configurada no 3-2-5 quando tinha a bola. Lauren, Tarciane e Thais Ferreira protegiam a goleira Lorena. Duda Sampaio e Yasmin ficavam mais posicionadas do centro para a esquerda. À frente delas, Adriana e Gabi Portilho bem abertas na direita, Yaya e Jheniffer próximas no meio e Ludmila mas pela esquerda. Faltava quem povoasse a área para incomodar as zagueiras rivais. As pontas faziam esse papel.

O feitiço virou contra o feiticeiro no segundo tempo. A técnica Emma Hayes posicionou os EUA para marcar o Brasil da mesma forma, ou seja, por encaixe no campo inteiro. A Seleção não soube sair da arapuca e passou a oferecer o que as adversárias desejavam: espaço para contra-atacar. Bastou um vacilo no lado direito, no setor protegido por Gabi Portilho, Adriana e Lauren, para Mallory Swanson aproveitar um contra-ataque, sair na cara do gol e finalizar com tranquilidade na saída da excelente goleira Lorena.

Swanson teve a frieza que faltou a Ludmila aos dois minutos do primeiro tempo. A atacante poderia ter aberto o placar e dado outra direção ao jogo. Não foi um erro isolado. O futebol feminino brasileiro carece de formação nas divisões de base. Muitas jogadoras chegam cruas aos times e até mesmo na Seleção profissional. Talvez, faltou a Ludmila um bom professor ou professora minimamente capaz de ensiná-la a tomar a melhor decisão em lances como o desperdiçado por ela. O país precisa olhar urgentemente para a formação.

A nossa escalação prova isso. Há dois anos, as defensoras Lauren e Tarciane, ambas de 21 anos, disputavam o Mundial Sub-20 na Costa Rica na campanha do terceiro lugar. Ambas encerram o torneio como referências do setor na caminhada até a Copa. A volante Yaya e a atacante Priscila também faziam parte daquele grupo liderado por Jonas Urias. Não se engane: a base é o atalho para o sucesso do futebol feminino em casa na Copa do Mundo de 2027 e na retomada da caça ao ouro em Los Angeles-2028.

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Marcos Paulo Lima

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