Candidato a medalha em Paris-2024, Brasil veste Nike e o COB, Peak, Foto: Thais Magalhães/CBF
Finalista da Copa América neste sábado contra a Colômbia, às 21h, em Bucaramanga, e classificada para a Copa do Mundo de 2023 e os Jogos de Paris-2024, a Seleção Brasileira feminina de futebol deve antecipar, em breve, uma tentativa de acordo de paz entre o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
As duas entidades são patrocinadas por marcas diferentes de material esportivo e entraram em atrito na conquista do bicampeonato do país no torneio masculino. Uma ordem da antiga diretoria da CBF depois da vitória contra a Espanha, por 2 x 1, no Estádio Internacional de Yokohama, no Japão, determinou que os jogadores não usassem o agasalho da chinesa Peak no pódio. Os atletas receberam a medalha de ouro com o casaco amarrado na cintura. A norte-americana Nike veste a CBF. O episódio, inclusive, virou caso de Justiça.
“Está rolando (o processo), mas temos que reconhecer os valores da modalidade. O futebol foi bicampeão olímpico. Isso não o exime. Até hoje, não identificamos de quem foi a orientação. Não foi agradável, mas não é motivo de a gente romper o casamento”, confirmou ao ao blog,em março, o presidente do COB, Paulo Wanderley.
Por ironia do destino, o futebol é a primeira modalidade olímpica classificada para os Jogos de Paris-2024. As atletas comandadas pela técnica sueca Pia Sundhage conquistaram esse direito ao eliminar o Paraguai nas semifinais da Copa América. Consequentemente, o debate ressurge. Um dos lados do balcão acena com a possibilidade de diálogo. Um dos trunfos para a conversa é que as duas entidades mudaram seus diretores de marketing.
Em entrevista ao blog na última terça-feira, em São Paulo, no evento que marcou a contagem de dois anos do COB rumo a Paris-2024, o diretor de marketing Gustavo Herbetta sinalizou a possibilidade de um acordo com a CBF. “Esse problema não apareceu muito em Londres-2012 e no Rio-2016 porque as marcas eram da mesma empresa. Ficou mais evidente em Tóquio, mas a ideia, agora, é a gente antecipar essa conversa, planejar e entender”, disse o executivo no dia em o Brasil confirmou presença no torneio feminino.
Há pelo menos dois argumentos para a abertura do COB com o novo diretor de marketing da CBF, o espanhol Lorenzo Perales. “Não é exclusividade do futebol. Outros atletas do Time Brasil competem com marcas que patrocinam a confederação e, se performam, ganham medalha, sobem (ao pódio) com o uniforme oficial do Time Brasil, da marca parceira do COB. É questão de planejamento”, reforça Herbetta.
O “case” de Rayssa Leal, a Fadinha, medalhista de prata em Tóquio-2020, será usado para ilustrar a conversa. “O skate é um exemplo. A Rayssa Leal competiu com a marca patrocinadora da Confederação Brasileira de Skate e, ao subir para a cerimônia de medalhas, usou o uniforme oficial do COB. Atletas da CBSK vestiram Nike no Japão.
É uma questão de alinhar os pontos, os interesses de ambas as entidades e planejar”, pondera o diretor, com experiência de quem passou pelo marketing de um clube de futebol. Herbetta chefiou o marketing do Corinthians.
A treta parece nova, mas é antiga. A guerra entre as marcas fornecedoras de material esportivo do COB e da CBF é uma herança das eras Carlos Arthur Nuzman e Ricardo Teixeira. A polêmica já quebrou protocolo olímpico em Atlanta-1996 e fez até parte de negociação para não prejudicar a candidatura do Rio a receber os Jogos de 2016.
Em Atlanta-1996, a CBF cumpria os últimos dias do contrato com a Umbro. A fornecedora inglesa de material esportivo havia vestido a Seleção na campanha do tetra na Copa dos Estados Unidos. No entanto, a roupa do Time Brasil nos Jogos Olímpicos era de grife concorrente: a Reebok. O ápice do atrito aconteceu na decisão da medalha de bronze.
O time liderado por Zagallo goleou Portugal por 5 x 0 e ficou com o terceiro lugar. Um suposto acordo entre a Fifa, presidida à época pelo sogro de Ricardo Teixeira, João Havelange, e o Comitê Olímpico Internacional (COI), liderado à época por Juan Antonio Samaranch, antecipou a entrega do prêmio ao Brasil. O correto seria a Seleção receber a medalha depois da final entre Argentina e Nigéria. As decisões do ouro, prata e bronze foram no mesmo estádio e cidade — Athens, a 114km de Atlanta.
Teixeira disse que não teve nada a ver com a vergonhosa entrega antecipada da medalha de bronze à Seleção em 2 de agosto e não no dia seguinte, como manda o figurino. Fez cara de surpreso, mas foi desmentido. Antes de o jogo entre Brasil e Portugal começar, os alto-falantes do estádio anunciaram que, em caso de vitória brasileira, a premiação seria feita após o jogo e, na hipótese da vitória lusa, somente no dia seguinte.
O Brasil, vestido à época pela inglesa Umbro, goleou Portugal por 5 x 0 e não precisou vestir o uniforme oficial do COB, que à época usava Reebok. O time de Zagallo recebeu a medalha antecipadamente e deixou o espaço reservado ao terceiro lugar no pódio vazio na premiação da final.
Em 2008, a polêmica foi sobre o escudo da CBF. A entidade queria mantê-lo e fez uma queda de braço com o COI. Pelas normas, somente o escudo de cada comitê olímpico nacional ou símbolos como a bandeira ou o nome do país são permitidos. Nem a Intervenção da Fifa deu jeito. O Brasil estreou com a logomarca da CBF contra a Bélgica, mas recuou contra a Coreia do Sul depois de um acordo político entre os presidentes do COB e da CBF.
À época, o Brasil pleiteava receber os Jogos Olímpicos de 2016. Nuzman convenceu Teixeira de que a teimosia em utilizar o escudo poderia prejudicar a candidatura do país no colégio eleitoral. Para não ser acusado de atrapalhar os planos olímpicos do Brasil, Teixeira, que já tinha a organização da Copa do Mundo de 2014 assegurada, teve de ceder, mesmo contra a própria vontade. Até jogadores como Ronaldinho Gaúcho e Hernanes entraram na pilha em defesa da utilização do escudo da CBF nos Jogos de Pequim.
Eliminado pela Argentina na semifinal, o Brasil disputou o terceiro lugar contra a Bélgica. Ganhou e passou por certo constrangimento no pódio. Os jogadores usavam uma camisa da CBF na premiação ao lado da bicampeã Argentina e da vice Nigéria, mas o escudo da entidade máxima do futebol brasileiro estava coberto com esparadrapo.
O futebol participou dos Jogos Olímpicos de Londres-2012 e Rio-2016, mas não houve treta com uniforme por um motivo simples: a Nike vestiu o Time Brasil nas duas edições. Dessa vez, o COB acertou com a chinesa Peak e viu os bicampeões olímpicos ignorarem a roupa na premiação. Além de publicar nota de repúdio, o COB acionou a CBF na Justiça.
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