Freio no debate sobre mudanças no rebaixamento corta pela raiz o ensaio de uma “mexicanização”

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A sonhada liga nacional não sai do papel, entre outros motivos, porque os clubes menos populares da Série A clamam por isonomia na distribuição das cotas de tevê. Não aceitam receber menos do que Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco, por exemplo. Contraditórios, esses mesmos times que posam de prejudicados no fatiamento do contrato de transmissão são capazes de se unir aos mais queridos no ranking das torcidas por mudanças na regra do rebaixamento a fim de se blindar e oprimir, se possível reduzir a zero as oportunidades de agremiações alocadas na segunda, terceira e quarta divisões do Campeonato Brasileiro.

Aos amigos tudo, aos inimigos uma nova lei do rebaixamento. Oportunista, a discussão surge no momento em que quase todos os times campeões, desde 1959, estão juntinhos no andar principal. Isso é raro na era dos pontos corridos. Quem entrou no disputado elevador da Série B em 2022 — Cruzeiro, Grêmio, Bahia e Vasco — agora deseja uma vaga a menos para descer e uma a menos para subir. E dane-se quem ficou na recepção à espera de um próximo ascensorista gentil capaz de abrir as portas aos menos favorecidos. o temor é óbvio: dos 17 campeões da Série A, apenas Sport e Guarani estão fora da elite.

O argumento de que campeonatos como o espanhol, alemão, inglês e italiano rebaixam e sobem três times é sutil. Talvez o ensaio para uma discussão maior em tempos de debate acirrado pela criação da liga. Daí o protesto veemente dos 20 clubes da Série B contra o movimento elitista. A segunda divisão pressionou e a CBF protelou o polêmico debate.

Os clubes de menor investimento precisam ficar atentos. Prestar atenção, por exemplo, ao que aconteceu no México. Em 2018, os burgueses de lá anunciaram o fim do rebaixamento na criação da Liga MX. Os 20 times da primeira divisão ficaram imunes ao descenso. O último colocado teria apenas de pagar multa. Para figurar na elite, o clube não poderia ter dívidas, ser dono de um  estádio com mais de 20 mil lugares e não pertencer a um dono que já tivesse equipe na primeira divisão. As regras entraram em vigor em 2018/2019.

Quatro anos depois, a Liga MX estuda desfazer a imunidade. A tendência é pela reinclusão do rebaixamento no regulamento no principal torneio do país. Há uma percepção de que essa zona de conforto prejudicou o futebol mexicano. Os clubes perderam a hegemonia na Concachampions. Viram pela primeira vez uma franquia da Major League Soccer erguer o troféu. A seleção perdeu a Copa Ouro para os EUA e caiu na primeira fase na Copa do Mundo. As medidas fazem parte de um pacote de reformas estruturais no futebol mexicano.

O corporativismo da tropa de elite do futebol brasileiro é explicada pelas duas décadas de implementação do sistema de pontos corridos. A contar de 2003, gigantes como Botafogo, Vasco, Corinthians, Palmeiras, Atlético-MG, Cruzeiro, Internacional, Grêmio, Athletico-PR e Coritiba caíram para a segunda divisão. Dos 20 times da elite, seis ainda não conhecem a queda na atual fórmula de disputa, ou seja, levando em conta apenas os pontos corridos: Cuiabá, Flamengo, Fluminense, Red Bull Bragantino, Santos e São Paulo.

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Marcos Paulo Lima

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