Flamengo entrega a Tite o que ele não encontrou na Seleção: ritmistas

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Tite foi corretamente criticado nas principais derrotas do Brasil pela demora ou erro na tomada de decisão nas eliminações contra Bélgica e Croácia na Copa do Mundo e na derrota para a Argentina na final da Copa América de 2021. Aparentemente, ele e a comissão técnica formada por César Sampaio, Cléber Xavier e Matheus Bachi tenham feito autocrítica nos meses sabáticos antes da assinatura do contrato com o Flamengo. A inquietação é maior. A qualidade também. O treinador passou seis anos e meio à procura de um “Arrascaeta”. Sentia falta de um ritmista. “Preciso de um articulador, um jogador de armação. Para usar um termo próprio de carnaval, eu preciso de um ritmista”, afirmou em fevereiro de 2018 citando uma das carências da Seleção.

A escalação inicial dessa quinta-feira tinha dois. O outro é Gerson. O coringa permitiu ao técnico reconfigurar o sistema de jogo pelo menos duas vezes sem tirá-lo de campo. Desde a chegada, Tite usou o “joker” com segundo volante, meia, aberto na direita e até na esquerda como na vitória no clássico contra o Vasco. Podemos até mesmo acrescentar um terceiro: Pulgar, outro “ritmista” relevante no centro pensante do jogo. É dele o passe para o gol de Arrascaeta.

O ótimo Red Bull Bragantino comandado por Pedro Caixinha levou Tite a exaustão na vitória do Flamengo por 1 x 0, no Maracanã. Dominou o time rubro-negro com um sistema defensivo fora do convencional. Havia apenas um zagueiro genuíno: Léo Ortiz. Todos os companheiros dele são laterais de origem: Aderlan (direito) e Luan Cândido e Juninho Capixaba (esquerda). A equipe paulista não deu corredor para os pontas Luiz Araújo e Everton Cebolinha.

Ofensivamente, investiu nos avanços em cima de Matheuzinho. O lateral-direito era facilmente envolvido pela saída de bola pelo lado dele tramada por Juninho Capixaba, Matheus Fernandes, Vitinho e outras peças que se associavam naquele pedaço de campo. Resultado: Matheuzinho recebeu cartão amarelo, ficou pendurado e não retornou para o segundo tempo. Entrou Wesley.

A entrada do jovem lateral de 20 anos e do volante Pulgar no lugar de Luiz Araújo não foram aleatórias. Ambos tinham a responsabilidade de se juntar a Gerson para neutralizar o ímpeto do Bragantino. O capitão deixou de ser volante para virar um falso ponta-direita. Parecido com a função no primeiro tempo da vitória contra o Cruzeiro, em Belo Horizonte.

O Flamengo equilibrou temporariamente o jogo, mas o Red Bull era mais perigoso. Acertou a trave de Rossi. Rondava a área rubro-negra com facilidade e incomodada o goleiro adversário. Além de fechar o gol e contar com a sorte, o arqueiro argentino era desafiado a comandar a saída de bola com passes longos. Pedro Caixinha impedia Tite de sair jogando a partir da defesa.

Então, veio a segunda sacada do banco no confronto de ideias. Adenor surpreendeu até mesmo a torcida rubro-negra ao colocar Bruno Henrique em campo na ponta-direita. Versátil, Gerson retornou ao meio de campo para se transformar em primeiro volante e deu liberdade para Pulgar se lançar ao ataque a fim de formar um trio com Wesley e Bruno Henrique.

Ali nasceu o gol da vitória. Da triangulação culminando com o passe de Pugar para o falso 9 Arrascaeta. O uruguaio tem liberdade de movimentação com Tite. Circula pelo meio de campo em busca de espaço. Encontrou vindo de trás na meia direita e protagonizou um gol mágico. Colocou a bola no cantinho como se tivesse um taco de sinuca e a última bola para encaçapar.

O Red Bull Bragantino perdeu o jogo porque não tem finalizadores com a qualidade de Arrascaeta. Bastou uma bola limpa nos pés do uruguaio para convertê-la em gol. O time de Caixinha teve oportunidades na frente de Rossi e abusou do desperdício. O Flamengo venceu porque o tempo de reação do Tite parece ter mudado em relação às maiores derrotas na Seleção e ele tem muita qualidade no banco de reservas. Soube utilizá-la em meio ao sofrimento e viu Arrascaeta tirar da cartola um golaço na corrida pelo acesso direto à fase de grupos da Libertadores. Os tropeços na campanha recomendam pensar em título com moderação.

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Marcos Paulo Lima

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